Capítulo 2
Ponto de vista da Sabrina
“Boba, você é nossa filha”, disse minha mãe, sentada na cadeira ao lado da cama de hospital da Yvonne. “É claro que você vai herdar tudo o que é nosso.”
Meu pai assentiu. “Isso mesmo.”
Gilbert se mexeu ao meu lado, com a mão apoiada na grade da cama da Yvonne. “Sabrina, para de falar besteira.”
Eu olhei para eles naquele quarto de hospital, estéril, com aqueles rostos se esforçando tanto para parecerem sinceros.
Por um segundo, alguma coisa tremulou na minha memória, algo antigo e quase esquecido.
Houve uma época em que eles olhavam para mim daquele jeito e era de verdade. Antes do acidente.
Eu tinha sete anos quando aconteceu. Meu aniversário estava chegando. A família da Yvonne vinha de carro para a nossa casa naquele dia para trazer meu presente de aniversário. Eles não chegaram.
O caminhão apareceu do nada. Os pais da Yvonne morreram na hora, e a Yvonne sobreviveu, mas, depois disso, ela vivia adoecendo e ficou muito frágil.
Minha avó disse no velório: “Eles estavam com pressa pra chegar na festa de aniversário da Sabrina. Foi por isso que aconteceu.”
Depois disso, meus pais trouxeram a Yvonne para morar com a gente, e eu parei de comemorar aniversário porque isso deixava ela triste.
Mamãe sempre comprava as melhores coisas pra Yvonne e me dava as mais baratas.
“Por que a Yvonne ganha coisa boa e eu não?”, eu perguntei pra minha mãe depois.
Ela nem levantou os olhos da revista. “Sabrina, você deve isso pra Yvonne.”
Eu tinha quinze anos quando juntei minha mesada por três meses para comprar um vestido pra mim. Era azul-claro, com florzinhas brancas, a coisa mais bonita que eu já tinha tido. Eu usei uma vez.
A Yvonne viu ele pendurado no meu armário. “Esse tecido ia ficar perfeito pras roupinhas da minha boneca.”
Eu ri, porque achei que ela estava brincando.
No dia seguinte, eu cheguei da escola e encontrei minha mãe na sala, com uma tesoura na mão. Meu vestido estava em pedaços no chão.
“A Yvonne precisava”, minha mãe disse, simplesmente. “Você tem que aprender a dividir.”
Eu fiquei ali, olhando o tecido azul espalhado por todo lado e as florzinhas brancas cortadas ao meio. Depois disso, eu nunca mais comprei outro vestido bonito pra mim.
Eu conheci o Gilbert no trabalho, três anos atrás. Ele estava indo ao nosso escritório para uma reunião e eu estava passando em frente à sala de conferências quando nossos olhos se encontraram através da porta de vidro.
Ele me chamou pra sair no mesmo dia.
“Eu nunca vi ninguém como você”, ele disse, segurando minha mão do outro lado da mesa durante o jantar. “Você é exatamente o que eu venho procurando.”
Ele me cortejou sem descanso — flores na minha mesa, mensagens toda manhã, viagens de fim de semana pro litoral. Eu achei que, finalmente, tinha encontrado alguém que ia me escolher em primeiro lugar.
Seis meses depois, a gente ficou noivo.
Meus pais deram uma festa pra comemorar, e foi ali que o Gilbert conheceu a Yvonne pela primeira vez. Ela estava de vestido branco naquele dia e parecia frágil, delicada, em pé ao lado da minha mãe.
O Gilbert ficou encarando ela por um bom tempo.
“Os olhos dela parecem com os seus”, ele me disse mais tarde, naquela noite. “Mas os dela são mais… vulneráveis. Mais tristes.”
Depois do noivado, o Gilbert começou a aparecer nos jantares de família e a perguntar da saúde da Yvonne, e a sentar do lado dela em vez de sentar comigo.
Às vezes, eu já nem sabia dizer se ele era meu noivo ou o dela.
Eu chorei por causa disso uma vez e disse pra minha mãe que não era justo.
Ela me olhou com nojo. “Você está sendo egoísta. A Yvonne não tem ninguém. O Gilbert só está sendo gentil.”
Eu gritei com o Gilbert na próxima vez que ele desmarcou o nosso encontro pra levar a Yvonne a uma consulta médica. Depois disso, ele ficou uma semana sem falar comigo.
