Capítulo 5 5

Annie balançou a cabeça, o olhar distante agora.

— Seu pai sempre foi assim… mole demais com você. Desde pequenininha. Quando ele ainda morava aqui, eu lembro de acordar de madrugada e encontrá-lo na sala, com você dormindo no colo, porque você tinha tido um pesadelo e não queria voltar para o berço. Ele ficava horas ali, imóvel, só para você não acordar.

Eu olhei para a xícara de chá, sentindo algo apertar no peito. Jasmine, ao meu lado, tinha parado de mastigar. Seus olhos verdes estavam fixos em Annie, atentos.

— Ele era um bom menino — murmurou a avó, quase para si mesma. — Continua sendo. Só… se perdeu um pouco no caminho. Mas está aqui agora. E vocês duas também.

Ela estendeu a mão e cobriu a minha por um segundo. Depois fez o mesmo com a de Jasmine.

— Agora comam. Tem mais assadeira no forno. E amanhã é dia de escola. Não quero ouvir reclamação de nenhuma das duas.

Jasmine resmungou algo baixo sobre “acordar cedo de novo”, mas já estava pegando o segundo biscoito. Eu também.

[...]

Jasmine abriu a primeira mala com uma curiosidade mal disfarçada. Os dedos dela deslizavam pelas peças com cuidado, segurando algumas contra o peito para sentir o tecido antes de dobrá-las.

— Quanta roupa legal! — exclamou, enquanto me ajudava a arrumar tudo no guarda-roupa. Os olhos verdes brilhavam de interesse genuíno. — Você gosta, né?

— Amo me vestir bem. — Respondi, ajeitando um vestido preto no cabide. O cheiro de amaciante americano ainda impregnava as roupas, misturando-se ao aroma de madeira do armário. — O que me lembra… nessa escola aí…

— Sim — interrompeu ela antes que eu terminasse, já prevendo a pergunta. — Tem uniforme. E o seu está lavando. Vovó lava tudo, mesmo novo.

Soltei um gemido baixo, quase teatral, e deixei a cabeça cair para trás por um segundo.

— Sério que tem? Que saco!

— Mas eu até gosto dele — disse Jasmine, dobrando uma blusa minha com uma precisão que eu não esperava dela. — É uma saia preta com pregas, blusa social branca e suspensórios pretos.

Imaginei a peça enquanto ela falava. Clássica. Formal. Exatamente o tipo de coisa que eu evitava no Texas.

— E nos pés?

— Geralmente deixam escolher. As meninas optam por saltos ou sapatilhas pretas.

Pensei por um instante, visualizando o conjunto completo.

— Acho que ficaria legal com um coturno. Ou botinha preta.

Ela assentiu, como se a ideia fizesse perfeito sentido, e continuamos guardando as roupas em silêncio. O único som era o farfalhar dos tecidos e o bater ocasional das portas do guarda-roupa. Minhas peças coloridas e bem cortadas contrastavam com o rosa suave das paredes, criando um estranho equilíbrio visual.

Quando terminamos de acomodar tudo, Annie apareceu na porta carregando o meu uniforme dobrado com uma precisão quase militar. O tecido ainda estava levemente úmido do ferro.

— Aqui está, querida — disse, pousando a roupa na cama com cuidado. — Eu acordo vocês às sete. Ok?

— Tudo bem. Obrigada.

— Desçam para jantar. Já está quase pronto.

O cheiro de comida já subia as escadas — algo com ervas e manteiga.

— Eu vou tomar um banho — informou Jasmine, pegando umas roupas do próprio guarda-roupa. A voz saiu mais baixa, quase tímida. — Depois a Oli vai e nós descemos.

Assenti. Annie concordou com um aceno de cabeça e as duas saíram do quarto juntas, deixando-me sozinha pela primeira vez desde que chegáramos à casa.

Fiquei em pé no meio do quarto rosa, olhando para as malas agora vazias. Nossos pais eram irmãos, então nós tínhamos convivido bastante antes deles virem para Londres. Eu lembrava de uma garotinha chata e mimada que ela era, mas talvez a experiência de perder os pais tivesse a mudado. Ela parecia mais… forte. Mais contida. Como se tivesse aprendido cedo demais a carregar o próprio peso sem reclamar.

O celular vibrou na cama com um toque irritante. O som cortou o silêncio do quarto como uma faca. Peguei o aparelho e vi o nome na tela.

“James ligando”

Atendi na hora, sentindo o peito apertar só de ver o nome.

— Oiiiiii — falei, a voz saindo mais baixa e carinhosa do que eu pretendia. — Já estou sentindo sua falta.

— Ohhh, minha boneca, eu também — ele respondeu do outro lado, a voz abafada como se estivesse deitado de costas na cama. — Já comi uns dois potes de chocolate.

— Vai ficar um obeso.

— Quero você de volta — choramingou ele, sem nenhum pudor. Havia um tom quase infantil na reclamação. — Não terá graça passar ao lado de Brad sem você ao meu lado.

— Eu era apenas um troféu para você? Idiota.

Ele riu. Aquele riso aberto e sem vergonha que eu conhecia de cor, o mesmo que sempre conseguia me arrancar um sorriso mesmo nos piores dias.

— Não. Você sabe que não. Mas Brad sempre morreu de ciúmes de mim, e com você longe isso não vai mais acontecer.

— Hahahaha, James… você é demais. — Apoiei a testa na parede fria por um segundo. — Vou morrer sem você. Mas faça amigos. Não fique sozinho.

— Hoje a Margareth veio falar comigo. Perguntou de você… praticamente deu graças a Deus por você ter ido. Quase bati nela.

Eu soltei uma risada baixa, abafada. Todas as meninas da escola não queriam ser minhas amigas por dois motivos bem claros: me achavam bonita demais e uma ameaça. Para ser sincera, nunca quis ter uma amiga mulher. Mulher, quando está com raiva, é traiçoeira. Sempre fui feliz com James, que nunca mentiu para mim. Nunca fingiu. Nunca me usou.

— Não arrume ideia — disse, séria agora, a voz baixando de tom. — Não quero você metido em problemas.

— Prometo que… JÁ VOU, MÃE. — Ouvi a voz da mãe dele ao fundo, impaciente. — Oli, tenho que ir, boneca. Amanhã a gente se fala.

— Tudo bem, Jam. Eu te amo.

— Também te amo, linda.

Desliguei a ligação e joguei o celular na cama. Separei um pijama leve e a necessaire, os movimentos automáticos. Quando Jasmine voltou, o cabelo ainda úmido e um pouco bagunçado, cheirando a shampoo de frutas vermelhas, eu peguei minhas coisas e fui até o banheiro sem dizer nada.

Ele era pequeno, com azulejos brancos e um cheiro forte de desinfetante. O lado bom era a banheira. Estava tão cansada daquele longo dia — do voo interminável, do aeroporto lotado, da vergonha das malas amarradas no teto do carro, da casa nova, do quarto dividido — que nem tive energia para um banho demorado. Liguei o chuveiro, lavei o corpo mecanicamente sob a água quente e saí quase tão rápido quanto entrei. A água ajudou a afrouxar um pouco os músculos tensos, mas a mente continuava acelerada, revirando memórias e incertezas.

Quando voltei ao quarto, enrolada na toalha, Jasmine já estava de pijama, sentada na própria cama com o urso panda no colo. Os olhos verdes me acompanharam por um segundo antes de desviarem para a janela. Não falamos nada. Não precisávamos. O dia tinha sido longo demais para palavras extras.

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