Capítulo 6
Por algum motivo, quando Isabella saiu da UTI, de repente sentiu um vazio no peito.
Era exatamente como no dia em que deixou o orfanato.
Animada com uma vida nova, mas incapaz de se desapegar das pessoas que estava deixando para trás.
Ela e Edward só se conheciam havia seis meses, e ainda assim ela realmente tinha passado a considerá-lo família.
Isabella estava mergulhada em pensamentos quando a voz de Roger a atravessou.
— Srta. Isabella Fairfax, precisamos ir. O Sr. Fairfax está perguntando por você.
A voz dele a trouxe de volta.
— Tá bom.
Ela voltou para o carro.
Do lado de fora da janela, os arranha-céus da cidade foram, aos poucos, dando lugar a árvores e áreas verdes.
As cenas familiares de suas lembranças desapareceram de vista, uma a uma.
Os sentimentos de Isabella por Seaside City eram complicados.
Ela não amava o lugar, mas também não odiava.
Ela não sabia dizer há quanto tempo Roger estava dirigindo quando arranha-céus voltaram a aparecer do lado de fora da janela.
Mas aquele lugar estava em um nível completamente diferente de Seaside City.
Para onde quer que olhasse, carros de luxo se alinhavam pelas ruas, cada um deles uma declaração silenciosa da riqueza da cidade.
— Estamos quase em casa — disse Roger, percebendo que ela olhava ao redor.
Enquanto a paisagem continuava mudando, Isabella se aproximava cada vez mais da Propriedade Fairfax.
O carro virou em direção a um casarão, onde altos portões de ferro preto, com barras pontiagudas no topo, se erguiam na entrada.
Lá dentro, uma grande mansão branca surgiu à vista. O caminho que levava até ela era ladeado, dos dois lados, por rosas cor-de-rosa.
A propriedade fora construída no estilo clássico da Roma Antiga, e o lugar inteiro exalava um ar de romance misturado a uma elegância solene.
Ter uma propriedade de mil acres em Novaria, onde a terra valia seu peso em ouro — quem morasse ali não era uma pessoa comum.
Só então Isabella percebeu que sua família de sangue não era apenas rica. Era outra coisa completamente diferente.
O carro parou diante do prédio principal.
Isabella avistou um casal parado do lado de fora. Os rostos pareciam familiares, mas ela não conseguia lembrar onde os tinha visto antes.
Roger estacionou e deu a volta para abrir a porta para ela.
— Chegamos em casa — disse ele, em voz baixa.
Isabella voltou a si e desceu.
A mulher à sua frente tinha traços suaves, olhos levemente caídos e uma curva delicada nos cantos dos lábios. O olhar dela estava cheio de expectativa.
No instante em que viu Isabella, a mulher soltou um soluço baixo e se virou para o homem ao lado.
— Essa é a nossa filha. Isabella é exatamente como eu era quando jovem.
Isabella entendeu — o casal diante dela eram seus pais biológicos.
Os lábios dela se entreabriram. Queria dizer alguma coisa, mas não sabia por onde começar.
Olivia Brown não pareceu se importar. Ela deu um passo à frente e puxou Isabella para os braços.
— Isabella, você sofreu tanto lá fora todos esses anos. A culpa é minha e do seu pai.
O abraço repentino fez Isabella ficar rígida. Sem saber como reagir, permaneceu em silêncio e deixou Olivia segurá-la.
Foi Henry Fairfax quem falou primeiro, aproximando-se com gentileza para intervir.
— Olivia, deixe a Isabella entrar primeiro. Daqui a pouco conversamos melhor.
Olivia soltou-a a contragosto e, em seguida, pegou a mão de Isabella depressa, conduzindo-a até a porta.
— Isso, isso. Eu me empolguei demais. Vamos entrar.
Isabella foi guiada para dentro.
Seus pais biológicos... não eram bem como ela tinha imaginado.
Ela supunha que fossem pobres, como os Smiths sempre diziam. Mas agora...
