Capítulo 2
No fundo da noite, cheguei ao centro da cidade.
A maioria das lojas que margeavam a rua principal estava com as portas fechadas. Na esquina, havia algumas Ford Raptors com suspensão elevada, as caçambas largadas de qualquer jeito, cheias de garrafas de cerveja vazias e armas carregadas.
Parei em frente a um boteco imundo chamado Iron Horse.
Heavy metal ensurdecedor e os gritos ásperos, cheios de palavrões, de homens vazavam pelas paredes. Era o único lugar da cidade ainda aberto — o bebedouro oficial onde os capangas da família Caldwell iam buscar o pagamento e matar o tempo.
Arthur não sabia a localização exata daquele matadouro. Eu precisava de um guia.
Ao pegar meu reflexo no vidro da janela, baguncei o cabelo, me deixando ainda mais desgrenhado. Eu não podia correr o risco de ser reconhecido.
Agora, eu não passava de um andarilho acabado tentando afogar as mágoas.
Empurrei a pesada porta de madeira e entrei.
O ar estava denso de fumaça barata. Um grupo se acotovelava em volta de uma mesa de sinuca, e as baias encostadas às paredes estavam lotadas de homens. Eles ostentavam pistolas no cós sem o menor pudor, berrando uns com os outros em tiradas altas e obscenas. Não havia policiais para colocá-los na linha, porque eles eram donos da cidade.
Mantendo a cabeça baixa, passei espremido por alguns brutamontes que já embolavam as palavras e me apropriei de um canto escuro no fim do bar, bem ao lado do corredor que levava aos banheiros.
O barman, um cara corpulento de dreadlocks, limpava um copo com um pano imundo, me medindo pelo canto do olho.
— A tequila mais barata que você tiver.
O barman não disse nada. Pegou às cegas um copo baixo debaixo do balcão, serviu um gole de algum líquido transparente aguado e o largou com força na minha frente. O álcool respingou no dorso da minha mão.
Sem erguer os olhos, puxei devagar o copo para perto e me acomodei no meu canto de sombra.
A grande baia circular, à minha direita, chamou minha atenção.
Cinco homens estavam sentados ali. A mesa deles estava coberta de garrafas de cerveja vazias, maços de cigarro amassados e cestas de batata frita pela metade. Bem no meio, havia um sujeito enorme, com barba fechada e uma cicatriz longa e irregular perto do olho direito. Um revólver repousava na mesa, displicente, bem ao lado da mão dele.
— A ordem judicial sai logo cedo amanhã — o líder cicatrizado sorriu. — O chefe Clint disse que amanhã a gente põe dois tratores pra dentro e nivela de vez aquele rancho tomado de mato, aquele lixo.
— Já era pra ter sido antes. Se a gente não tivesse que jogar conforme o manual pra manter o estado fora do nosso pescoço, eu já tinha tocado fogo naquela cabana podre fazia tempo.
Apertei o copo com mais força.
— Sinceramente, chefe — um capanga muito tatuado se inclinou —, eu quase fiquei com pena quando a gente tomou o lugar, três anos atrás. Aquela vadia, a Sarah...? Ela até que era bem gostosa.
— Gostosa o caralho — um magrelo rosnou. — Quando eu mandei ela assinar a escritura, aquela vaca estúpida ainda cuspiu na minha cara.
A cabine explodiu em gargalhadas estrondosas.
— Só lembro que naquela noite estava caindo o mundo quando arrastamos ela pro celeiro — disse outro, entrando na conversa. — Quando a gente pendurou ela, a puta não derramou uma lágrima. Nem implorou por misericórdia até o último suspiro. Psicopata do caralho.
No meio das risadinhas sórdidas, o líder cheio de cicatrizes pegou preguiçosamente uma cerveja recém-aberta.
Quando ergueu a garrafa para dar um gole, as luzes de neon tremeluzentes do bar bateram na mão direita dele.
Apertado no dedo mínimo, havia algo completamente fora de lugar: um anel feminino de diamante e platina. Como era pequeno demais, a aro cravava fundo na carne grossa na base do dedo.
Meus olhos se fixaram no anel. Era o da Sarah.
Anos atrás, eu torrei três meses de economias numa joalheria só para ver a cara dela quando colocasse aquilo no dedo. Sim, eles estavam usando como um troféu doentio.
O sangue subiu às minhas retinas, e minha visão ficou vermelha nas bordas. Meu polegar direito pressionou com força, sem que eu quisesse, a borda do copinho de dose.
O cara tatuado socou a mesa, mudando de assunto. — Falando nisso, o bastardinho azarado do Logan, o Leo, tá preso no matadouro da velha bruxa Martha há três anos.
Por um segundo, meu coração literalmente parou de bater.
— O moleque já deve estar indo pros dez, né? — o magricela sorriu, balançando a cabeça. — Passei pelo lado oeste do matadouro mês passado pra ver a velha desgraçada e dei uma olhada nele. O pirralho tá só pele e osso. A Martha tinha acabado de bater nele com um gancho de ferro porque ele não lavou as tripas do porco morto direito. Parecia um cachorro de rua sarnento e pelado.
— Aquela morcega velha da Martha vai matar esse moleque mais cedo ou mais tarde — falou um capanga que estava quieto até então. Ele jogou uma nota de cinco dólares na mesa. — Aposto que ele não passa deste inverno. Sexta passada, a Martha despejou uma panela de água fervendo direto no cocho da lavagem. Ouvi dizer que quase cegou o merdinha.
— Então anota cinco pra mim também. — O líder empurrou uma nota com grosseria para debaixo da garrafa de cerveja. — Aposto que ele nem chega ao fim do mês. Ontem a Martha tava reclamando que o moleque tá com uma febre alta e já não consegue nem esfregar os cochos dos porcos.
— Hahaha...
Outra onda de risadas altas e debochadas estourou na mesa, junto do tilintar áspero de garrafas de vidro.
Peguei meu copo, engoli a última gota da bebida barata e o coloquei de volta no balcão.
Eu já tinha juntado informação suficiente por aquela noite.
Sentado nas sombras, meus olhos passaram com calma pelos cinco homens na cabine.
Foi então que o líder cheio de cicatrizes tomou um gole enorme de cerveja e se engasgou, tossindo com violência. Praguejando entre dentes, esticou o pescoço, procurando onde cuspir.
Os olhos turvos e injetados de sangue dele pousaram em mim.
Ele parou de tossir. Parecia ter acabado de encontrar um entretenimento.
