Capítulo 1
Capítulo 1
POV da Sabrina
Meus pais sempre amaram mais a minha prima Yvonne do que a mim. Eu tive que dar tudo pra ela enquanto crescia.
Achei que meu noivo, o Gilbert, seria diferente, mas eu estava errada. Depois que conheceu a Yvonne, ele não parou de me pressionar pra ceder pra ela também — como agora, quando está me obrigando a dar meu rim pra ela. Ele ainda ameaçou terminar o noivado só pra me fazer ceder.
Hoje eu finalmente parei de lutar. Vou dar tudo pra ela. Tudo.
...
Hoje eu descobri o câncer.
— Srta. Collins, eu sinto muito. — O rosto do médico se manteve cuidadosamente neutro enquanto dizia. — O seu câncer de estômago está no estágio quatro. Sem tratamento, a senhora tem aproximadamente três meses de vida.
Três meses.
Eu fiquei ali, encarando os resultados dos exames nas minhas mãos, vendo as palavras se embaralharem na página.
— Podemos começar a quimioterapia imediatamente, se a senhora quiser conversar sobre—
— Eu preciso de um tempo pra pensar — eu disse a ele.
Eu dirigi até o apartamento do Gilbert em completo silêncio; minha mente parecia estranhamente vazia.
Gilbert estava esperando na sala quando eu entrei. Ele se levantou no instante em que me viu.
— Sabrina, você já se decidiu? — A voz dele soava cansada, quase irritada. — Se você não concordar em doar seu rim pra Yvonne, eu não vou assinar o registro de casamento.
Ele levantou o papel pra eu ver. As linhas de assinatura estavam em branco.
Eu olhei para o anel de noivado no meu dedo, que de repente parecia pesado demais.
— Tudo bem — eu disse, calma. — Eu vou fazer isso.
Os olhos do Gilbert se arregalaram.
— O que foi que você disse?
— Vou doar meu rim pra ela.
Ele ficou me encarando por um segundo, como se não acreditasse no que tinha ouvido.
Aí o rosto dele se abriu num sorriso enorme.
— É sério? Você está falando sério mesmo?
Ele pegou uma caneta da mesa de centro e assinou o nome dele depressa, como se tivesse medo de eu mudar de ideia. Depois empurrou o papel pela mesa na minha direção.
— Assina agora. Vai, antes que você desista.
O celular dele começou a tocar. Ele olhou pra tela e o sorriso ficou ainda maior.
— Tenho que atender. — Ele foi até a varanda e fechou a porta de vidro atrás de si. Pela janela, eu vi como ele parecia animado.
— Ela aceitou! — A voz dele atravessou o vidro, alta. — A Sabrina finalmente disse que sim! Ela vai doar o rim dela!
Eu abaixei os olhos pro formulário em cima da mesa, pra linha vazia ao lado de “Nome da Esposa”, peguei a caneta e escrevi um nome naquele espaço — mas o nome que eu escrevi não era o meu; era Yvonne Wells.
Eu encarei o que tinha escrito e senti um sorriso amargo puxar meus lábios.
Ela pode ficar com isso também.
...
Duas semanas atrás, Yvonne foi levada às pressas pro hospital.
Falência renal. Os médicos disseram que foi de repente, inesperado. Ela vivia doente desde o acidente de carro, vinte anos atrás. Sempre fraca, sempre frágil, sempre precisando de alguma coisa de alguém.
— Ela precisa de um transplante de rim — o médico tinha nos dito naquele corredor asséptico do hospital. — Sem isso, ela não vai sobreviver.
Eles testaram todo mundo da família.
Eu era a única compatível.
—Sabrina —disse Yvonne, da cama do hospital, parecendo pequena e pálida contra os lençóis brancos. —Você é a única que pode me salvar.
Eu também vinha me sentindo fraca ultimamente. Cansada o tempo todo, com dores no estômago que não passavam.
—Eu preciso de um tempo pra pensar —eu disse. —Eu também não tenho me sentido bem. Deixa eu fazer uns exames primeiro, aí a gente—
—Pensar? —a voz do meu pai ficou gelada. —Sua prima está morrendo e você precisa pensar?
Gilbert segurou meu braço.
—O que tem pra pensar? Ela precisa de você agora.
—Eu só quero ter certeza de que estou bem o suficiente pra cirurgia —tentei explicar. —Se tiver alguma coisa errada comigo, talvez eu nem possa ser doadora—
—Não tem nada de errado com você —minha mãe me interrompeu. —Você só está arrumando desculpa. Você sempre foi egoísta, Sabrina. Sempre pensando em você primeiro.
—Se você se recusar a ajudar a sua própria prima —disse meu pai, com o rosto duro—, vamos deixar tudo pra Yvonne. Você não vai receber um centavo quando a gente morrer.
O aperto de Gilbert no meu braço ficou mais forte.
—E acabou. Eu vou cancelar o noivado.
Eu queria contar sobre os sintomas, sobre como tinha algo muito errado. Mas os rostos deles, tomados de raiva, me calaram.
—Eu só preciso fazer meus exames primeiro —falei baixo. —Depois eu dou a minha resposta.
Eles me soltaram, mas mal.
No dia seguinte, eu fui ao médico.
Foi aí que eu descobri o câncer.
…
Depois que eu assinei, Gilbert dirigiu direto pro hospital. Ele mal conseguia ficar parado no banco do motorista.
—Eles vão ficar tão felizes quando souberem —ele repetia, de novo e de novo.
Meus pais estavam sentados ao lado da cama de Yvonne quando entramos no quarto. Yvonne estava recostada nos travesseiros, com o soro preso ao braço, pálida e frágil como sempre.
—A Sabrina aceitou! —anunciou Gilbert no instante em que passamos pela porta. —Ela vai fazer! Ela vai doar o rim dela pra Yvonne!
Minha mãe chegou a levar a mão à boca, chocada. Meu pai se levantou da cadeira com um sorrisão se abrindo no rosto.
—Sabrina —disse minha mãe, olhando pra mim como se estivesse orgulhosa pela primeira vez em anos. —Você finalmente criou juízo. Finalmente está pensando na sua família, em vez de pensar só em você.
Eu não respondi.
Meu pai veio até mim e parou bem na minha frente.
—Os pais da Yvonne morreram por sua causa. A saúde dela foi destruída por sua causa. Tudo isso que você está fazendo agora é só pagar o que você deve a ela.
As palavras deveriam ter doído. Não doíam mais.
—Mas você ainda é nossa filha —minha mãe completou depressa. —Depois que a Yvonne melhorar, vamos deixar a maior parte da herança pra você. Pra compensar esse sacrifício. Vamos garantir que a Yvonne tenha dinheiro o suficiente pra viver bem, mas você vai ficar com a maior parte.
Eu olhei pra Yvonne. Só por um segundo, eu vi a raiva atravessar o rosto dela. Aí sumiu, e ela voltou a parecer doce e grata.
Eu balancei a cabeça devagar.
—Eu não quero o dinheiro de vocês —eu disse, engolindo o amargor.
Todo mundo no quarto parou e ficou me encarando.
—Eu não preciso mais de nada disso.
