Capítulo 3

POV da Sabrina

Eu abri a porta.

Meus pais estavam no corredor, com o Gilbert logo atrás deles. A Yvonne também estava lá, o rosto molhado de lágrimas.

— O que aconteceu? — eu perguntei.

As mãos da Yvonne tremiam. — Sabrina... eu fiz besteira...

Minha mãe agarrou meu braço e me puxou para a sala. Todo mundo foi atrás.

— Senta — meu pai mandou.

Eu sentei.

A Yvonne continuou chorando, soltando uns soluços curtinhos, engasgados. O Gilbert pôs a mão no ombro dela.

— Conta pra ela o que você contou pra gente — minha mãe disse à Yvonne.

A Yvonne enxugou os olhos. — O médico disse que eu precisava de um pouco de ar, então eu saí pra dar uma volta do lado de fora do hospital. Eu usei o seu colar e coloquei uma máscara. — A voz dela falhou. — Tinha uma garota perto do lago artificial. Ela trombou em mim e nem pediu desculpas.

Ela parou, e mais lágrimas caíram.

— Ela falou coisas horríveis pra mim. Riu da minha cara e me chamou de patética. — As mãos da Yvonne se fecharam em punhos. — Eu fiquei com tanta raiva... eu não aguentei. Eu empurrei ela no lago.

A sala ficou em silêncio.

— Ela é da família Lawson — a voz da Yvonne baixou. — Quando ela caiu, ela agarrou meu pescoço e o colar ficou na mão dela. Eles rastrearam até a gente. Ligaram perguntando qual mulher da nossa família estava no hospital hoje.

Eu olhei pros meus pais e depois pro Gilbert.

— Sabrina — meu pai disse. — Os Lawson ligaram. Você precisa admitir que empurrou aquela garota.

Meu peito apertou e eu mal conseguia respirar.

— É pelo bem da Yvonne — o Gilbert acrescentou. — Você entende, né?

Eu entendia. A família Lawson. Todo mundo sabia deles e das ligações com o crime organizado, da fama de violência, de como as pessoas simplesmente sumiam quando cruzavam com aquela família.

Eu olhei pra Yvonne sentada ali, chorando lágrimas falsas, pros meus pais e pro Gilbert me encarando, esperando. Aí eu me levantei sem dizer nada.

— Sabrina, aonde você vai? — a voz da minha mãe subiu. — Você precisa responder!

Eu fui até o meu quarto, tirei o diagnóstico de câncer da bolsa e coloquei na gaveta, ao lado da certidão de casamento que eu tinha registrado naquela manhã.

Eu encarei os dois papéis por um bom tempo, depois fechei a gaveta.

Os homens da família Lawson vieram atrás de mim uma hora depois.

Eles não falaram nada. Só agarraram meus braços e me puxaram até um carro preto. Meus pais e o Gilbert ficaram na porta olhando. Nenhum deles abriu a boca.

A viagem levou meia hora. A gente passou por um portão, desceu uma alameda comprida e parou diante de uma mansão enorme, de pedra.

Eles me arrastaram até os fundos, onde havia uma piscina.

Um homem de terno estava na beira d’água. O cabelo dele era prateado, e os olhos, gelados.

— Você é a que empurrou minha filha — ele disse.

— Eu...

— Já que você gosta tanto de empurrar gente na água — ele continuou — vamos ver como você gosta.

Foi aí que eu notei o movimento na água. Formas escuras circulando logo abaixo da superfície.

— Piranhas — o homem disse, acompanhando meu olhar. — Eu crio como bichos de estimação.

Meu coração parou.

— Não — eu disse. — Por favor, eu não...

Os seguranças me empurraram pra frente. Eu tentei resistir, mas eram muitos.

A água me atingiu como gelo. Eu voltei à superfície, ofegando, e na mesma hora senti alguma coisa roçar na minha perna. Depois outra. E então a dor explodiu na minha panturrilha.

Eu gritei.

Eu tentei nadar até a borda, mas os peixes continuavam vindo. Dentes rasgando meus braços, minhas costelas, minhas costas. A água ficou rosada, depois vermelha.

Eu estava me afogando no meu próprio sangue. A dor virou tudo. Eu não conseguia pensar, não conseguia respirar, não conseguia ver nada além do vermelho.

Então mãos me agarraram. Me puxaram pra cima. Me jogaram no concreto.

