Capítulo 8

POV do Jack

A noite passada com a Allie foi uma das melhores noites da minha vida. Mesmo que a gente só tenha conversado e dividido alguns momentos tranquilos juntos, aquilo significou tudo. Se dependesse de mim, eu casava com ela agora mesmo. Eu sei, lá no fundo da minha alma, que a gente foi feito um pro outro — que ela é a minha companheira destinada.

Mas a Allie ainda não sabe o que eu sou. Ela não sabe que eu sou um lobisomem, nem que a vida inteira dela vai mudar quando descobrir. Eu quero ir devagar... por causa dela. Quando a verdade vier à tona, nada nunca mais vai ser igual.

Ela é humana. Pura. Gentil. E ela é tudo pra mim.

Quando a Allie me contou que ainda era virgem, eu não acreditei. Eu nunca tinha conhecido alguém como ela, intacta diante do mundo, boa em todos os sentidos. A Deusa da Lua deve ter planejado assim, mantendo o coração dela protegido até eu estar pronto pra encontrá-la.

Ela nunca foi feita pra se apaixonar por outro homem, e eu nunca fui feito pra pertencer a mais ninguém.

Agora que finalmente encontrei a Allie, eu vou protegê-la com tudo o que existe em mim... mesmo que isso signifique encarar a fúria de toda a minha espécie.


Hoje eu tenho um dia cheio pela frente. Tem uma reunião com o meu pai e os anciões da alcateia sobre os invasores que foram vistos cruzando pro nosso território. Lobos desgarrados têm passado escondidos pela fronteira e, se a gente não agir logo, isso pode acender uma guerra.

Eu também preciso me reunir com a prefeitura, com o conselho da cidade, pra finalizar os preparativos do próximo Festival da Lua Cheia. Ele acontece a cada poucos anos pra celebrar a paz entre as alcateias, um momento em que todos nós nos reunimos sob a luz da Deusa da Lua e renovamos nossos votos de união.

No festival, todos os líderes Alfas precisam jurar manter a paz. É uma lei sagrada entre nós.

Só que, este ano, eu não consigo parar de pensar na Allie. Eu quero levá-la comigo, apresentá-la como minha companheira. Mas só de pensar nisso já é perigoso. Humanos não podem saber sobre nós. Se o conselho descobrisse que a minha companheira destinada é humana, isso poderia colocar a Allie em perigo.

Nossas leis são claras: nenhum humano pode saber da nossa existência. É uma regra feita pra proteger os dois lados — embora, na verdade, tenha mais a ver com medo do que com proteção. Os humanos sempre temeram aquilo que não entendem.

Ainda assim... talvez a Allie seja o motivo pelo qual essa regra foi feita pra ser quebrada.

Quando eu terminar as reuniões, vou visitar o tio dela por causa dos cavalos que eu mencionei. Foi só uma desculpa pra ver a Allie de novo, mas, a essa altura, eu não me importo. Ficar longe dela me corrói. Eu não aguento passar mais de um dia sem ouvir a voz dela.


POV da Allie

A noite passada com o Jack foi uma das melhores noites da minha vida. A gente sentou e conversou por horas. Eu tive que ligar pro tio Buck pra avisar que eu ia chegar tarde em casa. Me despedir do Jack deixou um buraco no meu coração, parece que tá faltando alguma coisa.

Mesmo eu só tendo visto ele duas vezes até agora, é como se eu não conseguisse viver sem a presença dele. Eu nunca ouvi nenhuma das minhas amigas dizer que se sentia assim, que não conseguia viver sem o namorado.

Talvez eu devesse ir na casa dele mais tarde e fazer uma surpresa. Eu não sei se os seguranças dele vão me deixar passar pelo portão, mas eu vou tentar.

Eu também decidi que hoje é o dia em que vou perguntar pros meus pais sobre o empréstimo pra loja. Eu já falei com o tio Buck; ele só precisava terminar umas coisas no estábulo e, depois, a gente faria uma chamada de vídeo com a mamãe e o papai.

