Capítulo 3

Aconteceu que a Dahlia tinha postado sobre a transferência de propriedade no fórum social da alcateia. Em questão de horas.

Ela escreveu um anúncio inteiro. Falando de como tinha “mantido o negócio de pé” durante a minha ausência. De como estava “finalmente sendo reconhecida” pelo trabalho duro. De como a “transição foi tranquila e natural”.

No começo, os comentários foram só elogios. Parabéns. Mais do que merecido. Tão orgulhosos de você.

Aí alguém fez uma pergunta sobre a expansão pro território do leste que ela tinha mencionado. Uma pergunta técnica. Rotas de abastecimento. Margens de lucro.

A Dahlia não soube responder.

Vieram mais perguntas. Sobre os clientes que eu tinha trazido. Os acordos que eu tinha fechado. Os sistemas que eu tinha montado.

Ela não soube responder a nenhuma.

O tom mudou rápido. O pessoal começou a perguntar se ela tinha feito mesmo algum trabalho. Se ela sequer sabia como o negócio funcionava.

De manhã, metade da alcateia já estava chamando ela de fraude.

“A Dahlia desmaiou duas vezes de tanto chorar”, disse Everett, com a voz dura. “Você precisa resolver isso. Agora.”

Ele agarrou meu braço e me arrancou da cama. Minha cabeça girou. Minhas pernas quase cederam.

Ele nem percebeu.

Meus pensamentos foram longe. Quatro anos atrás, numa reunião da alcateia, a Dahlia tinha sido o centro das atenções. Linda. Encantadora. Todo mundo queria falar com ela.

Eu estava num canto, cuidando da papelada do evento.

Então Everett veio até mim. Não até ela. Até mim.

“Você está procurando a minha irmã?”, eu tinha perguntado. “Ela está ali.”

Ele me olhou como se eu tivesse dito uma coisa estranha.

“Eu estou procurando você.”

Ninguém nunca tinha dito isso pra mim antes.

Mais tarde, ele me disse que enxergava através do teatro da Dahlia. Que eu era a verdadeira. A genuína.

“Meu lobo escolheu você”, ele tinha dito. “Não ela.”

E eu acreditei.

Agora ele estava ao lado dela, defendendo ela, enquanto eu mal conseguia ficar em pé.

O homem que jurou que sabia a diferença já não conseguia mais distinguir uma da outra.

“Eu vou resolver”, eu me ouvi dizer.

Todo mundo relaxou.

“Ótimo”, disse minha mãe. A expressão dela suavizou um pouco. “Quando isso acabar, a gente pode conversar sobre… recomeçar. Como uma família.”

Meu pai assentiu. “Você está melhorando. Continua assim, e as coisas podem voltar a ser como eram.”

Everett ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha da Dahlia. “Eu vou garantir que ela cumpra.”

Eles já estavam planejando um futuro. Um futuro em que eu fazia a minha parte e ficava calada.

Mas não existia futuro pra mim.

A Dahlia puxou o celular e começou a gravar.

“Eu preciso que você diga que não foi seu trabalho”, ela disse, com doçura. “Que você exagerou o seu papel. Que eu sou quem realmente construiu o negócio.”

Eu olhei pra câmera. Pro rosto da minha irmã, marcado de lágrimas. Pros meus pais, observando de perto. Pro Everett, de braços cruzados, esperando.

“O negócio foi trabalho da Dahlia”, eu disse. “Eu exagerei meu envolvimento. Desculpa por qualquer confusão.”

“Perfeito.” Dahlia encerrou a gravação.

Ela postou na hora. Os comentários iam chegar logo. As críticas. A chacota. Tudo em cima de mim.

Meus pais se juntaram em volta da Dahlia, dizendo que agora ia ficar tudo bem. A mão de Everett voltou pro ombro dela.

Ninguém olhou pra mim.

A Dahlia passou por mim em direção à porta. Mas parou, chegando bem perto.

“Você não tem direito de competir comigo”, ela sussurrou. “Mãe, pai, Everett… agora eles são todos meus. Você nunca mereceu nenhum deles.”

Eu não disse nada.

Ela sorriu. Aquele sorriso frio, satisfeito, que eu já tinha visto centenas de vezes.

“Ah, e Wren?” Ela inclinou a cabeça. “Aqueles três anos devem ter sido tão difíceis pra você. Toda sozinha. Sem visitas.”

O sorriso dela se alargou.

“Mas pelo menos você tinha a comida, né?”

Ela saiu antes que eu pudesse perguntar o que ela queria dizer.

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