Capítulo 3 O jogo das aparências
O café da manhã em Sintra era um exercício de etiqueta que eu teria apreciado se o ambiente não estivesse saturado de uma tensão invisível. Eu estava sentada à cabeceira da mesa de mogno, com a tela do meu laptop exibindo relatórios de fusão que eu mal conseguia processar. O ar estava pesado, não pelo nevoeiro lá fora, mas pela presença constante de Ian, que estava encostado na ombreira da porta, com os braços cruzados e um olhar que parecia dissecar cada um dos meus movimentos.
— O relatório da auditoria fiscal da unidade europeia está incompleto — ele comentou, quebrando o silêncio sem nem precisar se aproximar. — Se você enviar isso para a diretoria, Ethan terá o motivo perfeito para questionar sua competência operacional antes mesmo da fusão ser assinada.
Eu parei de digitar, meus dedos travados sobre o teclado. Olhei para ele por cima dos óculos de leitura, sentindo aquela irritação familiar borbulhar.
— Eu não preciso de uma aula de estratégia de um guarda-costas, Ian. E, na verdade, eu não preciso de você opinando sobre o meu trabalho.
Ele deu um passo para dentro da sala, caminhando com aquela elegância predatória que parecia ocupar todo o espaço. Ele pegou uma das pastas que estavam sobre a mesa e a folheou com uma displicência que me enfureceu.
— Você está sendo ingênua ou apenas negligente? — Ele jogou a pasta sobre a mesa, abrindo-a na página correta. — Veja a página 42. Os ativos imobiliários em Portugal foram subavaliados por uma consultoria contratada pelo Grupo De la Vega. Se você assinar isso, está basicamente dando a eles o controle de Sintra por metade do valor de mercado.
Senti um calafrio percorrer minha espinha. Aproximei-me, meus olhos varrendo os números. Ele tinha razão. O erro era tão sutil que passara despercebido por mim e pela minha equipe de confiança em Manaus. Era uma armadilha.
— Como você sabia disso? — perguntei, levantando o olhar para ele.
— Eu não trabalho apenas com segurança física, Valeria. Eu trabalho com inteligência. Se vou te proteger, preciso saber quem está tentando te destruir — ele disse, mantendo um tom profissional, embora seus olhos estivessem carregados de uma intensidade que me desarmava. — E, neste caso, o inimigo não está do lado de fora dos muros. Está na sua própria mesa de negociações.
Senti um peso enorme no peito. A ideia de que Ethan estivesse usando nossa união para pilhar o império do meu pai era algo que eu vinha tentando ignorar há meses, mas ver a prova ali, escrita em números frios, tornava tudo real.
— Eu preciso falar com o meu pai — murmurei, levando a mão à têmpora.
— Seu pai não vai acreditar em você se você não tiver provas concretas. Ele ainda vê Ethan como o salvador que vai injetar capital na empresa. Você precisa ser mais inteligente do que isso. Você precisa jogar o jogo deles.
— E como eu faço isso? — Eu o encarei, procurando por uma resposta que não fosse apenas mais uma manobra de desestabilização.
Ian se aproximou, e desta vez ele não parou a dois metros de distância. Ele se apoiou na mesa, inclinado sobre mim, de modo que nossas respirações se confundiram. O aroma de café forte e sua presença dominante me fizeram sentir pequena, mas, estranhamente, protegida.
— Você vai ao evento no Palácio de Monserrate esta noite. Você vai sorrir, vai fingir que não sabe de nada e vai deixar o Ethan acreditar que você é a noiva obediente que ele acha que é. Enquanto isso, eu vou conseguir o acesso ao servidor central de onde esses relatórios foram gerados.
— Isso é perigoso, Ian. Se ele descobrir...
— Ele não vai — Ian a interrompeu, a voz baixando para um sussurro que me causou um arrepio. — Porque você vai distraí-lo. Você vai ser a mulher mais charmosa daquele palácio. Você vai fazer ele pensar que você é totalmente dele, enquanto eu cavo o buraco onde a carreira dele vai cair.
— Você está pedindo para eu mentir para o homem com quem vou me casar.
— Estou pedindo para você salvar o que resta da sua liberdade. Você quer ser uma Lombardi pelo resto da vida, Valeria? Ou você quer ser apenas Valeria?
A pergunta pairou no ar, uma faca de dois gumes. Eu me levantei, ficando frente a frente com ele. Nossos rostos estavam a poucos centímetros de distância. Eu podia ver os detalhes em seus olhos, a pequena cicatriz na sobrancelha, a curva firme de seus lábios. Por um momento, a tensão profissional se dissipou, substituída por uma eletricidade muito mais perigosa.
— Você está me pedindo muito — sussurrei.
— Estou pedindo que você confie em mim, pela primeira vez em três anos — ele rebateu, a voz carregada de uma vulnerabilidade que ele tentava esconder a todo custo.
Antes que eu pudesse responder, o toque do meu celular na mesa quebrou o momento. O nome "Ethan" brilhava na tela, uma notificação insistente que parecia zombar da nossa proximidade.
Ian recuou instantaneamente, voltando ao seu modo de guarda-costas implacável. Ele me olhou uma última vez, um aviso silencioso, e saiu da sala, deixando-me sozinha com o telefone tocando e a certeza de que a noite no Palácio de Monserrate seria o ponto de virada de toda a minha existência.
Atendi o telefone com as mãos trêmulas.
— Oi, Ethan.
— Valeria, meu amor. Prepare-se. O carro chega às oito. Esta noite vamos anunciar a fusão global, e eu quero que o mundo inteiro veja que você é o meu troféu de ouro.
O troféu de ouro. Suas palavras ecoaram com um amargor metálico na minha boca.
— Estarei pronta, Ethan — respondi, forçando um tom de voz que não revelasse o caos que se instalara na minha mente.
Desliguei e olhei para o relógio. Faltavam poucas horas para o baile. Ian estava certo sobre uma coisa: a máscara de porcelana estava começando a rachar, e eu precisava decidir se tentaria colá-la ou se a deixaria cair de uma vez por todas.
