Capítulo 1 O nevoeiro não esconde tudo

O aeroporto de Lisboa era um borrão de pressa, mas, assim que o carro particular saiu em direção à serra de Sintra, o mundo pareceu desacelerar. Pela janela, a paisagem tropical e escaldante de Manaus foi substituída por um verde úmido e quase melancólico. Era o meu primeiro dia em Portugal, e a ideia de estar aqui para supervisionar a fusão europeia da Indústrias Lombardi deveria me encher de orgulho. Em vez disso, o que eu sentia era um vazio crescente, uma inquietude que eu tentava silenciar com a perfeição do meu tailleur italiano e a impecabilidade do meu coque.

Ethan não viera comigo. Ele preferiu ficar no Brasil para "gerenciar as expectativas dos acionistas", mas sua sombra era onipresente. Ele me ligava a cada trinta minutos, como se quisesse garantir que eu não me perdesse no caminho entre o aeroporto e a mansão da família em Sintra.

Quando o carro subiu a estrada sinuosa, o nevoeiro típico da região começou a envolver a serra. Sintra era um cartão-postal gótico, um lugar onde o tempo parecia ter se esquecido de passar. E ali, no topo de uma colina, a mansão que meu pai insistira que eu ocupasse parecia mais um refúgio do que um escritório.

Assim que a porta do carro foi aberta por um motorista, o ar fresco, com cheiro de musgo e terra molhada, atingiu meu rosto. Senti um arrepio. A mansão era imponente, com torres que desafiavam o horizonte e jardins que pareciam saídos de um romance de época.

— Bem-vinda, senhorita Lombardi. O senhor Soler já a aguarda no interior — disse o motorista, pegando minha mala.

Meu coração falhou uma batida. Soler.

Meu pai não havia mencionado que o consultor de segurança que ele contratara para esta transição europeia seria ele. Ian Soler. O nome ressoou na minha mente como um eco de um passado que eu me esforcei muito para enterrar.

Entrei no hall de entrada. O mármore frio sob meus saltos agulha produzia um som seco, quase intimidador. A sala era vasta, decorada com móveis do século XIX e grandes janelas que emolduravam o jardim nublado.

Ele estava de costas, examinando uma das janelas. Ele vestia uma camisa social de mangas dobradas e calças de alfaiataria escura. Ele não precisou se virar para saber que eu estava ali; a forma como ele se posicionou, em total alerta, era inconfundível.

— A pontualidade nunca foi o seu forte, Valeria — disse ele, com aquela voz grave que eu reconheceria em meio a um milhão de outras.

Ian virou-se lentamente. Os olhos dele, de um castanho profundo e analítico, varreram meu rosto com uma lentidão que me deixou sem ar. Ele estava mais velho, mais calejado, e havia uma cicatriz quase invisível na linha da sobrancelha esquerda que eu não me lembrava de existir.

— Ian... — minha voz soou fraca, quase um sussurro. Recuperei a compostura imediatamente, endireitando a coluna. — Não sabia que o serviço de segurança da Lombardi tinha contratado você.

Ele soltou uma risada seca, sem humor, e começou a caminhar em minha direção. Cada passo seu era calculado, dominando o espaço.

— Seu pai precisava de alguém que conhecesse a fundo as vulnerabilidades da empresa, e ninguém conhece os esqueletos no armário dos Lombardi melhor do que eu, não é? — Ele parou a poucos centímetros de mim. O cheiro dele era uma mistura de café, couro e algo que me lembrava as chuvas de verão em Manaus. — Além disso, proteger a "princesa de cristal" é uma tarefa que exige paciência. E eu descobri que tenho muita paciência, Valeria.

Ele estendeu a mão, não para me cumprimentar, mas para retirar uma folha seca que estava presa ao meu cabelo. O toque de seus dedos, rápidos e eletrizantes, queimou minha pele.

— A diferença entre nós, Ian, é que eu não sou mais aquela menina — respondi, tentando ignorar a forma como minha respiração vacilou.

— Não — ele concordou, um sorriso irônico curvando seus lábios. — Você é uma mulher agora. Com um noivo poderoso, um império para gerir e uma vida perfeitamente desenhada para não ter erros. Mas eu olho para você, e a única coisa que vejo é a mesma fachada de porcelana.

— O que você quer aqui? — perguntei, tentando manter o tom de autoridade.

Ian inclinou-se levemente, ficando na altura dos meus olhos. O olhar dele era um convite para o perigo.

— Eu quero garantir que você não se quebre, Valeria. Porque em Sintra, o nevoeiro é traiçoeiro. E eu estarei aqui para garantir que você não se perca... nem de mim, nem de si mesma.

Ele deu um passo atrás, voltando ao seu modo profissional e frio como se aquele momento de eletricidade nunca tivesse existido.

— Seus aposentos ficam no andar superior. As reuniões da fusão começam amanhã cedo. Até lá, sugiro que descanse. Você vai precisar.

Ele girou nos calcanhares e saiu em direção ao seu posto, deixando-me ali, no meio do grande hall, sentindo que a paz que eu buscava em Portugal acabara de desaparecer no nevoeiro.

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