Capítulo 3 — O Café

A primeira rachadura num casamento de gelo não é uma briga. É um detalhe que você não consegue desver depois de ver.

A minha veio numa terça, três semanas dentro daquilo.

Eu acordei às cinco e meia, segui para a sala, e a mesa onde eu desenhava estava ocupada. Henrique estava lá, de pé, com uma das minhas pranchas na mão. Não a estava lendo de qualquer jeito — estava lendo com atenção, com o queixo um pouco baixo, do jeito de quem procura o erro de verdade e não a falha óbvia.

Eu parei na porta. Ele me viu.

Por um instante a gente ficou ali, os dois pegos: ele com o meu desenho na mão, eu com a cara de quem foi descoberta sendo mais do que o combinado.

— Esse pilar — disse ele, sem desculpa, apontando — você jogou ele para fora do alinhamento da fachada. De propósito.

Não era uma pergunta. Mas também não era uma acusação.

— De propósito — confirmei.

— Por quê? A simetria estava resolvida.

Eu atravessei a sala. Peguei o lápis que estava na mesa — meu lápis — e, ao lado da prancha que ele segurava, sem tomá-la das mãos dele, tracei a linha do sol no inverno.

— Porque a simetria resolvida deixava esse apartamento aqui no escuro das duas da tarde até as cinco, junho inteiro. — Bati de leve no desenho. — Ninguém que compra um apartamento de três milhões quer viver de luz acesa em pleno dia. Eu quebrei a simetria para roubar duas horas de sol. A fachada fica menos perfeita na foto da revista. E muito melhor de viver dentro.

Henrique olhou para a linha que eu tinha traçado. Depois para mim. Demorou.

— Quem te ensinou a pensar assim?

— Ninguém. — Recuei. — Eu morei a vida inteira em apartamento que pegava sol das duas às cinco. Você aprende a odiar a fachada da revista quando é você que mora atrás dela.

— Você desenha à mão — observou ele, em vez de devolver. — Ninguém da sua idade desenha à mão. O escritório te dá software.

— O software termina a linha antes de eu terminar de pensar. — Eu dei de ombros. — À mão, a linha espera por mim. Eu desço o lápis sem saber ainda onde a parede vai ficar, e a mão descobre antes da cabeça. — Olhei para ele. — Você nunca fez nada onde a mão soubesse antes da cabeça?

Foi a pergunta errada. Eu vi no instante em que ela saiu. Alguma coisa fechou no rosto dele, uma persiana descendo, e por um segundo eu tive certeza de que tinha tocado, sem querer, exatamente na viga escondida que eu não conseguia enxergar.

— Não — disse ele. — Eu não confio em coisa que a cabeça não autorizou antes.

Era mentira. Eu não sabia ainda como sabia, mas era mentira, e a mentira tinha a forma exata de uma frase escrita à mão na margem de um contrato.

Eu esperei que ele devolvesse a prancha com um comentário cortante. Era o que o homem do contrato faria.

Ele não devolveu. Ficou com ela na mão por mais um segundo, olhando, e quando finalmente a colocou de volta na mesa, foi com cuidado, alinhando a borda do papel com a borda do vidro, do jeito que se trata uma coisa que se pretende voltar a olhar.

— A governanta serve seu café com açúcar — disse ele, já saindo. Parou na porta. — Você toma sem.

E foi embora.

Eu fiquei parada na sala um tempo absurdo, com o coração fazendo aquela coisa de novo. Não era nada. Era um homem percebendo que eu tomava café amargo. Pessoas casadas de verdade sabem isso no primeiro fim de semana.

Mas a gente não era casado de verdade. A gente era um acordo. E num acordo, ninguém devia estar reparando em como eu tomo o café.

Naquela noite a governanta me serviu o café sem açúcar, sem eu pedir.

Eu olhei para a xícara por um tempo. Depois fui até a estante da sala — a estante de livros que ninguém lia, ali só para o lobby parecer uma casa — e, sem saber bem por quê, comecei a procurar. Não sabia o que procurava. Procurava o homem que reparou no meu café dentro do homem que me comprou com uma dívida, e os dois não cabiam na mesma pessoa, e aquilo me incomodava como um pilar fora do alinhamento.

Foi aí que meus olhos caíram na gaveta da escrivaninha da sala. A gaveta onde, no dia da mudança, eu tinha visto a governanta guardar a pasta dos documentos da casa.

Os documentos da casa. E, junto deles, uma cópia do nosso contrato.

Eu não abri naquela noite. Mas a gaveta passou a existir para mim, do jeito que uma porta trancada existe para quem mora numa casa: você não esquece dela nunca mais.

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