Capítulo 2
Dois meses se passaram desde que cheguei à fazenda do tio Buck, e eu me adaptei perfeitamente. A vida aqui parece tranquila e familiar, quase como se o tempo tivesse parado desde as minhas visitas na infância.
Esta manhã, o sol está escaldante, e o ar parece pesado com o calor do verão. Depois de ajudar o tio Buck a descarregar o feno da caminhonete, enxugo o suor da testa e olho para o lago brilhando ao longe.
— O dia está quente hoje, tio — digo, recuperando o fôlego. — Que tal um mergulho depois que terminarmos?
Ele dá uma risada e balança a cabeça.
— Hoje não, querida. Tenho algumas coisas para resolver na cidade. Mas vá aproveitar. Você merece.
— Você se importa de trazer algumas coisas para mim enquanto estiver lá?
— Claro — ele responde com um sorriso. — Qualquer coisa por você.
Faço uma lista rápida, agradeço e vou para o meu quarto me trocar.
Decido ir com um dos cavalos até o lago. Está quente demais para ir a pé e, além disso, cavalgar pelos campos abertos sempre clareia a minha mente. Assim que chego, sou recebida pelo cheiro de flores silvestres e pelo som suave dos pássaros cantando nas árvores.
O lago brilha sob o sol da tarde, cercado por uma floresta de árvores altas e flores vibrantes. Parece algo saído de um sonho — calmo, cristalino e mágico. Respiro fundo. Este lugar sempre me pareceu um pedaço do paraíso.
Amarro o cavalo em uma árvore com bastante grama por perto, e então estendo minha toalha sobre uma pedra lisa iluminada pelo sol. Tiro meu short jeans e a regata branca, revelando o maiô preto que comprei no verão passado, mas que nunca tive coragem de usar.
O tecido se ajusta perfeitamente às minhas curvas, mostrando o suficiente para me fazer sentir bonita — embora eu ria baixinho de mim mesma. Ainda bem que não tem ninguém aqui para me ver.
Entro na água fresca, deixando-a subir até os ombros. A água do lago parece seda contra a minha pele. A luz do sol dança sobre a superfície ondulada, e os peixes passam rapidamente sob os meus pés. Boiando de costas, fecho os olhos e ouço o vento sussurrar por entre as árvores.
Pela primeira vez em anos, sinto-me livre.
Depois de um tempo, uma sensação estranha arrepia a minha pele, como se alguém estivesse me observando. Fico de pé e examino a margem, mas não há ninguém. Apenas meu cavalo pastando tranquilamente sob as árvores. Ignorando a sensação, nado mais um pouco antes de sair da água.
Minha toalha ainda está quente por causa do sol. Eu me seco e pego minhas roupas, apenas para notar que minha regata sumiu.
— Sério? — murmuro. Procuro nos arbustos próximos, mas não a vejo em lugar nenhum. — Talvez um esquilo quisesse um cobertor.
Rindo baixinho, desisto e estendo minha toalha na grama. Deito-me ao lado do meu cavalo, fecho os olhos e acabo adormecendo, embalada pelo calor da tarde.
Não sei há quanto tempo estou dormindo quando o cavalo de repente se assusta. Seus cascos raspam o chão, e eu me sento de supetão.
Um homem está parado ao lado dele, de costas para mim. Ele é alto e tem ombros largos, veste-se de forma simples, mas há algo imponente em sua postura.
— Olá? — chamo, com a voz tremendo um pouco. — Posso ajudar?
Ele se vira devagar e, quando vislumbro seu rosto pela primeira vez, perco o fôlego.
Ele é... deslumbrante. Cabelos curtos e castanho-escuros, barba bem aparada, olhos da cor de mel sob a luz do sol... dourados e penetrantes. Há algo de familiar neles, algo que faz meu coração acelerar.
Quando nossos olhares se encontram, um calor se espalha pelo meu corpo como faíscas sob a pele. Não consigo me mexer. Mal consigo respirar.
Ele se aproxima, e cada nervo do meu corpo se acende.
— Oi — ele diz, com a voz grave e suave. — Sou o Jack.
— E-eu... hã... sou a Allie — gaguejo, forçando minha voz a sair.
Ele estende a mão, mas estou paralisada. Meu corpo parece não obedecer à minha mente. Após um segundo, ele abaixa o braço com um leve sorriso.
— Prazer em conhecê-la, Allie. Você é nova por aqui?
Sua voz é hipnotizante e calma, envolvente e confiante. Eu poderia ouvi-la o dia inteiro.
— S-sim — digo rapidamente. — E não. Eu costumava visitar a fazenda do meu tio durante as férias, mas acabei de me mudar para cá de vez.
Ele me observa com uma intensidade que faz meu coração bater mais forte. Parece que está memorizando cada palavra que digo.
— Quem é o seu tio? — ele pergunta, aproximando-se novamente.
— Buck — respondo, engolindo em seco. — Tio Buck.
Um lampejo de reconhecimento cruza seu rosto. — Ah. Eu conheço o Buck. Um bom homem.
Ele está tão perto agora que consigo sentir seu cheiro — um aroma quente e amadeirado que me lembra a floresta depois da chuva. Meu pulso acelera.
— Você está bem? — ele pergunta suavemente, baixando o tom de voz.
— Você parece um pouco corada.
— Estou bem — consigo dizer, embora minha voz saia trêmula.
Ele toca meu ombro com delicadeza, e um choque de eletricidade percorre meu corpo.
— Talvez você esteja desidratada — ele sugere. — Deixe-me levá-la para casa. Vou me certificar de que chegue em segurança.
Antes que eu possa protestar, ele monta no cavalo sem o menor esforço e estende a mão para mim. Seu aperto é firme, mas cuidadoso, enquanto me puxa para cima, acomodando-me atrás dele.
— Segure-se — ele diz com um sorriso.
Envolvo meus braços em sua cintura, sentindo os músculos rígidos sob a camisa. Meu rosto queima ao perceber o quanto estou perto dele. O trajeto de volta parece interminável e, ao mesmo tempo, curto demais.
Seu cheiro me envolve — uma mistura intensa e terrosa que faz meu coração palpitar. Sem pensar, inclino-me levemente para a frente, inalando seu perfume.
— Tudo bem aí atrás? — ele pergunta de repente.
Recuo bruscamente. — Ah! Sim, desculpe. É que... estou com frio.
Ele ri baixinho. — Chegaremos logo.
Quando chegamos à casa da fazenda, ele desmonta e estende a mão novamente para me ajudar a descer. Sua palma áspera e calejada faz a minha parecer pequena e frágil.
— Obrigada — sussurro.
Ele dá um leve sorriso. — Sempre que precisar.
Quando ele se vira para ir embora, não consigo me conter. — Você vai voltar para casa a pé no escuro?
— Gosto de caminhar sob as estrelas — ele responde.
Assinto, sorrindo de forma nervosa. — Tome cuidado.
Ele dá uma piscadela e, num instante, meu coração despenca até o estômago.
