Capítulo 4

POV da Sabrina

“Por que você falaria uma coisa tão deprimente?” Meu pai apertou mais o volante e me lançou um olhar pelo retrovisor. “A gente estava planejando compensar você depois disso, te dar uma coisa legal, e você fala isso?”

Gilbert se virou no banco. “Sabrina, isso não tem graça.”

Yvonne apertou minha mão e fez aquela cara preocupada. “Não brinca assim, você está assustando todo mundo.”

Eu olhei para os três me encarando, esperando que eu pedisse desculpas.

“Eu estava só brincando”, eu disse.

Minha mãe relaxou de volta no banco. “Não fala uma coisa dessas, dá azar.”

O hospital apareceu à nossa frente, um prédio moderno, com janelas de vidro espelhado que parecia mais novo do que o hospital de onde a Yvonne tinha vindo.

O carro parou na entrada.

Um médico de jaleco branco saiu para nos encontrar. No crachá, estava escrito Dr. Wallace.

“Sr. e Sra. Collins”, ele disse com um sorriso treinado. “E esta deve ser a doadora.”

Meu pai apertou a mão dele. “Sim, esta é nossa filha, Sabrina.”

Dr. Wallace olhou para mim e depois para a Yvonne. “E a receptora. Maravilha. Por favor, entrem.”

Nós o seguimos até uma sala de consulta.

“Antes de prosseguirmos com o transplante”, disse o Dr. Wallace, tirando alguns papéis, “precisamos fazer exames completos tanto na doadora quanto na receptora. Também precisamos esperar o momento ideal, quando as condições do corpo de vocês duas estiverem no melhor possível.”

“Quanto tempo isso vai levar?”, perguntou Gilbert.

“A doadora vai precisar ficar aqui por cerca de uma semana. Vamos monitorá-la de perto.” Dr. Wallace se virou para a Yvonne. “Quanto a você, Srta. Wells, na verdade eu recomendo que você volte, por enquanto, para o seu hospital de origem.”

Os olhos de Yvonne se arregalaram. “Por quê?”

“Mudar de hospital de repente pode atrapalhar seu protocolo de tratamento”, explicou Dr. Wallace. “Você deve continuar sua rotina de cuidados atual. Volte em uma semana, e aí faremos a cirurgia.”

Minha mãe assentiu. “Faz sentido.”

“Uma semana”, repetiu meu pai. “A gente volta todo mundo.”

Gilbert se levantou. “Não se preocupa, Sabrina. Vai acabar antes do que você imagina.”

Eles saíram juntos. Yvonne acenou para mim da porta.

A porta se fechou e eu fiquei sozinha com o Dr. Wallace.

“Venha comigo”, ele disse. “Vou te mostrar o seu quarto.”

O corredor era longo e vazio. Nossos passos ecoavam no piso de linóleo.

Tinha alguma coisa errada.

O quarto para o qual ele me levou era pequeno, com uma cama de solteiro e uma janelinha perto do teto. As paredes eram de um branco liso, sem nada.

“Descanse um pouco”, disse o Dr. Wallace.

Ele saiu e trancou a porta pelo lado de fora.

Eu me sentei na cama e olhei em volta. A janela era alta demais para alcançar. A porta não tinha maçaneta pelo lado de dentro.

Aquilo não parecia um quarto normal de hospital.

...

Os dois primeiros dias foram tranquilos. Enfermeiras vinham tirar sangue, medir meus sinais vitais, fazer exames básicos. Elas mal falavam comigo.

Na terceira noite, eu acordei com vontade de ir ao banheiro.

Eu bati na porta e esperei. Depois de alguns minutos, uma enfermeira destrancou.

“Banheiro”, eu disse.

Ela apontou pelo corredor sem falar nada.

Eu caminhei devagar, com os pés descalços gelados no chão. O hospital estava assustadoramente silencioso a essa hora.

Foi quando eu ouvi vozes vindo de uma sala com a porta entreaberta.

“O rim vale pelo menos cinquenta mil”, disse a voz de um homem. “Mas o coração? Aí é que está o dinheiro de verdade. Fácil duzentos mil, talvez mais.”

Eu congelei.

“E o fígado?”, perguntou outra voz, mais jovem.

“A gente divide. Dois receptores. Aí dá mais cem mil.”

Meu peito apertou. Eu me encostei na parede, quase sem respirar.

“Quando chega o próximo?”, perguntou a primeira voz.

“Daqui a uma semana. A família já pagou o sinal.” Risadas.

“Esse pessoal é muito burro. Eles trazem pra gente órgãos fresquinhos numa bandeja.”

Meu sangue virou gelo.

Aquilo não era um hospital. Era um esquema de extração de órgãos no mercado negro.

Eu precisava sair dali.

Eu me virei para correr, mas meu pé prendeu em alguma coisa e eu tropecei. Minha mão bateu na parede com um baque alto.

As vozes pararam.

“O que foi isso?”

“Tem alguém aí fora.”

Eu corri.

Passos pesados martelaram atrás de mim. Rápidos, fortes.

Eu puxei o celular com as mãos tremendo e disquei o número do Gilbert.

“Sabrina?” A voz dele soou irritada. “São três da manhã.”