Fiquei ali, tremendo e sangrando, enquanto alguém enrolava faixas em mim. Só cobriu os ferimentos rápido e de qualquer jeito.

“Leva ela pra casa”, alguém disse.

Me largaram na porta da casa dos meus pais.

Gilbert abriu a porta. Minha mãe e meu pai estavam atrás dele.

“Você voltou”, minha mãe disse. Ela me examinou da cabeça aos pés. “Não parece tão grave.”

Eu estava coberta de ataduras mal feitas. Minhas roupas estavam encharcadas de sangue e água da piscina. Eu mal conseguia ficar em pé.

“Sinceramente”, disse Gilbert, “tô surpreso que os Lawson deixaram você ir embora tão fácil.”

“Bom, entra”, meu pai disse. “Você tá pingando na varanda.”

Passei por eles sem dizer nada. Cada passo fazia a dor explodir pelo meu corpo. As ataduras já estavam manchando de sangue.

Fui direto pro meu quarto e fechei a porta.

Atrás de mim, ouvi minha mãe dizer pra Gilbert: “Pelo menos a Yvonne tá em segurança. É isso que importa.”

Tirei minhas roupas molhadas devagar. As ataduras por baixo estavam encharcadas de vermelho. Eu precisava trocar.

A porta abriu.

Yvonne entrou sem bater. Os olhos dela brilharam quando viu o sangue.

“Meu Deus”, ela disse, mas estava sorrindo. “Você tá péssima.”

Eu não respondi. Só comecei a desenrolar as faixas do meu braço.

“Ainda bem que você foi no meu lugar”, Yvonne continuou. “Imagina se essas cicatrizes fossem no meu corpo? Eu tava acabada.”

Ela fechou a porta atrás dela e tirou um cigarro. Acendeu ali mesmo, no meu quarto.

A fumaça subiu, se enrolando em direção ao teto.

Eu olhei pra ela. “Dá pra fumar com insuficiência renal?”

Yvonne parou no meio da tragada.

“E você não tinha que estar internada?”, eu continuei.

Ela me encarou por um segundo e, então, caiu na risada.

Riu e riu, como se eu tivesse contado a piada mais engraçada que ela já ouviu.

Terminei de colocar uma faixa limpa no meu braço e comecei a cuidar do próximo ferimento.

“Você é um porre”, Yvonne disse por fim, ainda sorrindo. Ela deixou o cigarro cair no meu chão e apagou com o pé. “Tanto faz. Aproveita suas cicatrizes.”

Ela foi embora.

Eu fiquei ali, sentada na cama, cercada de ataduras ensanguentadas, e terminei de tratar dos meus ferimentos em silêncio.

Três dias depois, vieram me buscar pra me levar ao hospital pra cirurgia do transplante de rim.

Meus pais foram dirigindo. Gilbert foi no banco do passageiro. Yvonne apertou minha mão no banco de trás como se se importasse.

Eu vi os prédios passando pela janela. Tinha alguma coisa errada.

“Esse caminho não parece o do hospital”, eu disse.

Minha mãe olhou pra trás. “A gente vai pra outro hospital.”

“Por quê?”

“Esse é mais especializado”, meu pai disse do volante. “Mais bem equipado pra cirurgia de transplante.”

Yvonne assentiu. “Meu médico recomendou. Disse que eles têm as melhores taxas de sucesso da cidade.”

Eu olhei as ruas desconhecidas. “Eu achei que o seu hospital estava bom.”

“Esse é melhor”, Gilbert disse, sem se virar. “Você quer que a Yvonne tenha o melhor atendimento, não quer?”

Eu não respondi.

“Eu tô tão animada”, minha mãe disse. “Finalmente a Yvonne vai ficar saudável de novo.”

“É um milagre”, meu pai completou.

Gilbert se virou no banco pra olhar pra Yvonne. “Depois que você estiver curada, pra onde você quer ir? A gente pode viajar pra qualquer lugar.”

“Ah!” Minha mãe bateu palmas. “Isso, vamos planejar algo especial.”

“Pra onde a gente vai, Yvonne?”, perguntou Gilbert.

Yvonne olhou pra mim. “Pra onde a Sabrina quer ir?”

Todo mundo se virou pra me olhar. Esperando minha resposta.

“Pro céu”, eu disse.

O carro ficou em silêncio.

“O que foi que você disse?”, minha mãe disparou.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo