Capítulo 2 O eco da Regaleira

A noite em Sintra não descia; ela se abatia sobre a serra como um manto pesado e úmido. Deitada na cama de dossel no quarto principal, eu não conseguia encontrar o sono. O silêncio da mansão era absoluto, interrompido apenas pelo farfalhar das árvores seculares contra as vidraças, um som que me parecia um aviso constante.

Eu tinha vindo para cá em busca de um respiro, de uma oportunidade de provar a meu pai — e a mim mesma — que eu era mais do que a herdeira decorativa que Ethan e os acionistas esperavam. Mas a presença de Ian no andar de baixo era uma nota dissonante em minha partitura de controle. Ele não era apenas um guarda-costas; era um lembrete vivo de uma versão de mim mesma que eu tinha deixado morrer há anos.

Lancei-me fora da cama, enrolando-me em um robe de seda. Eu precisava de ar. Se o sono não vinha, a produtividade seria minha tábua de salvação. Desci as escadas com os pés descalços, a madeira antiga estalando sob meu peso. Eu pretendia ir ao escritório no térreo para revisar os contratos da fusão, mas, ao passar pelo hall, vi uma luz tênue vindo do terraço.

Ian estava lá, apoiado na balaustrada de pedra, a silhueta recortada contra a névoa que subia do vale. Ele não vestia mais o paletó; estava apenas de camisa social, as mangas dobradas até os cotovelos revelando os antebraços fortes. Ele parecia contemplativo, a expressão carregada com uma melancolia que eu nunca vira nele na época da juventude.

Eu deveria ter voltado. Deveria ter subido as escadas e me trancado no quarto. Mas, como um ímã, meus pés me levaram até a porta de vidro.

— Insônia é um efeito colateral comum da altitude — ele disse, sem se virar. Sua voz era baixa, misturando-se ao som da brisa noturna. — Ou talvez seja a culpa por estar tão longe de casa, senhorita Lombardi?

— Não é culpa, Ian. É responsabilidade — corrigi, aproximando-me com cautela.

Ele se virou, os olhos brilhando com uma intensidade que me fez hesitar a dois metros de distância. O terraço era amplo, dominado pela vista nebulosa da Quinta da Regaleira ao longe, cujas torres góticas surgiam do nevoeiro como dentes de um gigante.

— Responsabilidade é uma palavra muito bonita para quem vive a vida que você vive — ele comentou, dando um passo em minha direção. — Você já se perguntou, Valeria, em que momento exato você deixou de ser dona da sua própria história?

— Você fala como se me conhecesse, como se soubesse o que se passa na minha cabeça. — Eu cruzei os braços, tentando criar uma barreira física entre nós. — Você foi embora, Ian. Escolheu seu caminho, sua carreira, seu desprezo por tudo o que a minha família representa.

O rosto dele endureceu. Ele se aproximou, e o calor que irradiava de seu corpo parecia desafiar a temperatura fria da noite de Sintra.

— Eu não escolhi ir embora, eu fui expulso. Existe uma diferença abismal aí. E quanto a conhecer você? — Ele riu, um som seco e amargo. — Eu conheço cada medo que você tenta esconder atrás desse sorriso de "vice-presidente". Eu sei que você odeia o champanhe que bebe, que detesta o cheiro do perfume que o Ethan te dá, e que, secretamente, você adoraria largar tudo e desaparecer em algum lugar onde ninguém soubesse o seu sobrenome.

Fiquei estática. Ele descrevera exatamente os meus pensamentos mais intrusivos, aqueles que eu nem ousava verbalizar para mim mesma.

— Isso é cruel — sussurrei.

— Isso é a verdade, Valeria. E a verdade é que você está cercada. Ethan não é o príncipe encantado. Ele é o carcereiro, e você está entregando as chaves da cela a ele por vontade própria.

— O que você quer que eu faça? — minha voz falhou. — O legado do meu pai... a saúde dele...

— O legado do seu pai é feito de papel e dinheiro, e ele sobreviverá sem que você sacrifique sua alma no altar de um casamento de conveniência. Mas você? Você não vai sobreviver a isso sem perder quem você é.

Ele estendeu a mão, hesitante, e tocou a ponta do meu queixo, forçando-me a olhar em seus olhos. A conexão foi instantânea, uma descarga elétrica que percorreu todo o meu corpo. Ali, no escuro, não éramos a herdeira e o guarda-costas. Éramos apenas dois jovens que se reencontravam em um cenário de sonhos e pesadelos.

— Por que se importa? — perguntei, quase sem voz. — Se você me odeia tanto, se odeia o que os Lombardi fizeram com você, por que se deu ao trabalho de aceitar este posto?

— Porque eu preciso ter certeza de que, quando o castelo de cartas desmoronar — e ele vai desmoronar, Valeria —, eu esteja perto o suficiente para te segurar antes que você atinja o chão.

O silêncio que se seguiu foi preenchido pelo som longínquo de um sino de igreja em algum lugar lá embaixo, em Sintra. Ele não me beijou, embora eu soubesse, pelo brilho em seu olhar e pela forma como sua respiração estava presa, que ele queria. Ele simplesmente se afastou, deixando um rastro de eletricidade no ar.

— Vá dormir, Valeria. Amanhã teremos um longo dia. E não se preocupe com a segurança. Enquanto você estiver sob minha vigilância, ninguém toca em você.

Ele me deu as costas e caminhou para o interior da casa, deixando-me sozinha com a neblina e com o coração batendo descompassado no peito. Eu sabia que ele estava certo sobre tantas coisas, e isso era o que mais me aterrorizava. O contrato com Ethan parecia mais frágil do que nunca, e Sintra, com toda a sua beleza gótica, começava a parecer menos um refúgio e mais um palco para a tempestade que se aproximava.

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