Fui até a cozinha ligar a chaleira, para que, quando o tio Buck terminasse, a gente pudesse tomar uma xícara de café bem quentinho. A chaleira tinha acabado de ferver quando o tio Buck entrou em casa.

— Hmmm. Você vai fazer um café pra gente, Allie, querida? — perguntou o tio Buck, com um ar animado.

— Vou, tio. Pensei que a gente podia tomar um cafezinho bem quente enquanto conversa com a mamãe e o papai.

Despejei a água nas duas xícaras que eu já tinha deixado alinhadas para o café.

— Não esquece daqueles biscoitos deliciosos que você comprou outro dia — disse o tio Buck, antes de sumir pelo corredor para se lavar.

Eu ri baixinho. Aqueles biscoitos eram mesmo deliciosos. A nossa caixa já estava quase vazia. Eu devia pedir mais pra Sasha — quem sabe experimentar outros sabores também. Ainda bem que a gente tinha trocado números, então depois eu podia ligar pra ela.

Subi rapidinho pro meu quarto pra pegar meu notebook e montar tudo na mesa da cozinha. Quando o tio Buck sentou ao meu lado, abri o Skype e liguei para a mamãe e o papai.

— Oi, minha querida! Como você tem estado? Que bom te ver — disse o papai, o rosto se iluminando no instante em que me viu na câmera.

— Oi, pai. Eu também tô muito feliz de ver você! Cadê a mamãe? — perguntei, percebendo que ela não estava sentada ao lado dele.

— Ela tá chegando — disse o papai, erguendo o braço quando a mamãe se sentou ao lado dele. Ele passou o braço pelos ombros dela.

— Oi, minha querida. Olha só pra você... tá radiante! — disse a mamãe, com um sorriso aberto e cheio de carinho.

— Oi, mãe. Eu tava com tanta saudade de vocês. Como estão as coisas? — perguntei, sentindo um nó na garganta ao perceber o quanto eu tinha sentido falta deles.

— Tá tudo indo muito bem. Só fica tão silencioso sem você — disse a mamãe, baixinho. Eu conseguia ver a tristeza nos olhos dela, e senti as lágrimas se formando nos meus. Tentei não piscar, com medo de elas caírem.

— Ah... Eu e o tio Buck temos uma coisa pra conversar com vocês. Tenho uma boa notícia. Eu finalmente descobri o que eu quero fazer! — O rosto do papai se iluminou na hora. — Que ótimo! Tenho tanto orgulho de você, minha filha.

— Você tem tantos talentos; eu tenho certeza de que vai se dar bem em qualquer coisa que escolher — acrescentou a mamãe, os olhos brilhando de orgulho.

— Obrigada, mãe. Quando eu fui à cidade outro dia, vi uma lojinha bem gracinha à venda — continuei — e eu achei que daria uma ótima loja de presentes e cafeteria, tudo feito à mão. Então eu queria saber se vocês poderiam, talvez, me ajudar com um empréstimo. Eu pago de volta assim que o negócio começar a engrenar.

— Acho que a Allie se daria muito bem aqui na cidade — acrescentou o tio Buck, depressa. — A gente não tem uma loja de presentes, e eu também ajudo ela a reformar.

Ficamos um tempo no Skype com os meus pais, tentando vender a minha ideia de negócio. Tanto a mamãe quanto o papai acharam que era um ótimo plano, mas eles trocaram um olhar... daqueles silenciosos que me diziam que tinha alguma coisa errada.

— A gente adoraria ajudar, meu amor — disse a mamãe por fim, com a voz suave —, mas o dinheiro tá meio apertado agora. Eu vi a dor na expressão dela.

— A gente ainda tem um dinheiro guardado pra nossa aposentadoria — acrescentou o papai, com cuidado. — Não é muito... daria só pra cobrir mais ou menos metade do preço da loja. A gente usou a maior parte das economias com a sua faculdade e com o seu carro.

Ouvir o papai dizer isso fez meu coração despencar. Na hora, eu me senti culpada por sequer ter pedido. Eles já tinham me dado tanta coisa, tudo o que eu sempre precisei, e agora eu estava prestes a tirar o pouco que ainda restava.

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