Capítulo 2 — Regras

As regras vieram impressas, claro. Henrique não confiava em nada que não pudesse ser arquivado.

Ele me entregou a folha no segundo dia, durante o café da manhã, junto com uma xícara que a governanta serviu sem perguntar como eu gostava. Eu gosto sem açúcar. Ninguém perguntou nos dois anos seguintes, e eu nunca corrigi, porque corrigir seria admitir que aquilo importava.

— Para evitar mal-entendidos — disse ele, e voltou para o tablet.

Li em silêncio.

Espaços independentes. O ala leste é dela. A oeste é minha. Ninguém entra no quarto do outro sem ser convidado. Compromissos sociais da família: comparecimento obrigatório, dois por mês, agenda enviada com antecedência. Em público: casados. Em casa: cordiais.

Cordiais. A palavra tinha sido escolhida por alguém que sabia exatamente o que estava evitando dizer.

— Tem uma cláusula faltando — falei.

Ele levantou os olhos. Foi a primeira vez que eu o vi genuinamente surpreso, e eu arquivei aquilo também.

— Qual?

— A que diz o que acontece quando um de nós quebrar uma dessas. — Eu bebi o café amargo sem fazer careta. — Todo contrato bom prevê o descumprimento. Você redigiu cinco que não preveem nada. Ou você acha que nenhum de nós vai falhar, o que é ingênuo, ou você já decidiu que a punição vai ser improvisada na hora. As duas opções me preocupam.

Henrique me encarou por um tempo longo. Eu não baixei os olhos. Eu não baixo os olhos para plantas mal desenhadas, e aquele documento era uma planta mal desenhada.

— Você é estagiária — disse ele, devagar. Não foi um insulto. Foi um homem tentando reconciliar duas informações que não cabiam na mesma gaveta.

— Sou. De arquitetura. — Levantei, levei minha xícara para a pia, porque eu não ia deixar a governanta levar uma coisa que era minha responsabilidade lavar. — A gente passa o dia inteiro descobrindo onde as estruturas vão rachar antes de rachar. É meio que o trabalho.

— E você acha que sabe onde esse acordo vai rachar.

Eu parei com a xícara na mão. Foi a primeira coisa que ele me disse que não estava nem no contrato, nem nas regras, nem na voz lisa de negociação. Foi quase pessoal.

— Eu sei que ele vai — falei. — Todo o resto é detalhe. A pergunta nunca é se. É onde, e quem vai estar de pé quando rachar.

Henrique me olhou por mais um segundo. Depois voltou para o tablet, mas eu vi que ele não estava lendo. Os olhos dele estavam parados na mesma linha.

Saí sem esperar resposta.

No corredor, encostei a testa na parede fria por um segundo. O coração batia rápido — não de medo. De outra coisa que eu não quis nomear na hora, mas que era, eu sei agora, o prazer perigoso de ter sido vista discordar e não ter sido esmagada por isso.

Naquela noite, eu não consegui dormir. Levantei às cinco e meia, como sempre, e fui para a mesa da sala desenhar. Era o único cômodo grande o bastante para abrir as pranchas. Trabalhei na luz fraca do amanhecer, num projeto de fachada que era meu, que ninguém tinha me pedido, que provavelmente ninguém ia ver.

Foi quando ouvi.

Atrás de mim, no fundo do apartamento, todas as luzes do escritório dele se acenderam de uma vez. Não uma. Todas. Cinco e meia da manhã, e Henrique Cavalcanti acendia o cômodo inteiro como quem se prepara para uma cirurgia.

Eu não me virei. Mas anotei mentalmente, na margem da minha planta interna daquela casa: ele também não dorme.

Dois insones, dois alas, uma parede entre eles. E na manhã seguinte, quando passei pela porta do escritório dele a caminho da cozinha, vi sobre a mesa um contrato aberto, marcado de vermelho, e ele debruçado sobre aquilo com a mesma cara que eu fazia sobre uma planta com erro estrutural.

A gente se reconhece. Mesmo quando não quer.

No fim daquela primeira semana, eu fiz uma coisa pequena e secreta. Peguei a folha de regras impressa — as cinco cláusulas dele — e, na margem, a lápis, do meu lado, escrevi a sexta que faltava. Cláusula seis: quando isto rachar, quem souber primeiro decide os termos do conserto. Depois apaguei, porque ainda não era a hora de ele saber que eu redigia melhor do que ele. Mas a marca do lápis ficou no papel, fantasma, visível na luz certa. Eu deixei lá. Toda casa tem uma frase escrita na margem que ninguém devia ler.

Eu só não sabia, ainda, que aquela casa já tinha duas.

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