Capítulo 4

A comida.

Os pacotes que eu esperei durante três anos.

O veneno destruindo meu corpo por dentro.

Ela.

Tinha sido ela.

Dahlia saiu, me deixando ali, parada e sozinha.

Minhas pernas falharam. Eu me apoiei no batente da porta.

Três anos.

Ela estava me matando fazia três anos.

E eu ainda tinha agradecido por isso.

Eu costumava me perguntar o que eu tinha feito de errado.

Crescendo, eu nunca entendi por que a Dahlia olhava para mim daquele jeito. A gente tinha o mesmo rosto, o mesmo aniversário, a mesma infância. Mas, em algum lugar por trás dos olhos dela, sempre existia alguma coisa fria.

Ela queria o que era meu. Não porque precisasse — ela tinha as mesmas coisas. Ela só não queria que eu tivesse.

Nossos pais perceberam. Tentaram ser justos. Mas justiça não era o que a Dahlia queria.

Três anos atrás, ela finalmente ganhou.

Eu ainda me lembrava da caixa que ela levou para o meu quarto. “Guarda isso pra mim”, ela disse. “Só por uns dias.”

Eu não fiz perguntas. Ela era minha irmã.

Quando os fiscais da alcateia apareceram, eu entendi tarde demais. A caixa era prova. Mercadoria roubada. Um crime que nunca foi meu.

Ninguém acreditou quando eu disse que não tinha sido eu. Por que acreditariam? A prova estava no meu quarto.

Três anos na prisão. E a Dahlia seguiu livre.

Agora eu estava voltando. Mais três dias. Só que, dessa vez, eu não ia sair de lá.

O centro de detenção parecia o mesmo que eu lembrava. Paredes cinzentas. Portas de metal. Um ar frio que não cheirava a nada.

Minha família veio se despedir.

Mas eles não estavam olhando pra mim.

“Você vai ligar todo dia, né?”, a Dahlia perguntou ao Everett, agarrada ao braço dele.

“Claro.” Ele colocou uma mecha do cabelo dela atrás da orelha. “São só três dias.”

Minha mãe esfregou as costas da Dahlia. “A gente vai ficar com ela. Ela não vai ficar sozinha.”

“Se cuida”, meu pai disse ao Everett. “Não se preocupa com as coisas aqui.”

Eu fiquei um pouco afastada. Só observando.

Era a Dahlia quem estava sendo consolada. Era com a Dahlia que eles estavam preocupados, com medo de deixar pra trás.

E era eu que estava prestes a desaparecer pra sempre.

“Alguém vai me visitar?”, eu me ouvi perguntar.

Eles se viraram. Minha mãe me olhou, irritada.

“São três dias, Wren. Para de drama.”

“Você aguentou três anos”, meu pai disse. “Isso aqui não é nada.”

O Everett não disse nada. Ele já estava olhando de volta pra Dahlia.

Os guardas seguraram meu braço. As portas se abriram.

Eu olhei pra trás uma última vez. Os quatro estavam juntos, na luz da entrada. A Dahlia se encostava no Everett. Meus pais estavam de cada lado, como se estivessem protegendo os dois.

Ela pegou meu olhar pela fresta que se fechava.

E sorriu.

As portas se fecharam.

Eu caminhei sozinha pelo corredor. Meus passos ecoaram no concreto.

Em alguns dias — talvez menos — meu corpo ia ceder. O veneno já tinha feito o trabalho dele. Sem o Everett, sem o vínculo, não havia nada me mantendo viva.

Eles sentiriam minha falta quando eu sumisse?

Meu pai algum dia descobriria a verdade sobre aquela caixa — que ela nunca foi minha?

Minha mãe se lembraria de ter dito “três dias não é nada” quando estivesse diante do meu corpo?

O Everett perceberia que toda vez que eu estendia a mão pra ele, eu estava implorando pra ele me salvar? Que toda vez que ele se afastava, ele me empurrava mais perto da morte?

A porta da cela se abriu. Eu entrei.

Três dias.

Eles achavam que eu ia sair do mesmo jeito que eu entrei.

Estavam errados.

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