Os Fairfax não eram apenas ricos. Eram ricos de verdade.
Assim que entraram, Henry começou a colocar Isabella a par da família.
— Isabella, o Roger provavelmente já contou que você tem dois irmãos mais velhos, então não vou repetir isso.
— Nossa família tem boas condições, então, se você precisar de qualquer coisa, é só falar. Se dinheiro resolve, então não é problema.
Em poucos segundos, Isabella aceitou em silêncio o fato de que tinha nascido em uma família rica.
Roger acrescentou de lado:
— Senhorita, não precisa pensar demais. A família Fairfax é uma das principais famílias tradicionais de Novaria. Eles estão no topo há gerações.
Uau. Riqueza de gerações, no nível mais alto.
Começava a parecer que, salvo algum imprevisto, os anos em que ela foi traficada e viveu longe de casa provavelmente tinham sido os mais difíceis que ela jamais teria de enfrentar.
Ainda assim, Isabella não conseguiu evitar fazer mais uma pergunta.
— Então... mãe, pai, por que o meu local de nascimento aparece como... Cidade de Border Ridge?
Cidade de Border Ridge era como os Smiths sempre chamaram “o fim do mundo”.
Olivia pareceu um pouco constrangida ao explicar:
— A culpa é minha, na verdade. Seu pai estava ocupado demais para viajar comigo naquela época, e eu adorava fazer viagens de carro sozinha. Quando eu estava passando por Cidade de Border Ridge, as estradas na montanha eram tão esburacadas que entrei em trabalho de parto antes da hora. Por isso você nasceu lá.
Isabella assentiu. Isso explicava tudo.
Mesmo nesse primeiro encontro tão breve, Isabella já conseguia perceber que seus pais biológicos seriam fáceis de conviver.
Nesse momento, um jovem loiro desceu as escadas sem pressa, com cara de quem tinha acabado de sair da cama. Era Michael.
Ele tinha sobrancelhas marcadas que lhe davam um ar meio selvagem, um jeito solto e despreocupado de andar, a cabeça levemente baixa — havia algo indomado nele.
No instante em que avistou a garota no meio da sala — uma cópia quase perfeita de Olivia —, seus olhos se iluminaram na hora.
— Essa deve ser a Isabella.
Ele desceu os degraus de dois em dois e, em segundos, apareceu diante dela, examinando-a de cima a baixo como se tivesse acabado de encontrar algo incrível.
Os olhos dele não conseguiam esconder a empolgação.
Isabella olhou para Olivia, confusa.
Olivia entendeu o olhar e interveio:
— Este é o seu segundo irmão, Michael.
Isabella foi a primeira a falar:
— Michael.
O sorriso de Michael se alargou ainda mais.
— Você viu o presente que eu te mandei, né? Aquele carro feito sob medida... você gostou? Eu gastei uma fortuna naquilo. Materiais de nível militar. Em termos de segurança, é sólido, sem dúvida.
Ele a encarou, ansioso, esperando a resposta.
Isabella lembrou daquela caminhonete empoeirada e surrada e forçou um sorriso.
— Eu gostei muito.
Michael parecia prestes a flutuar. Se tivesse um rabo, já estaria abanando até o teto.
— Que bom que você gostou! Da próxima vez que eu botar as mãos em alguma coisa boa, eu mando pra você também.
Se era por compartilharem o mesmo sangue ou por outra coisa, Isabella sentiu algo que nunca tinha sentido direito antes — uma sensação de família — e isso em apenas alguns minutos.
Henry e Olivia foram lhe explicando tudo sobre a casa, ponto por ponto, na esperança de que ela se adaptasse o mais rápido possível.
Quando a noite começou a cair, a porta da frente se abriu de supetão.
Um homem bem-vestido, de terno impecável, entrou com os braços cheios de sacolas — artigos de luxo, joias, todo tipo de presente.
Matthew Fairfax estava um pouco sem fôlego. Ele entrou apressado e olhou ao redor.
— Onde está a Isabella? Eu voltei, e trouxe a Ruby comigo.
