Capítulo 4 4

A resposta veio seca, mas não hostil. Havia um fundo de cansaço nela, como se já tivesse se explicado sobre aquilo muitas vezes. Eu lembrava vagamente do meu pai contar uma história sobre os pais dela. Eles morreram em um incêndio na própria casa. Uma vela caiu durante a noite e o fogo se espalhou rápido demais. Os dois dormiam e não conseguiram escapar a tempo. Jasmine estava na escola. Desde então, vivia com a avó.

O silêncio se estendeu por um instante. Eu não quis aprofundar o assunto. Ainda não.

— Ahh… e o cabelo vermelho?

Ela passou os dedos pelos fios intensos, quase mecanicamente.

— Eu amo vermelho. E quis cobrir os fios loiros. Não me achava bonita.

Eu também adorava vermelho. Sempre gostei daquele tom vivo, quase agressivo. Mas a confissão dela me pegou de surpresa. Havia uma vulnerabilidade ali que contrastava com a postura fechada que ela mantinha desde o aeroporto.

— Agora acha?

Jasmine deu de ombros, um gesto leve, quase displicente.

— Digamos que eu me aceito melhor.

Observei o rosto dela com mais atenção enquanto ela falava. Achava-a linda. Jasmine tinha a pele branca, quase translúcida, os olhos verdes bem claros e algumas sardas discretas perto do nariz. O cabelo vermelho, mesmo artificial, combinava de um jeito estranho com a delicadeza do rosto. Havia uma beleza quieta nela, do tipo que não pedia atenção, mas acabava chamando mesmo assim.

Eu nunca tive problemas reais de autoestima. Sempre gostei dos meus olhos castanhos, do meu cabelo longo tingido de um ruivo mais natural, quase cobre. Meu corpo era normal — nem magro demais, nem cheio. Não exagerava na comida, mas também não me privava de nada. Aceitava o que via no espelho sem grandes dramas. Talvez por isso a insegurança dela me surpreendesse tanto.

Jasmine se levantou da cama, esticando os braços acima da cabeça.

— Vamos descer? Amo os biscoitos da vovó.

O cheiro doce já subia as escadas, quente e convidativo. Meu estômago reagiu imediatamente. Ainda assim, hesitei.

— Não sei… tenho que desarrumar as malas. Afinal, amanhã começam as aulas.

— Eu posso te ajudar! Vamos.

A oferta foi inesperada. Quase impulsiva. Eu olhei para as malas ainda no corredor e depois para ela. Por um segundo, pensei em aceitar. Mas o cansaço pesava mais.

— Me deixa… — puxei o moletom vermelho pela cabeça e o joguei sobre a cama. O tecido era macio, um pouco surrado nas mangas. — Pronto.

Jasmine abriu a boca e soltou um som abafado.

— Meu Deus!

— Que foi?

Ela se aproximou rapidamente e tocou meus braços com a ponta dos dedos, como se precisasse confirmar que aquilo era real. Eu tinha algumas tatuagens espalhadas pelo corpo e sempre amei exibi-las. Linhas finas, traços delicados, algumas frases curtas em lugares estratégicos. Nada exagerado, mas o suficiente para chamar atenção.

— Quanta tatuagem. Seu pai nunca reclamou?

A pergunta veio misturada com genuína curiosidade.

— Não. Papai sempre foi muito liberal comigo. Fiz a primeira com quinze anos. E desde então não parei mais.

Era verdade. Ele nunca proibira. Nunca fizera cara feia. Apenas perguntava se eu tinha certeza e, quando eu dizia que sim, acompanhava até o estúdio e esperava do lado de fora, lendo alguma coisa no celular. Aquela liberdade sempre fora uma das coisas que mais valorizava nele.

Jasmine ainda observava os desenhos com interesse.

— São muito bonitas.

— Obrigada.

— Por nada. Agora vamos.

