Capítulo 2 2

— Você é meu filho. Sempre lhe ajudaria. Agora me deixa olhar para a minha neta.

Ela se virou para mim, pegou minha mão com as duas e me puxou para um abraço rápido, mas apertado. O perfume dela era suave, algo floral e antigo, misturado com o cheiro de lã. Senti os ossos frágeis dos ombros dela sob o casaco.

— Como você cresceu, meu amor. Faz uns dez anos que não vejo você, a não ser por fotos.

Apenas sorri. Eu mal lembrava dela na minha vida para dizer que sentia falta de alguma coisa. As memórias que eu tinha eram vagas, quase como cenas de um filme assistido há muito tempo: uma cozinha iluminada pelo sol, uma voz cantarolando, o cheiro de bolo. Mas nada concreto o suficiente para gerar saudade verdadeira. Apenas a consciência educada de que aquela mulher era minha avó e que, no momento, dependíamos dela.

Annie — agora eu me lembrava do nome — se afastou um pouco e apontou para a garota ao lado.

— Essa é Jasmine — disse, e com um gesto delicado tirou os fones de ouvido da prima. — Jas, querida, se lembra agora da Olívia?

Jasmine retirou os óculos escuros com calma deliberada. Os olhos dela eram de um verde-acinzentado, cercados por cílios escuros, e o olhar que me lançou era frio, avaliador, quase desafiador. Não havia calor ali. Apenas uma indiferença bem ensaiada.

— Não.

A resposta foi seca, direta. Sem nenhum esforço para suavizar.

— Também não lembro de você — menti.

Embora eu conseguisse me lembrar de algumas coisas relacionadas a ela, não queria ficar por baixo. Não queria ser a única a admitir qualquer tipo de conexão.

Annie soltou uma risadinha leve, como se a frieza das duas netas fosse apenas uma fase passageira.

— Ah, meninas, vocês terão tempo para se conhecerem de novo. Vão dividir o quarto, então poderão conversar muito.

Eu era filha única e nunca havia dividido nada na vida. Meu quarto sempre tinha sido meu refúgio absoluto: o lugar onde eu podia chorar sem que ninguém visse, gritar com o travesseiro, fazer qualquer drama rotineiro sem que meu pai precisasse testemunhar. Agora, aquele espaço privado seria invadido por uma estranha de cabelos vermelhos e olhar cortante. Mas eu não podia reclamar. Não podia parecer a garota mimada que, no fundo, eu sabia que era. Annie já estava fazendo muito por nós — abrindo a casa, a vida, a rotina — e não reclamar era o mínimo que eu podia oferecer em troca.

Jasmine também não parecia nada feliz com a ideia de dividir o espaço. O jeito como ela se mantinha encolhida no moletom preto, deixava claro que a perspectiva de dividir o quarto com uma prima quase desconhecida não a entusiasmava nem um pouco. Eu observei aquilo em silêncio e decidi, naquele momento, deixar as coisas acontecerem como deveriam. Passaria pelo menos um ano ali. Reclamar ou criar atrito logo no primeiro dia só tornaria tudo mais difícil. Eu tinha que me dar bem com ela, mesmo que isso significasse engolir o desconforto e fingir uma naturalidade que ainda não existia.

Seguimos todos em direção ao pequeno carro da minha avó. Era um veículo antigo, de cor prata desbotada, com o porta-malas estreito demais para a quantidade de bagagem que carregávamos. Meu pai colocou duas malas dentro com dificuldade e as outras quatro em cima do teto. Aquilo era o cúmulo da pobreza. Eu conseguia sentir os olhares das pessoas ao redor — passageiros que saíam do aeroporto com malas elegantes e carros espaçosos — enquanto ele amarrava as cordas com cuidado, puxando com força para garantir que nada caísse no caminho. Meu estômago se contorcia de vergonha. Baixei a cabeça, balancei-a de leve e entrei no banco traseiro sem dizer uma palavra. Jasmine se sentou ao meu lado, ainda com os fones no pescoço, o olhar perdido pela janela. Papai acomodou-se no banco da frente, ao lado de vovó.

Era estranho chamá-la de avó. A última vez que a vira, eu devia ter uns oito anos. As lembranças eram rarefeitas demais: flashes de uma cozinha iluminada, o cheiro de algo assando no forno, uma voz cantarolando uma música antiga. Nada concreto. Nada que gerasse afeição imediata. Apenas a consciência educada de que aquela mulher pequena e loira agora era a única âncora que nos restava.

O carro partiu. Papai e ela conversaram animadamente sobre o tempo em que moravam juntos, relembrando histórias antigas com uma leveza que contrastava com o peso da nossa situação atual. Parecia que ela era uma ótima cozinheira e que ele ainda amava a comida dela. As risadas deles preenchiam o interior do veículo, enquanto eu observava as ruas de Londres passando pela janela. Prédios cinzentos, ônibus de dois andares, gente caminhando com casacos pesados apesar do clima ameno. Tudo parecia distante, como se eu estivesse assistindo a um filme em que não pertencia.

— Oli, animada para conhecer Londres? — ela perguntou de repente, virando o rosto um pouco na direção do banco de trás.

— É, estou.

A resposta saiu automática, sem nenhum entusiasmo real.

— Você vai estudar na escola que seu pai estudou. Já fizemos a sua matrícula.

A informação me pegou de surpresa.

— Sério? — questionei, inclinando-me um pouco para a frente. — Achei que ia levar um tempinho para voltar à escola.

— Não, querida. Você vai amanhã, com a Jas.

Olhei de lado para a garota ao meu lado. Ela ainda usava os fones de ouvido, a música provavelmente alta o suficiente para afastar qualquer conversa indesejada. Pelo estilo — o moletom preto, os cabelos vermelhos intensos, a postura fechada —, deveria gostar de rocks bem pesados. O tipo de música que preenchia o silêncio com barulho suficiente para não precisar pensar.

— Ah.

Voltei a ficar calada, observando as ruas. A realidade da mudança começava a se solidificar. Não haveria tempo para se acostumar. Não haveria pausa. Amanhã eu já estaria em uma escola nova, em um país novo, dividindo o espaço com uma estranha.

Largar o Texas não tinha sido tão ruim quanto eu imaginara. Eu só tinha um amigo de verdade, James, que sempre fora um doce comigo. Foi ele quem me ajudou a descobrir que o idiota do meu ex-namorado, Luke, me fizera de besta por quase um ano inteiro. Luke dizia ser totalmente meu. Dizia isso com a mesma convicção para as outras cinco namoradas que mantinha ao mesmo tempo. Um completo babaca. A descoberta ainda doía em algum lugar fundo, misturada com a vergonha de ter acreditado por tanto tempo.

Quando soube que estávamos completamente falidos e que teríamos de nos mudar para Londres, James quis que eu ficasse na casa dele. Chegou a obrigar a própria mãe a falar com meu pai sobre o assunto. Mas ele não aceitou. E eu mesma também não aceitei. Não estava nos meus planos ficar longe do meu pai. Não depois de ele ter cuidado de mim sozinho por dezoito anos. Mesmo com os erros, mesmo com a falência, ele ainda era a única constante na minha vida.

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