Capítulo 3 3
Na minha última noite no Texas, dormi na casa de James. Passamos a noite vendo filmes antigos, comendo pipoca demais e relembrando os fatos mais importantes dos nossos cinco anos de amizade. Rimos de coisas bobas. Ficamos em silêncio em outras. No aeroporto, choramos muito. Ficamos um bom tempo abraçados, em silêncio, apenas nos ouvindo chorar. Ele prometeu vir me visitar no feriado de Ação de Graças, se a mãe dele deixasse. Eu ainda ouvia a voz dele na memória, baixa e firme: “Eu vou. Pode apostar.”
Não via a hora daquele dia chegar. Era a única coisa concreta a que eu podia me agarrar enquanto o carro seguia pelas ruas desconhecidas de Londres, levando-me para uma casa que não era minha, um quarto que teria de dividir e uma vida que ainda não sabia como começar a viver.
— Chegamos.
A voz de minha avó me tirou dos devaneios. Pisquei algumas vezes, ainda com a mente dividida entre as ruas de Londres e as memórias do Texas, e olhei pela janela do carro. Estávamos parados em frente a uma pequena casa toda cor-de-rosa. O tom era suave, quase pastel, e as janelas tinham molduras brancas bem cuidadas. Saí do carro com lentidão, sentindo o ar fresco bater no rosto, e olhei em volta. Todas as casas daquela rua eram parecidas: pequenas, geminadas, com jardins minúsculos na frente. Só mudavam as cores — azul-claro, amarelo-pálido, verde-água. Bem coisa de subúrbio inglês. Organizado, silencioso, quase demais.
Papai já estava desamarrando as cordas que seguravam nossas malas no teto do carro. Eu agradeci mentalmente a todos os deuses que ninguém estivesse passando naquele momento. A vergonha de ver nossas poucas pertenças amarradas como carga de caminhão ainda ardia. Annie entregou uma mala para Jasmine e puxou outra. Eu e papai pegamos as duas restantes. Vovó foi na frente e abriu a porta, nos convidando a entrar com um gesto simples da mão.
A casa era pequena, mas aconchegante. O cheiro de madeira encerada e algo doce assando — ou talvez só a memória do que ela prometeu fazer — pairava no ar. Observei tudo com atenção. Havia uma televisão enorme em frente a um sofá bege e uma poltrona de tecido floral. Atrás do sofá, uma grande mesa de madeira clara repleta de porta-retratos. Dezenas de fotos em molduras de diferentes tamanhos e estilos. Havia também um sofá estreito posicionado bem embaixo da janela da sala. Eu gostava de observar as pessoas. Sempre gostei. Aquele seria um bom lugar para isso.
Era tudo tão bonitinho. Organizado. Limpo. Mas fiquei triste por não ter lareira. Eu amava lareiras. Amava me sentar na frente dela em uma noite de frio, com uma xícara de chá quente entre as mãos e um bom livro no colo. Havia algo nostálgico naquele ritual — o crepitar da madeira, o calor que vinha aos poucos, a sensação de que o mundo lá fora podia esperar. Aqui não havia nenhuma. Apenas radiadores brancos escondidos sob as janelas.
— Jas, leve Oli para conhecer o quarto de vocês. E depois venham para a cozinha. Irei colocar os biscoitos no forno.
Biscoitos. Aquilo era coisa de avó. O tipo de detalhe que eu só via em filmes.
Senti Jasmine se mexer ao meu lado e a segui escada acima. O corredor do segundo andar era estreito, com carpete bege e paredes em tom creme. Ela abriu a quarta porta e entrou sem dizer nada. Eu a acompanhei.
O quarto era todo pintado de rosa — um rosa claro, quase pêssego. Duas camas, uma de cada lado. O que as dividia era uma janela larga com um sofá estreito cheio de almofadas coloridas. Ao lado de cada cama havia uma mesinha de cabeceira e um guarda-roupa de madeira clara. Do lado de Jasmine, algumas estrelas fosforescentes estavam coladas no teto. Acima da cama dela, um daqueles quadros de fotos cheio de polaroids e impressões coloridas. Em cima da cama, alguns ursos de pelúcia. Mas um em especial me chamou atenção: um urso panda, um pouco gasto nas orelhas, com um laço vermelho desbotado no pescoço. Eu lembrava dele.
Jasmine tirou os fones de ouvido e os óculos escuros, largando tudo em cima da cama com um gesto descuidado. O cabelo vermelho caiu um pouco solto sobre os ombros. Sem os acessórios, ela parecia mais jovem. Mais real.
Fiquei olhando para o panda por alguns segundos antes de falar:
— Eu lembro dele — disse, apontando com o queixo.
Jasmine olhou para o urso e esboçou um pequeno sorriso. Foi rápido, quase imperceptível, mas esteve lá.
— Então você mentiu — disse ela, a voz mais baixa do que eu esperava. — Você lembra de mim.
Assenti, sem tentar negar desta vez.
— E lembro que você não parou de chorar até que eu lhe dei ele.
Ela soltou uma risada curta, genuína.
— É. Eu sabia ser persuasiva. Bem… ainda sei.
O canto da boca dela se ergueu de leve. Havia um brilho nos olhos verdes-acinzentados que não estava lá no aeroporto.
— Você também mentiu — observei.
— Sim.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi apenas… estranho. Como se as duas estivéssemos testando o terreno.
Olhei ao redor do quarto novamente, contrastando o rosa suave, os ursos e as estrelas com a imagem que eu tinha dela até então.
— Por que você se veste toda de preto e seu quarto é completamente fofo?
Jasmine deu de ombros, sentando-se na beira da cama e puxando o panda para o colo sem nem perceber o gesto.
— Não me visto só de preto. Vovó me acordou cedo. Odeio acordar cedo. Apenas peguei o primeiro moletom que vi na minha frente e coloquei por cima do pijama.
Ela tirou o moletom preto com um movimento rápido, jogando-o sobre a cama. Por baixo, usava uma blusa rosinha com estampa de flores miúdas e alças finas. O contraste era quase cômico: o preto pesado dando lugar a algo delicado, quase infantil. Sem a camada extra, dava para ver melhor o formato dos ombros dela, a clavícula marcada e a pele muito clara.
Fiquei observando por um segundo a mais do que deveria.
— Ok, tenho mais uma pergunta.
Jasmine ergueu uma sobrancelha, já prevendo o que viria.
— Não — respondeu antes mesmo de eu formular a frase completa. — Não sou apaixonada por rosa. Nem ao menos sou patricinha. Esse quarto está dessa cor desde que vim para cá, com onze anos.