Antes que eu pudesse protestar de novo, ela agarrou meu pulso com firmeza e me puxou em direção à porta.

A cozinha era pequena, iluminada pela luz amarelada da tarde que entrava pela janela sobre a pia. Annie estava de costas para nós, tirando uma assadeira do forno com luvas de tecido xadrez. O ar estava quente e perfumado — manteiga, baunilha e um toque sutil de canela.

— Sentem-se, meninas — disse ela sem nem se virar, como se tivesse sentido nossa presença. — Os biscoitos ainda estão quentes.

Havia uma mesa redonda de madeira clara no centro da cozinha, com quatro cadeiras. Jasmine puxou uma e se sentou com a naturalidade de quem já fazia aquilo todos os dias. Eu demorei um segundo a mais, observando tudo: os armários brancos um pouco gastos nas bordas, o avental florido pendurado na porta, o porta-retratos pequeno ao lado do micro-ondas com uma foto antiga de papai ainda adolescente.

Annie colocou a assadeira no centro da mesa. Os biscoitos eram redondos, dourados nas bordas, alguns ainda soltando um fiozinho de vapor. Ao lado, ela deixou um jarro de leite frio e duas xícaras de chá já servidas.

— Comam enquanto estão quentes — insistiu, sentando-se também. — Não há nada pior do que biscoito frio.

Jasmine já tinha pegado um. Eu demorei um pouco mais, mas o cheiro venceu qualquer resistência. O primeiro pedaço derreteu na boca. Crocante por fora, macio por dentro. Exatamente como eu imaginava que biscoitos de avó deveriam ser.

Ficamos em silêncio por alguns segundos, apenas comendo. Papai ainda estava do lado de fora, ajeitando as malas ou talvez só precisando de um momento sozinho. O som distante da rua entrava pela janela entreaberta.

Foi Annie quem quebrou o silêncio.

— Vocês duas não fazem ideia de quantas vezes eu imaginei esse momento — disse ela, segurando a xícara de chá com as duas mãos. A voz estava baixa, quase carinhosa demais. — Vocês sentadinhas aqui, comendo biscoitos na minha cozinha.

Jasmine ergueu uma sobrancelha, mas não interrompeu. Eu continuei mastigando devagar, prestando atenção.

— A última vez que as duas estiveram juntas aqui, Oli tinha… o quê? Sete, oito anos? — Annie olhou para o alto, como se tentasse puxar a memória com precisão. — Jas devia ter uns seis. Vocês passaram um fim de semana inteiro aqui porque seu pai, Paul, precisava resolver umas coisas no trabalho. Lembro como se fosse ontem.

Ela soltou uma risadinha curta, os olhos se estreitam com a lembrança.

— Vocês duas decidiram que iam “ajudar” na cozinha. Oli, você queria fazer bolo. Jas só queria lamber a colher. Acabaram com farinha no cabelo, no chão, na blusa… e no meu gato. O pobre do Muffin ficou branco por uma semana.

Jasmine soltou uma risada baixa pelo nariz, abafada pelo biscoito. Eu não lembrava daquilo. Ou melhor: lembrava apenas de fragmentos. O cheiro de farinha. Alguém gritando. Um gato branco correndo.

— E o pior — continuou Annie, agora rindo de verdade — foi quando vocês decidiram que o bolo precisava de “decoração especial”. Jas pegou as canetinhas coloridas da gaveta e começou a desenhar estrelas na massa crua. Você, Oli, achou pouco e resolveu escrever o nome do seu pai em cima. Com letra enorme. “PAUL” em azul e rosa.

Eu senti o canto da boca se erguer sem querer.

— Ele viu? — perguntei.

— Viu. Chegou no meio da bagunça, olhou para a mesa, olhou para vocês duas cobertas de farinha e só perguntou se sobraria algum bolo para ele. Nem brigou. Só riu e disse que era o bolo mais feio e mais especial que já tinha visto.

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