Capítulo 1
Eu tinha acabado de sair da prisão depois de três anos, e a minha família já queria que eu voltasse pra lá.
Meu companheiro, Everett Vance, parou na minha frente com os braços cruzados. A expressão dele estava fria — nada parecida com a do homem que um dia jurou me proteger.
— A Dahlia se meteu em confusão — ele disse, seco. — Ela bateu em alguém num jantar. A família da vítima vai prestar queixa. Três dias detida.
Ele tirou um documento — um pedido formal para dissolver o nosso vínculo de companheiros.
— Se você não vai fazer isso por ela, então assina isso. — A voz dele continuou firme. — Eu vou romper o nosso vínculo de vez. A Dahlia ficou do meu lado por três anos enquanto você não estava. Talvez tenha chegado a hora de eu oficializar as coisas com ela.
Meu coração parou.
Ele não sabia. Nenhum deles sabia.
O médico da prisão tinha me contado antes da minha soltura. Meus órgãos estavam falhando. Anos de alguma coisa — veneno, ele suspeitava — tinham me destruído por dentro. A única razão de eu ainda estar respirando era o vínculo de companheiros.
— Fique perto do seu companheiro — o médico tinha avisado. — O vínculo é a única coisa mantendo você viva agora. Sem ele, você tem semanas. Talvez menos.
Everett achava que estava ameaçando o meu coração. Não fazia ideia de que estava ameaçando a minha vida.
Quando eu me recusei, minha mãe virou a cabeça na minha direção, num estalo.
— Três anos atrás, você arrastou essa família pelo inferno — ela cuspiu. — Você humilhou a gente. A Dahlia passou três meses detida por causa do seu pai — três meses — enquanto você apodrecia por causa da sua própria bagunça. E agora ela pede três dias, e você se recusa?
— Ela sempre foi assim — meu pai disse. A saúde dele vinha piorando fazia anos, e a decepção nos olhos dele fazia ele parecer ainda mais velho. — Só pensa nela mesma.
Everett deu um passo mais perto.
— Eu costumava te defender, Wren. Eu dizia pra todo mundo que você não era tão ruim quanto falavam. Mas talvez eu estivesse errado.
Eu olhei pra ele — o homem que um dia disse que distinguia eu e a Dahlia num único olhar. O homem que me escolheu quando todo mundo me ignorou.
Agora ele nem conseguia me encarar.
Mas o que isso importava?
Se eu recusasse, ele romperia o nosso vínculo. Eu morreria.
Se eu aceitasse, eu passaria três dias longe dele. Eu também morreria.
De um jeito ou de outro, eu já estava morta.
— Tá bom — eu disse. — Eu vou.
A tensão na sala se desfez na hora.
Minha mãe soltou o ar.
— Bom. Você finalmente está aprendendo.
— Quando você sair — meu pai acrescentou —, a gente conversa sobre você voltar a ajudar com os negócios da matilha. Coisas pequenas. Mas é um começo.
Até a expressão do Everett amoleceu.
— Vou ficar com isso aqui. — Ele guardou os papéis de dissolução. — A gente conversa quando você voltar.
Eu quase ri.
Eles já estavam planejando o “depois”. Como se fosse existir um depois pra mim.
— Você está fazendo a coisa certa — minha mãe disse, mudando o tom. — Quando você voltar, eu faço o jantar. A gente come junto. Como uma família.
Eu encarei ela. Aquilo foi o mais caloroso que ela tinha sido comigo desde que eu saí daquela prisão.
Três anos atrás, ela tinha me dado um tapa e me chamado de vergonha. Durante três anos, ela não me visitou — nenhuma vez. E agora, porque eu concordei em levar a culpa, ela estava oferecendo cozinhar pra mim.
A bondade deles vinha tão fácil — no momento em que eu virava útil pra minha irmã.
Eu me perguntei se eles sentiriam alguma culpa quando eu não voltasse nunca mais.
Dahlia apareceu no corredor, enxugando os olhos com a ponta dos dedos. Ela me abraçou forte.
— Obrigada — ela sussurrou. — Eu sabia que você ia dar um jeito.
Quando ela se afastou, os olhos dela encontraram os meus por um segundo. Frios. Satisfeitos.
Então ela se virou pros nossos pais, e eles se juntaram em volta dela — alisando o cabelo dela, dizendo que agora ia ficar tudo bem.
Everett foi ficar ao lado dela, com a mão apoiada no ombro dela.
Os quatro ficaram juntos, sob a luz quente da sala.
Eu assisti da porta.
Um quadro perfeito de uma família amorosa.
E eu era só a sombra que eles já tinham esquecido.
