Capítulo 2

De volta àquela porcaria imunda que Bella ousava chamar de lar, ela se arrumava para seu primeiro emprego de verdade como faxineira no restaurante gigantesco — Aurum.

Ela prendeu o cabelo preto num rabo de cavalo bem apertado e passou um pouco de vaselina nos lábios carnudos. Erguendo um espelhinho, analisou o próprio reflexo e sorriu. A pobreza podia ser sua companhia constante, mas a beleza era só dela, e ela se orgulhava disso, apesar das espinhas miúdas e das irritações na pele do rosto.

Ela puxou o jeans rasgado, forçando-o a passar pelos quadris. Era apertado, justo demais para suas curvas, mas ela não tinha dinheiro para roupas novas. Então tinha que se virar com o que tinha e, com o pagamento, comprar alguma coisa depois — afinal, era diária.

Pegou a bolsinhas pequena, jogou a alça no ombro e saiu para encarar o dia.

(RESTaurante AURUM)

Bella observava os ricos entrarem em fila no restaurante, revirando os olhos enquanto enxugava a água que uma mulher descuidada tinha derramado no chão.

— Ela nem pediu desculpa — resmungou, balançando a cabeça. — Gente rica… acha que é deus.

— Ei! Você! Uma mesa precisa ser limpa! — gritou a chefe das camareiras.

Bella assentiu e correu até lá. Começou a tirar as manchas da mesa, mantendo os movimentos rápidos e eficientes.

Seu olhar foi parar numa jovem segurando um bebê — uma menininha muito fofa — e, do outro lado, um homem de cabelo escuro e óculos de sol, absorto no celular.

Bella fez uma careta. Que pai inútil… nem consegue prestar atenção na própria família. Rico e negligência andam de mãos dadas, pensou, terminando a limpeza com um desprezo silencioso.

Ela não percebeu o homem em outra mesa, observando-a atentamente, mordendo o lábio. Num movimento deliberado, ele derrubou um copo de suco, chamando a atenção dela.

Bella virou-se ao ouvir o barulho. Por ser a faxineira mais próxima, foi rápido até a mesa dele e começou a limpar o suco derramado.

— Quanto por uma noite? — ele sussurrou.

— Hã? Com licença, senhor? — ela perguntou, sem ter ouvido de primeira, de verdade.

— Eu disse: quanto por essa gostosona… — a mão dele deslizou pela bunda dela, e Bella, por reflexo, estapeou o rosto dele com força.

O gerente correu no mesmo instante em que viu a confusão. Todos os olhares do restaurante estavam voltados para a cena.

— Senhor, esse homem tentou me tocar indecentemente — Bella informou, firme.

O gerente mal olhou para ela. Em vez disso, virou-se para o homem. — Sentimos muito, senhor. Ela é nova, e esta será a última vez dela aqui. Eu garanto — disse, descartando Bella como se nada tivesse acontecido, enquanto o homem lançava a ela um olhar de ódio.

Ela abriu a boca, incrédula. — Eu acabei de dizer que ele…

— Fique quieta e saia. Você está demitida — cortou o gerente, seco.

O coração de Bella se apertou; ela literalmente tinha acabado de conseguir o emprego, já tinha pensado em como ajeitar a vida com aquilo. Isso não podia estar acontecendo.

— Não — ela sussurrou. — Por favor, não me demita. O que ele fez foi errado. O senhor não pode simplesmente…

— Cai fora daqui, sua incompetente! — berrou o gerente, arremessando um copo cheio de vinho no rosto dela.

Bella não se encolheu. Apenas encarou o homem, imaginando por um instante como seria fácil quebrar a mandíbula dele. Então suspirou. Não valia a pena virar “a louca” num restaurante cheio de ricos que nunca ficariam do lado dela.

Piscando para conter as lágrimas que ameaçavam cair, ela se virou e fugiu do restaurante, com a vergonha e a raiva queimando no peito.

Já era noite quando Bella chegou ao seu muquifo.

O coração dela despencou no instante em que empurrou a porta.

O lugar estava de pernas pro ar.

“O que é isso... quem fez isso?”, perguntou, sem esperar resposta.

Ela tinha sido demitida e agora até o lugar miserável que chamava de casa tinha sido revirado por ladrões.

Sua mente voou até o pouco dinheiro que guardava.

Correu até o canto onde o havia escondido, as mãos já tremendo antes mesmo de chegar.

Não encontrou nada, nem um centavo.

O peito apertou.

Ela conferiu de novo, enfiando os dedos no canto, afastando coisas, torcendo para estar enganada. Mas continuava não havendo nada. O dinheiro que ela tinha juntado para o aluguel tinha sumido.

Então olhou para a panela.

Estava vazia.

Até a pouca comida que tinha deixado para si mesma também tinha desaparecido.

Os joelhos de Bella falharam. Ela caiu no chão, o corpo sacudindo violentamente, e as lágrimas que vinha segurando por fim se soltaram.

Um grito rasgou o peito dela, e ela chorou como se algo dentro dela tivesse estalado.

“Eu odeio este lugar... eu odeio esta vida”, soluçou. “Estou exausta, pai. Estou exausta, mãe. Por que vocês tiveram que me deixar? A filha de vocês está sofrendo. Sou uma mulher sem meio de vida.”

A risada saiu quebrada, encharcada de choro.

“Os ricos têm a vida fácil.”

Por um instante, a mente dela voltou ao homem que ela tinha recusado mais cedo.

“Talvez eu devesse ter ido com ele”, sussurrou, amarga. “Uma noite por dinheiro já não parece tão ruim. Talvez seja hora de eu ir pro extremo — porque, se eu continuar vivendo assim, posso morrer de fome.”

Ela soltou um riso fraco de desprezo.

Enxugando os olhos com o dorso da mão, como sempre fazia, Bella se obrigou a se levantar e foi até o banheiro.

Abriu a torneira e entrou debaixo d’água, deixando-a correr pela pele como se pudesse lavar tudo o que ela estava sentindo.

A água pinicava um pouco na pele, mas ela não tinha escolha.

Aguentou em silêncio, então fechou o registro e voltou para o quarto. Bella se deitou na cama improvisada, encarando o teto, a mente girando em torno das poucas opções que ainda lhe restavam.

Nada de bom lhe ocorria.

Então, devagar, uma ideia tomou forma.

“Vou voltar para Manhattan. Eu não vou desistir”, murmurou.

Ela tirou o dinheiro que ainda tinha e contou com cuidado.

“Isso deve dar... dar pro trem que vai me levar amanhã”, disse a si mesma. “Eu posso dormir na rua, se for preciso. Pedir emprego. Se me perguntarem quanto por uma noite, eu aceito o que der. Eu não ligo mais.”

Ela assentiu, como quem sela uma decisão, mas o coração se recusava a se acalmar.

O olhar deslizou até a porta, e o medo foi se insinuando — o medo de que alguém arrombasse enquanto ela dormia.

De repente inquieta, Bella se levantou e correu até a porta, arrastando pelo chão os galões pesados de água e encostando-os nela. Conferiu a fechadura duas vezes e depois uma terceira, só para ter certeza.

Só então voltou para a cama.

Apesar do medo ainda enrolado e apertado no peito, o cansaço tomou conta dela, e ela adormeceu.

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