Meu pai dizia que eu era dramática. Minha mãe dizia que eu era invejosa. Gilbert dizia que eu era cansativa.
Depois disso, eu parei de chorar e parei de gritar. Não mudava nada mesmo.
Ali, de pé naquele quarto de hospital, eu senti aquela tristeza antiga tentando voltar à tona, e todos aqueles anos de dor subindo e apertando meu peito. Mas aí eu me lembrei.
Eu vou morrer.
Três meses, talvez menos. Essas pessoas, as opiniões delas, o amor delas — ou a falta dele — nada disso importava mais. Eu não precisava da aprovação delas, nem do carinho delas, nem de absolutamente nada vindo delas.
...
Naquela noite, minha mãe insistiu que a gente fosse todo mundo pra casa jantar.
— Fiz um banquete pra você recuperar as forças antes da cirurgia — ela me disse no carro. — Você precisa comer direito e se cuidar.
Por um instante, eu quase acreditei que ela se importava.
Quando a gente chegou em casa, minha mãe tinha feito os pratos preferidos da Yvonne, e a mesa estava abarrotada de comida que eu não queria comer.
Eu me sentei e encarei a mesa posta.
— Mãe — eu disse baixinho. — Achei que você tinha dito que isso era pra mim.
Minha mãe fez um gesto de desdém com a mão.
— Isso tudo é comida nutritiva.
— Sabrina — meu pai disse depois de alguns minutos. — A gente precisa te pedir uma coisa.
Eu levantei o olhar do prato.
Minha mãe se inclinou pra frente.
— É sobre o colar com a cruz que o Gilbert te deu de aniversário. Aquele que o padre abençoou.
Eu levei a mão ao pescoço por instinto. A cruzinha de prata estava ali, pendurada numa corrente delicada. O Gilbert tinha me dado no ano passado, disse que ia me proteger.
— A Yvonne está muito nervosa com a cirurgia — minha mãe continuou. — Ela está com medo de alguma coisa dar errado. Ela precisa de alguma coisa abençoada pra dar coragem e proteção.
Gilbert assentiu.
— É só por um tempo, Sabrina. Ela devolve depois da cirurgia.
Eu alcancei o fecho e tirei o colar do pescoço. A prata estava fria na minha palma.
— Ela pode ficar com ele. E pode ficar pra sempre — eu disse, com a voz sem emoção.
O rosto do Gilbert escureceu na hora.
— A Yvonne só vai pegar emprestado, Sabrina. Por que você está sendo maldosa? Esse colar foi um presente meu pra você.
Eu coloquei a cruz em cima da mesa, entre nós.
— Ah — eu disse.
Gilbert ficou me encarando, esperando que eu discutisse, ou pedisse desculpas, ou explicasse, mas eu não fiz nenhuma dessas coisas.
Minha mãe mudou de assunto depressa. Eu fiquei empurrando a comida pelo prato até o jantar acabar, e ninguém percebeu que eu não comi nada.
Na manhã seguinte, eu fui sozinha até o cartório. O formulário do registro de casamento estava na minha bolsa.
Eu entreguei o formulário ao atendente, que imprimiu a certidão de casamento e a deslizou na minha direção. Eu a dobrei com cuidado e coloquei de volta na bolsa.
Quando eu voltei pra casa dos meus pais, fui direto pro meu quarto — o quartinho sem janela que antes era um depósito. Abri a gaveta da escrivaninha, empurrei cadernos velhos e canetas pro lado e abri um espaço bem no fundo, onde escondi a certidão.
A certidão de casamento da Yvonne e do Gilbert. A prova de que meu noivo agora era legalmente casado com a minha prima.
Eu fechei a gaveta e me sentei na cama. O cansaço desabou em cima de mim de uma vez só, e meu corpo ficou pesado, minha cabeça doía. Eu me deitei e fechei os olhos.
Eu não sei quanto tempo tinha passado quando as batidas na porta me acordaram com um susto, altas e urgentes.
— Sabrina! — a voz do meu pai saiu dura, mandona. — Sai daí! Agora!
Eu me sentei devagar, com o coração disparado.
— Sabrina! — agora era minha mãe, a voz mais aguda, quase em pânico. — Tem uma emergência! Abre a porta!
