Capítulo 3
O chefe se levantou.
Os outros quatro capangas no box pararam de rir, se recostaram no sofá, cruzaram os braços e se ajeitaram para assistir ao espetáculo.
O magrelo ainda assobiou, apontando um dedo na minha direção.
A música heavy metal ainda berrava, mas o clima perto do bar mudou de um jeito palpável. Alguns clientes perceberam a confusão. Não disseram uma palavra para impedir; apenas, em silêncio, pegaram seus copos, se afastaram e abriram espaço.
Nesta cidade controlada pelos Caldwell, os capangas tinham um jeito simples de se divertir: intimidar forasteiros que pareciam indefesos. Claramente, eu era agora o brinquedo que eles planejavam usar para matar a longa noite.
Ele parou diante da minha mesinha apertada.
Eu permaneci completamente imóvel, com a cabeça baixa.
— Ei, mendigo — ele latiu, a voz alta cortando o som do bumbo ao fundo.
Eu o ignorei, os olhos fixos no veio da madeira da mesa.
O bartender grandalhão já tinha virado de costas para limpar o armário de bebidas, aparentando estar completamente decidido a cuidar da própria vida. Às duas horas, os quatro homens observavam, mas nenhum deles mantinha as mãos perto das armas.
— Tô falando com você, tá surdo? — Vendo que eu não respondia, ele chutou minha cadeira, impaciente.
Eu ainda não levantei o olhar.
— Porra, que lixo patético.
Ele xingou e, então, levantou a mão direita e virou por completo a cerveja que ainda não tinha terminado. O líquido escorreu pela minha cabeça, encharcando minha jaqueta de lona.
Ele bateu a garrafa vazia na mesa.
— Some por aquela porta. — O tom pingava provocação. — Aqui a gente não deixa cachorro vira-lata passar a noite. Enquanto eu ainda tô de bom humor, você tem dez segundos pra sair da minha frente.
Eu observei a cerveja pingar do meu cabelo até o chão.
Neste momento, eu tinha uma pistola e dois carregadores sobressalentes pressionados contra a parte baixa das minhas costas. A trava de segurança estava desativada, e havia uma bala na câmara. Meu plano original era segui-los e agir quando eles saíssem do bar e ficassem isolados.
Mas agora eles tinham se entregado na minha porta.
Levantei a cabeça devagar, movendo o olhar da mesa encharcada de cerveja para a mão direita dele.
O anel de diamante no mindinho captou um lampejo da luz fraca.
— Tá olhando o quê? Continua encarando e eu arranco esses teus olhos fora. — Percebendo meu olhar, ele estendeu a mão para agarrar meu colarinho.
Eu não desviei da mão dele. Apenas encarei o anel com calma e fiz uma pergunta.
—A dona daquele anel disse alguma coisa antes de morrer? —minha voz não saiu alta. Veio um pouco rouca.
Ele ficou imóvel por um segundo. Seguindo meu olhar, baixou os olhos para o anel de diamante no dedo mindinho e depois tornou a encarar meu rosto. Por causa da barba por fazer pesada e da sujeira espalhada pelas minhas feições, ele não me reconheceu.
Mas entendeu o que eu tinha dito.
—Que porra isso tem a ver com você? —ele me avaliou de cima a baixo.
—Eu te perguntei —disse eu, os olhos ainda cravados na mão dele. —Ela disse alguma coisa?
Aquela inquisição o enfureceu por completo. Naquela cidade, eles estavam acostumados a agir com impunidade absoluta. Ninguém jamais tinha ousado falar com eles naquele tom.
—Então você é só um desgraçado maluco querendo morrer. —Ele abriu um sorriso repentino. Em seguida, sacou o revólver de grosso calibre enfiado na cintura.
O cão recuou com um estalo agudo, mecânico.
Um segundo depois, o cano de aço gelado estava pressionado bem no meio da minha testa.
A música do bar continuava pulsando, mas os clientes das duas mesas próximas se levantaram depressa e atravessaram para o outro lado do balcão, segurando as bebidas.
No reservado, os outros quatro capangas pararam de conversar. Pousaram as mãos nos coldres, assoviando e vaiando.
—Faz um buraco na cabeça dele, chefe! —gritou um deles.
Ele segurava a arma com uma mão só, me olhando de cima com arrogância absoluta.
—Quer saber o que ela disse antes de morrer? —ele esfregou o cano com força na minha testa, com um sorriso de canto indiferente. —Hoje eu tô de bom humor, então vou te contar. Quando a gente ergueu aquela vadia na corda, o pescoço dela estalou tão forte que ela nem conseguiu fazer som. Ela ficou chutando no ar por uns dois ou três minutos. A cara dela ficou toda roxa, a língua pra fora e tudo.
Enquanto falava, ele apertou mais a arma com a mão direita, a mesma que usava o anel.
—E por que você liga, afinal? —Ele foi apertando o dedo devagar em volta do gatilho. —Você é algum parente pobretão dela? Fala mais uma palavra e eu puxo esse gatilho agora mesmo e te mando pro inferno pra ver aquela puta sem vergonha.
Enquanto ele despejava tudo aquilo, eu só permaneci sentado na cadeira, absorvendo cada palavra que saía da boca dele.
Eu não berrei. Nem sequer reagi com o corpo.
Apenas olhei para ele, gravando aquele rosto com nitidez na minha memória.
—Pode tentar. —Eu o encarei, a voz plana.
—O quê? —Ou ele não me ouviu direito, ou se espantou com a resposta. Ele travou.
—Eu disse: pode tentar me mandar pra lá. —Sustentei o olhar. —Porque é exatamente de lá que eu vim.
Eu me mexi.