—Gilbert, escuta. —Eu corria, ofegante. —Esse hospital… não é de verdade. Eles estão roubando órgãos. Você precisa chamar a polícia!

—Do que você tá falando?

—Eu ouvi! Eles vão arrancar meus órgãos e vender! Você tem que me tirar daqui!

A voz do Gilbert ficou gelada.

—Sabrina, isso é patético. Até pra você.

—Eu não tô mentindo! Por favor, você tem que acreditar em mim!

—Você tá inventando história pra escapar de doar seu rim pra Yvonne. —A voz dele vinha carregada de nojo. —Não acredito que você ia chegar nesse ponto.

—Gilbert, por favor!

—Pra mim, deu. —A ligação caiu.

Eu disquei o número do meu pai. Chamou três vezes.

—Sabrina. —A voz do meu pai veio dura, cheia de raiva. —O Gilbert acabou de ligar pra gente. Para com essa palhaçada agora.

—Pai, não é palhaçada, eu tô em perigo—

—Chega! —ele gritou. —Você concordou com isso! Não dá pra desistir agora!

—Eu não tô desistindo, eu tô dizendo que esse lugar é…

A voz da minha mãe entrou na ligação.

—Sabrina, a gente tá muito decepcionada com você. A Yvonne precisa dessa cirurgia e você tá inventando mentira!

Os passos estavam chegando mais perto.

—Por favor —eu implorei. —Por favor, só me escuta—

—A gente conversa quando você voltar pra casa —meu pai disse. —Depois da cirurgia.

A ligação caiu.

Mãos me agarraram por trás. Meu celular bateu no chão, fazendo um barulho seco.

—Pegamos ela —alguém disse.

Eu tentei gritar, mas uma mão tampou minha boca. Eles me arrastaram pelo corredor.

—Não, não, não —eu tentei dizer por baixo da mão. —Por favor, eu não vou contar pra ninguém, por favor—

Eles empurraram uma porta dupla.

A sala de cirurgia.

Luzes fortes. Mesas de metal. Instrumentos cirúrgicos alinhados em fileiras perfeitas.

O doutor Wallace estava lá com outra pessoa de jaleco cirúrgico. Uma mulher com um crachá escrito Dra. Myers.

—Apaguem ela —disse o doutor Wallace. Ele já estava paramentado. —A gente faz isso hoje à noite.

—Mas a família pagou pra semana que vem —alguém disse.

—Ela sabe demais. A gente tira o que der agora e some antes de eles voltarem.

Eles me prenderam na mesa de cirurgia com correias. Eu me debatí contra as tiras, mas tinha gente demais.

Uma máscara desceu sobre o meu rosto.

—Não —eu tentei gritar. —Não, por favor!

O gás encheu meus pulmões. A sala começou a embaçar.

—Comecem pelos rins —a voz do doutor Wallace soou distante. —Depois o fígado. O coração por último.

O mundo apagou.

Eu abri os olhos.

Eu estava flutuando acima da mesa de cirurgia, olhando pra baixo, pro meu próprio corpo.

Eles já tinham me aberto.

Meu corpo na mesa não se mexia mais. Só uma casca vazia sendo desmontada, pedaço por pedaço.

—Ela se foi —disse uma das enfermeiras.

—Levem pro necrotério. Limpem isso aqui. A gente vai embora de manhã.

A Dra. Myers assentiu e trouxe uma maca.

Eles empurraram meu corpo pra fora da sala de cirurgia numa maca, coberto por um lençol branco.

Eu fui atrás, sem conseguir desviar o olhar, sem conseguir ir embora.

O necrotério ficava no subsolo. Frio. Escuro. Eles me deixaram numa mesa de metal e apagaram as luzes.

Eu fiquei ali na escuridão, pairando sobre o meu próprio cadáver.

O tempo passou. Eu não sabia quanto. Horas. Dias.

O hospital lá em cima ficou silencioso. O doutor Wallace e a Dra. Myers juntaram tudo na manhã seguinte.

Antes de irem embora, eu vi o doutor Wallace tirar um passaporte da gaveta da mesa.

O nome nele dizia Glenn Webb, e não doutor Wallace coisa nenhuma.

O passaporte da Dra. Myers dizia Sarah Mitchell.

Eles terminaram de arrumar as coisas e saíram pela porta dos fundos; um motor de carro ligou e, depois, só restou silêncio.

Eu estava completamente sozinha.

As horas passaram e viraram dias.

Meu corpo começou a feder, porque o necrotério não era frio o bastante pra impedir de verdade a decomposição.

Eu fiquei num canto só olhando, sem conseguir sair dali, sem conseguir fazer nada.

Depois de alguns dias, ratos deram um jeito de entrar no prédio, porque sentiram o cheiro da morte.

Eu tive que ver eles comerem partes de mim.

O cheiro piorou e apareceram moscas, depois mais ratos.

Eu queria desviar o olhar, mas eu não conseguia. Eu tava presa ali com o meu próprio corpo apodrecendo.

Meu corpo mal dava pra reconhecer.

Aí, um dia, eu ouvi vozes de novo vindas lá de cima, perto da entrada.

—Doutor Wallace, a gente pode começar a cirurgia agora?

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