Capítulo 1

Ponto de Vista da Allie

Sempre me perguntei qual seria a sensação de me apaixonar. Ultimamente, a solidão se instalou na minha vida de repente, me fazendo sentir vazia e indesejada. O que há de errado comigo? Tenho vinte e dois anos e nunca tive um namorado.

Por que não consigo me apaixonar como todo mundo? Observo minhas amigas com seus parceiros, o jeito como se beijam, como seus lábios se encaixam como se tivessem sido feitos um para o outro. Não consigo evitar uma pontinha de inveja, imaginando como deve ser essa sensação. Eu nunca fui beijada... não de verdade. Os beijinhos que damos nos nossos pais não contam.

Talvez eu tenha lido romances de fantasia demais e elevado muito os meus padrões. Talvez eu tenha me convencido de que, se o amor não for mágico, não é real. Enquanto minhas amigas passavam os finais de semana saindo e paquerando, eu preferia ficar em casa escrevendo no meu diário ou lendo sobre mundos que pareciam mais reais do que o meu.

Na faculdade, os caras finalmente começaram a demonstrar interesse, mas eu nunca senti nada por eles. Eles eram todos iguais, com seus sorrisos charmosos, perfumes baratos e olhos que calculavam qual seria a próxima garota. Quando já tinham passado por todas as outras, a atenção deles se voltava para mim. Virou um jogo para eles, para ver quem conseguiria me levar para a cama primeiro. Mas nenhum deles conseguiu. Eu não ia deixar um garoto qualquer brincar com o meu coração por diversão. Eu queria um homem de verdade, alguém que sabe o que quer e não brinca com os sentimentos de uma mulher.

Na faculdade, as pessoas me davam apelidos, como "A Nerd Sem Coração". Diziam que eu me importava mais com os animais do que com os seres humanos. Talvez seja verdade. Sempre senti uma conexão mais forte com os animais do que com as pessoas.

Esse é um dos motivos pelos quais eu amo visitar a fazenda do meu tio. Em todas as férias escolares, eu ia para lá ajudar com os animais e passar o tempo ao ar livre. Então, depois de terminar a faculdade, decidi me mudar para lá definitivamente. Ultimamente, tenho sentido uma atração estranha pelas montanhas perto da fazenda do tio Buck, como se algo lá estivesse me chamando. Eu sonho com aquelas montanhas todas as noites. Toda vez que acordo, meu coração dói como se estivesse tentando me dizer algo que eu ainda não entendo.

Depois de empacotar as últimas coisas, desci para tomar café da manhã com meus pais uma última vez.

— Bom dia, mãe. Bom dia, pai.

Meus pais sorriram para mim, embora eu pudesse ver a tristeza por trás dos olhos deles.

— Bom dia, querida. Como você dormiu? — minha mãe perguntou, me dando o seu habitual beijo na bochecha.

— Dormi super bem. Estou tão animada para hoje.

Meu pai ergueu os olhos do jornal, sorrindo.

— Você parece mais animada para ir à fazenda do seu tio do que estava com a sua formatura.

Eu ri.

— Isso é porque, na fazenda do tio Buck, eu posso ficar ao ar livre o dia todo com os animais em vez de presa em uma sala de aula.

Ambos riram e, por um momento, quase esqueci que estava indo embora. Então, a tristeza me atingiu.

— Vou sentir tanta saudade de vocês.

Minha mãe pegou a minha mão e a apertou suavemente.

— Nós também vamos sentir muita saudade, querida. — A voz dela fez minha garganta apertar, e eu pisquei rapidamente, tentando não chorar.

— É melhor eu ir. Ainda preciso me despedir dos meus amigos.

Depois do café da manhã, ajudei minha mãe com a louça enquanto meu pai levava minha mala para o carro. Quando finalmente chegou a hora de partir, não consegui mais segurar as lágrimas. Nós nos abraçamos por um tempo que pareceu uma eternidade. Então, entrei no carro, acenei me despedindo e comecei a minha jornada.

Meus amigos estavam me esperando na cafeteria local. Quando entrei, todos gritaram em uníssono:

— Surpresa!

Fiquei paralisada de choque. Eles tinham decorado o lugar inteiro com balões e uma faixa enorme que dizia "Adeus". Havia uma mesa cheia de presentes no canto. Meu peito se encheu de emoção.

— Não posso ficar muito tempo — eu disse —, mas obrigada. Vocês não precisavam ter feito tudo isso.

— É claro que precisávamos! — alguém gritou.

— Vocês todos deviam me visitar qualquer dia desses — acrescentei.

— Podemos andar a cavalo, fazer trilhas e até nadar pelados no lago.

Dei uma piscadinha, e todos caíram na gargalhada.

Na hora de dizer adeus, as lágrimas rolaram de novo. Nós nos abraçamos um por um antes de eu guardar os presentes no carro e ir embora.

A estrada se estendia longa e infinita à minha frente. Liguei o rádio, esperando que a música me distraísse do aperto no peito. As horas se passaram enquanto eu cantava junto, minha voz se misturando ao zumbido do motor. O sol foi baixando, pintando o céu com tons de dourado e carmesim.

Quando me dei conta de como já era tarde, a noite começava a cair. Meu corpo doía de ficar tanto tempo sentada, então encostei o carro para esticar as pernas. O ar tinha um cheiro fresco, e a silhueta distante das montanhas fez meu coração bater mais forte.

O tio Buck e eu costumávamos fazer trilhas por lá quando eu era pequena. Ele me mostrava caminhos secretos e cachoeiras escondidas. Havia um lugar de que eu gostava mais: uma clareira com uma pequena campina e uma cachoeira cristalina que parecia ter saído de um conto de fadas.

Sorri com a lembrança, perdida em pensamentos... até que ouvi um estalo seco atrás de mim.

Fiquei paralisada. Lentamente, me virei na direção do som. Minha respiração falhou. Olhos amarelos e brilhantes me encaravam na escuridão. Eram grandes e não piscavam, fixos em uma silhueta grande demais para ser a de um cachorro... ou até mesmo de um urso.

O pelo da criatura tinha um brilho castanho-escuro com mechas pretas. Eu não conseguia me mexer. Minha mente gritava para eu correr, mas meu corpo se recusava a obedecer. Meu coração batia tão forte que chegava a doer.

A criatura soltou um uivo longo e grave.

O terror tomou conta de cada centímetro do meu corpo. Fechei os olhos com força, me preparando para o ataque. Eu quase podia sentir seu hálito quente na minha pele, seus dentes prestes a se cravarem em mim. Os segundos se arrastaram. Nada aconteceu.

Quando finalmente abri os olhos, a criatura havia desaparecido. Os arbustos farfalharam uma vez, e depois o silêncio.

Meu coração martelava no peito. Sem pensar, corri para o carro, bati a porta e arranquei. Minhas mãos tremiam no volante.

Quando cheguei à estrada de terra que levava à fazenda do tio Buck, o medo já começava a passar, sendo substituído por exaustão e alívio. As luzes da casa brilhavam de forma acolhedora ao longe.

Ao parar o carro em frente à casa, o tio Buck já estava esperando na varanda. Ele devia ter visto meus faróis lá da estrada principal. Os cachorros vieram correndo, abanando o rabo loucamente.

Saí do carro e eles pularam em mim, lambendo minhas mãos e meu rosto.

— Acho que agora é a minha vez de dizer oi — riu o tio Buck, vindo na minha direção.

— Tio Buck! — Corri direto para os braços dele.

— Minha menina! Senti tanto a sua falta. Este lugar ficou tão silencioso sem você.

— Ah, tio Buck, também senti sua falta. Da fazenda, dos animais... de tudo. — Dei um beijo no rosto dele.

— Vamos levar suas coisas para dentro — disse ele, afetuoso. — Preparei um jantar delicioso para nós.

Levamos minhas malas para dentro juntos; precisamos fazer duas viagens por causa de todos os presentes dos meus amigos. Depois do jantar, desabei na cama, com meu corpo afundando no colchão macio. Pela primeira vez em semanas, a inquietação dentro de mim havia sumido.

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