Capítulo 6 6
— Vamos acordar, meninas!
A voz de Annie atravessou a quietude do quarto como um sino insistente, cortando o silêncio aveludado da manhã. Ainda semiadormecida, puxei a coberta para cima da cabeça com um movimento preguiçoso, tentando me esconder da realidade que já batia à porta. O tecido macio cheirava a amaciante e a sono, e eu resmunguei baixinho, protestando contra a injustiça de ter que abandonar o calor da cama tão cedo.
— Vamos lá, Olívia! Não queria se atrasar para o primeiro dia de aula.
Empurrei a coberta com relutância e me sentei na beira da cama, piscando várias vezes até que os contornos do quarto ganhassem nitidez. Annie já não estava mais no quarto.
— O ônibus passa daqui há quarenta minutos. — Jas informa, já de pé perto da porta, com o uniforme impecável e o cabelo preso em um rabo de cavalo alto. — E não quero me atrasar.
Eu esfreguei os olhos, ainda sentindo o peso do sono nas pálpebras.
— Por que não? Se atrasar as vezes é legal.
A resposta saiu mais provocativa do que eu pretendia, um eco da minha vontade de prolongar aqueles últimos minutos de liberdade.
— Não quando se tem um professor como o senhor Wood.
Eu ia perguntar o motivo — a curiosidade coçava a ponta da língua —, mas ela agarrou nas suas coisas com pressa e saiu do quarto, deixando para trás apenas o leve perfume do seu desodorante. Fiquei sozinha, observando a porta fechada por alguns segundos, sentindo um leve desconforto se instalar no peito. Quem era esse senhor Wood?
Como eu já havia tomado banho na noite anterior, me preocupei apenas em vestir o bendito uniforme. O tecido ainda cheirava a novo, um pouco rígido, mas não era tão ruim quanto eu temia. Levantei-me e fui até o guarda-roupa, retirando a blusa branca de botões e a saia plissada. Vestindo a blusa, abotoei cada botão com cuidado, sentindo o colarinho levemente apertado contra o pescoço. Depois, deslizei a saia até a altura do umbigo — exatamente como as regras exigiam — e prendi os suspensórios. Olhei-me no espelho de corpo inteiro: a menina que me encarava de volta parecia mais formal, mais “aluna de verdade”.
Quando Jasmine voltou pronta, eu já estava sentada na beira da cama, terminando a simples maquiagem que fiz. Um pouco de blush rosado nas maçãs do rosto, um traço discreto de delineador e um gloss quase invisível. Nada exagerado, apenas o suficiente para me sentir um pouco mais confiante.
— Maquiagem pode né? — perguntei, passando o blush com movimentos circulares suaves, observando o efeito no espelho de mão.
— Claro que sim.
A resposta dela veio acompanhada de um sorriso curto, como se ela mesma também tivesse se arrumado com mais cuidado do que o usual. Larguei todos os potinhos e pincéis na cama e fui até o banheiro escovar os dentes. Logo depois, soltei o cabelo da trança que havia feito na noite anterior. Os fios caíram em ondas soltas e volumosas sobre os ombros, e eu apenas passei a mão neles. Adorava os bons dias das minhas madeixas — aqueles dias em que o cabelo cooperava sem esforço, como se soubesse que eu precisava de um empurrãozinho de autoestima.
Voltei para o quarto e me sentei na cama novamente. Calcei as meias brancas, puxando-as até a altura dos joelhos, e depois o coturno preto, apertando os cadarços com força. O contraste entre a delicadeza do uniforme e a robustez do calçado me agradava; era como se eu estivesse dizendo ao mundo que, mesmo dentro das regras, ainda havia espaço para um pouco de rebeldia.
Jas me cedeu um caderno novo, com a capa azul-marinho e algumas canetas coloridas. Guardei tudo com cuidado dentro da bolsa, junto com meu celular e os fones de ouvido. Descendo juntas pela escada, o cheiro de café e pão tostado já subia do andar de baixo, envolvendo a casa com aquele aroma acolhedor de manhãs de família.
Annie estava em pé perto do fogão, mexendo algo em uma panela, e meu pai lia o jornal enquanto tomava café.
— Bom dia. — disse eu, aproximando-me e beijando a testa dele com carinho. A pele dele estava quente e cheirava levemente a loção pós barba.
Tinha de tudo de bom naquela mesa: ovos mexidos, torradas douradas, frutas frescas, iogurtes e um jarro de suco de laranja natural. Eu não tinha o costume de comer de manhã — a comida pela manhã sempre me deixava pesada e sonolenta —, mas, para não fazer desfeita a Annie, que se esforçara tanto, peguei apenas uma torrada crocante, um iogurte de morango cremoso e um pouco de suco. Comi devagar, enquanto ouvia Annie comentar algo sobre o trânsito e meu pai responder com um “hm” distraído.
Jas olhou o relógio de pulso e anunciou, que faltava pouco para o ônibus aparecer. Terminamos de nos despedir às pressas — um beijo rápido no meu pai, um aceno para Annie — e saímos pela porta da frente. Ficamos lado a lado na calçada, as bolsas penduradas nos ombros, observando a rua ainda quieta.
Não demora para que o pequeno ônibus amarelo venha. Subimos os degraus estreitos, e no mesmo instante todos os olhares se viram contra mim. É um silêncio carregado, daqueles que fazem a pele formigar. Alguns alunos me examinam de cima a baixo com curiosidade aberta; outros desviam o rosto depressa, como se eu fosse uma intrusa indesejada. O cheiro de metal quente, de mochilas velhas e de perfume barato mistura-se no ar abafado do ônibus.
Jasmine, sem hesitar, se senta ao lado de um menino super bonito, de olhos azuis claros e cabelo bem penteado, quase perfeito demais para aquela hora da manhã. Ele sorri para ela com uma intimidade que não passa despercebida. Ela aponta discretamente para o banco atrás dela, onde estava um garoto de cabelos loiros bagunçados, com fones de ouvido grandes cobrindo as orelhas. O volume deve estar alto, porque ele balança a cabeça levemente no ritmo de uma música que só ele ouve.
Sento-me ao lado dele, a bolsa no colo. Ele não fala comigo, eu não falo com ele, e vamos assim até a escola. O ônibus balança nas curvas, o sol da manhã bate nas janelas embaçadas, e eu fico observando a paisagem passar: casas baixas, árvores ainda úmidas de orvalho, placas de trânsito e, ao longe, o prédio grande e imponente da escola que logo se ergue no horizonte.
