Capítulo 1 1

O avião tremia levemente, como se também estivesse cansado da longa travessia. Lá fora, as nuvens formavam um mar cinza e denso, e o sol mal conseguia furar aquela barreira. Dentro da cabine, o ar recirculado cheirava a café velho e a aquele odor plástico que só aviões têm. Eu estava sentada ao lado da janela, o cotovelo apoiado no braço da poltrona, o queixo na mão, olhando para nada em particular. O cansaço pesava nas pálpebras, mas a inquietação não me deixava dormir.

Ao meu lado, meu pai mexia no tablet com uma concentração forçada demais. Os ombros dele estavam tensos, a mandíbula cerrada. Eu reconhecia aquele jeito. Era o mesmo que ele usava quando tentava esconder que as coisas estavam piores do que admitia.

— Você que perde nosso dinheiro e eu que tenho de sofrer com isso.

A frase saiu mais dura do que eu pretendia. Não gritei, mas o tom carregava meses de frustração acumulada. Olívia — eu — observei imediatamente a reação dele. O olhar de papai endureceu.

— Olívia, olha o tom de voz.

Ele rosna baixo, quase um aviso, e olhou rapidamente para os lados, checando se algum passageiro havia prestado atenção. A vergonha dele era quase tangível.

— Mas pai…

— Quantas vezes terei de dizer que não adianta reclamar? Nossa casa foi para leilão, o carro foi penhorado. Só temos um ao outro e as nossas roupas.

As palavras caíram pesadas entre nós. Eu soltei um suspiro longo, cansado, e entrelacei nossos braços. O contato era automático, um gesto antigo que ainda funcionava mesmo quando a conversa azedava. O tecido da jaqueta dele estava um pouco frouxo nos ombros; ele havia emagrecido. Eu senti o calor do braço dele contra o meu e, por um instante, a raiva deu lugar a algo mais macio e dolorido.

— E só estamos aqui em Londres porque sua avó é um anjo e se dispôs a nos ajudar.

Ele tinha razão, e isso só piorava tudo. Se não fosse a avó, estaríamos sem destino. A generosidade dela nos tirava da ruína imediata, mas também nos colocava numa posição de dependência que eu detestava.

— Odeio mudanças — resmunguei, a voz baixa, quase contra o tecido da jaqueta dele. — Odeio ter que conhecer pessoas novas. Odeio escola nova. Eu já ia acabar o ensino médio e agora tenho que refazer esse ano.

Mudar de país, de continente, de vida inteira… não era apenas irritante. Era a sensação de ter o chão arrancado debaixo dos pés.

— Não vai refazer. Vai apenas pegar da metade. E na questão amigos, sua prima Jasmine vai ajudá-la.

O nome da prima fez meu estômago revirar de leve. Eu torci o nariz.

— Aquela menina é um saco — bufei. — Quando éramos pequenas, ela só queria saber de ficar no meu pé.

Lembranças antigas voltaram sem pedido: a Jasmine me seguindo pelo quintal, puxando a barra da minha blusa, insistindo para brincar de coisas que eu já considerava infantis. A diferença de personalidade sempre existira. Agora teríamos que conviver de novo, e eu não estava animada.

— Mas você terá que ser legal com ela, pois ela será com você.

— Vou ver o que posso fazer.

Não era uma promessa. Era o máximo de concessão que eu conseguia oferecer naquele momento.

A voz metálica da comissária de bordo ecoou pelos alto-falantes, cortando o silêncio tenso entre nós:

“Senhores passageiros, apertem os cintos, já vamos desembarcar em Londres.”

O anúncio fez meu peito apertar. O tempo havia acabado. A nova vida estava logo ali, do outro lado da pista.

— Queria que esse voo demorasse mais um pouquinho. Não estou preparada para essa nova vida.

A confissão saiu baixa, quase sem força. Eu estendi a mão e prendi o cinto. Papai, sem dizer nada, pegou minha mão. Os dedos dele estavam um pouco frios, mas o aperto era firme, como se ele precisasse daquele contato tanto quanto eu.

— Oli, eu já pedi desculpas um milhão de vezes pela minha burrice, mas eu sou obrigado a pedir de novo. Afinal de contas, aquele dinheiro iria ser seu. Prometo a você que vou trabalhar duro e recuperar tudo!

A voz dele saiu rouca. Os olhos estavam vermelhos nas bordas, embora ele tentasse disfarçar. Eu vi ali não só o pai que havia cometido erros, mas o homem que carregava o peso daquilo todos os dias.

Fiquei em silêncio por alguns segundos, sentindo o polegar dele passar uma vez sobre as costas da minha mão. Então respondi:

— Confio em você, Paul Campbell.

[...]

O saguão do aeroporto fervilhava com aquele caos organizado típico dos grandes terminais internacionais. Malas rolando em todas as direções, vozes em dezenas de idiomas e o som distante de anúncios de voos. Eu ainda sentia o corpo pesado do voo, as pernas um pouco inchadas, a cabeça latejando de cansaço e de uma ansiedade que não diminuía.

Papai caminhava ao meu lado, puxando o carrinho de mão ainda vazio. Ele parou de repente e me olhou de lado.

— Você lembra como é a sua avó? — perguntou.

— Não muito. Faz dez anos que não vejo ela ou Jasmine.

Ele assentiu, como se já esperasse essa resposta, e então ergueu o braço, apontando para uma direção específica entre a multidão.

— Então olha ali.

Segui o gesto dele. Entre as pessoas que esperavam próximos à saída da área de desembarque, vi uma mulher de mais ou menos setenta anos acenando com entusiasmo. Os cabelos curtos e loiros, cortados de forma prática, brilhavam sob as luzes fluorescentes do aeroporto. Ela era baixa e usava óculos escuros grandes demais para o rosto delicado. Ao seu lado, uma garota mais ou menos do meu tamanho permanecia imóvel. Vestia um moletom preto oversized, os cabelos vermelhos — obviamente tingidos, porque eram de um tom artificialmente intenso — presos no alto da cabeça em um coque desordenado. Também usava óculos escuros e fones de ouvido grandes, o olhar perdido em algum ponto distante, como se o resto do mundo fosse apenas ruído de fundo.

— São elas?

— Sim — respondeu papai, a voz mais baixa. — Vamos pegar nossas malas.

Seguimos até a esteira de bagagens. No total, eram seis malas. Três minhas e três dele. Não trouxemos nada além das roupas, sapatos e alguns pertences mais íntimos. O resto havia ido a leilão. Foi a única coisa a ser feita para que meu pai não fosse preso. Enquanto esperávamos as malas aparecerem, observe as pessoas ao redor: famílias se abraçando, empresários falando ao telefone, turistas puxando malas coloridas. Nós éramos apenas mais um grupo deslocado, carregando o peso de uma vida que havia sido reduzida a seis volumes de tecido e plástico.

Quando finalmente colocamos todas as malas no carrinho, empurramos o peso pesado na direção das duas figuras que nos esperavam. O coração batia um pouco mais rápido, não de emoção, mas de uma estranha tensão.

— Paul! — a senhora exclamou assim que nos aproximamos, tirando os óculos escuros. Os olhos dela, de um azul claro e vivo, se encheram de lágrimas. — Que saudade, meu filho.

Papai se inclinou e a abraçou com força. A diferença de altura entre eles era quase cômica, mas o abraço era genuíno, carregado de alívio e de vergonha.

— Obrigado por me ajudar nesse momento difícil, mamãe.

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