Capítulo 2

Meus olhos ardiam.

Eu me virei para ir embora, mas Everett me parou na porta.

“Mais uma coisa.” Ele estendeu uma pasta. “Os assuntos da matilha. A Dahlia ficou cuidando disso enquanto você estava fora. Achamos que está na hora de oficializar.”

Olhei os documentos lá dentro. Uma transferência de propriedade. Tudo o que eu tinha construído, passado para minha irmã com uma assinatura.

“Você tem ficha criminal agora”, disse minha mãe. “Ninguém na matilha vai querer trabalhar com você de qualquer jeito.”

“A Dahlia manteve tudo funcionando”, acrescentou meu pai. “É o justo.”

Justo.

Eu tinha construído aquele negócio do zero. Virei incontáveis noites negociando, ganhei a confiança de cada cliente, um aperto de mão de cada vez. E a Dahlia? Ela entrou no meu escritório, sentou na minha cadeira e sorriu por três anos enquanto meus funcionários faziam o trabalho de verdade.

Mas eu nem ia estar por aqui para tocar aquilo de qualquer forma.

“Tá bom”, eu disse, e assinei meu nome.

A Dahlia pegou a pasta, já folheando as páginas. “Eu tenho tantos planos. Everett, eu estava pensando que a gente podia expandir pro território do leste—”

Ela se virou para ele, e ele se inclinou para ouvir melhor. Os dois começaram a falar de números, estratégia, futuro.

Meu companheiro. Minha irmã. Planejando uma vida que não incluía eu.

Eu saí de fininho. Ninguém percebeu.

De volta ao meu quarto, comecei a arrumar minhas coisas. Se eu fosse morrer, eu não queria deixar minhas coisas para eles terem que resolver. Minhas roupas, minhas fotos, alguns livros. Tudo o que dizia que eu um dia tinha existido ali.

O trabalho foi lento. Cada movimento mandava uma fisgada de dor pelos meus ossos. Minhas mãos tremiam. O que quer que tivesse naquela comida da prisão tinha feito estrago.

Por três anos, eu esperei ansiosa por aqueles pacotes. Eu achava que eram da minha família — um sinalzinho de que ainda se importavam.

Agora eu já não tinha tanta certeza.

Quando terminei, lá fora já estava escuro. Mal consegui chegar à cama antes de minhas pernas falharem. Só algumas horas de descanso. Depois eu poderia descobrir o que fazer com o tempo que me restava.

Não sei quanto tempo eu dormi. Mas a porta batendo ao abrir me acordou.

A Dahlia entrou feito um furacão, com lágrimas escorrendo pelo rosto. Meus pais e o Everett vinham logo atrás.

“Como você pôde?” ela gritou. “Eu confiei em você!”

Eu me sentei, ainda tonta. “O quê?”

“Os parceiros do negócio”, disse Everett, frio. “Eles estão dizendo que a Dahlia não sabe o que está fazendo. Que ela ficou se encostando no seu trabalho esse tempo todo.”

“Tá todo mundo rindo de mim!”, soluçou Dahlia. “Estão me chamando de fraude!”

Eu encarei ela. Eu não tinha falado com ninguém. Eu mal tinha saído desta casa.

“Eu não—”

“Então por que estão falando essas coisas agora?” A voz da minha mãe veio afiada. “Logo depois que você voltou?”

“Ela tá com inveja!”, berrou Dahlia, aos prantos. “Ela não aguenta que eu tenha tudo o que ela perdeu!”

Meu pai me olhou com nojo. “A gente te deu uma segunda chance. É assim que você retribui?”

Everett deu um passo à frente. “Conserta isso.”

Minha mãe puxou a Dahlia para os braços, alisando o cabelo dela. “Não chora, meu bem. Você vai acabar ficando doente.” Ela me lançou um olhar. “Eu vou garantir que sua irmã resolva isso.”

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