Capítulo 4 O baile de máscaras
O Palácio de Monserrate não era apenas uma construção; era uma declaração de poder. Enquanto o carro executivo subia a estrada ladeada por árvores centenárias, eu observava os jardins exóticos passando como borrões de sombras. O vestido que eu usava, uma criação de seda esmeralda que Ethan insistira em me dar, parecia uma armadura de gala. Mas, por baixo, eu me sentia exposta.
Ian dirigia em silêncio. No espelho retrovisor, nossos olhares se cruzaram por um segundo, e foi o suficiente para que a ansiedade no meu peito fosse substituída por uma descarga de adrenalina. Ele usava um terno escuro, quase imperceptível nas sombras do carro, mas sua presença era como uma gravidade que puxava toda a minha atenção.
— Lembre-se — a voz dele cortou o silêncio, grave e contida. — O servidor está no gabinete do administrador. O acesso é biométrico, mas o sistema de refrigeração da ala leste falhará por três minutos durante o discurso principal. É a sua deixa para criar a distração necessária.
— E como eu crio uma distração para trezentos investidores, Ian? — perguntei, sentindo as mãos formigarem.
— Você é uma Lombardi. Você sabe como fazer as pessoas olharem para você. Só certifique-se de que o Ethan esteja olhando também.
Quando descemos na entrada principal, o brilho dos candelabros e o som das cordas da orquestra nos receberam como um tapa de luxo. A elite europeia circulava pelo salão, um oceano de rostos conhecidos e sorrisos falsos. Ethan estava perto da escadaria principal, bebendo champanhe, cercado por um grupo de diretores da rede de hotéis.
Assim que me viu, ele abriu aquele sorriso de capa de revista que, antes, eu achava fascinante, mas que agora, sob a ótica daquelas planilhas de Ian, parecia apenas uma faca bem afiada.
— Valeria! — ele exclamou, vindo ao meu encontro e beijando minha mão com um ar de posse. Ele ignorou Ian completamente, que se posicionou alguns passos atrás, mantendo uma distância profissional, mas observando tudo como um falcão. — Você está espetacular. O esmeralda combina perfeitamente com os novos planos da fusão.
— Obrigada, Ethan — respondi, forçando um sorriso que não alcançou meus olhos. — Estou um pouco cansada da viagem. Posso pegar uma bebida antes de cumprimentar os diretores?
— Claro, meu amor. Mas não demore. O discurso é em quinze minutos.
Enquanto eu caminhava em direção à mesa de serviço, senti o peso do olhar de Ian nas minhas costas. Eu precisava ser rápida. O plano era simples, mas o risco de ser pega por Ethan era aterrorizante. Caminhei em direção à ala leste, fingindo que procurava pelo lavabo. A arquitetura do palácio era labiríntica, com corredores decorados com tapeçarias que pareciam observar meus passos.
Ao chegar perto da porta do gabinete, vi que havia dois seguranças privados de Ethan. Eles não faziam parte da equipe da Lombardi. Eram homens grandes, com a postura rígida de quem trabalhava com espionagem industrial.
Parei, respirando fundo. Eu precisava ser a herdeira Lombardi.
— Com licença — disse, usando meu tom mais autoritário e glacial. — Meu pai me informou que houve uma falha técnica nos relatórios de faturamento que precisam de uma verificação urgente. Preciso acessar o terminal.
Os homens se entreolharam, hesitantes. A dúvida estava ali. Foi então que Ian apareceu no fim do corredor, caminhando com pressa, como se estivesse a serviço de algo urgente.
— O que está acontecendo aqui? — Ian perguntou, com a autoridade que só alguém que conhece o sistema pode ter. — A senhorita Lombardi tem prioridade absoluta sobre qualquer setor de inteligência. Abram a porta. Agora.
Eles vacilaram, e Ian usou esse milissegundo de hesitação para passar por eles com um ar de urgência ensaiada. Eu entrei no gabinete atrás dele, sentindo meu coração martelar contra as costelas.
— Três minutos — ele sussurrou, agachando-se sob a mesa e conectando um dispositivo no terminal. — Assim que a luz do painel piscar, a distração começa.
O tempo parecia ter se transformado em mel. A cada segundo, o som dos aplausos lá fora parecia mais próximo. De repente, as luzes do gabinete oscilaram. O ar-condicionado parou de zumbir.
— Funcionou — ele murmurou, seus dedos voando sobre o teclado. — Estou baixando tudo. As contas, as transferências, a prova de que Ethan tem tentado desviar o capital da fusão para contas em paraísos fiscais em nome dele.
— Ian, depressa — implorei.
O painel brilhou em azul. O download estava concluído. Mas, antes que ele pudesse remover o dispositivo, a porta do gabinete se abriu com um estrondo.
Lá estava Ethan, com o rosto contraído em uma máscara de fúria absoluta. O sorriso de capa de revista havia desaparecido, substituído por um olhar que eu não reconhecia — um olhar de predador que finalmente encurralara sua presa.
— Eu sabia — Ethan disse, a voz num sussurro cortante que gelou o sangue nas minhas veias. — Eu sabia que você era uma decepção, Valeria. E quanto a você, Soler... você cometeu um erro fatal ao achar que podia brincar no meu terreno.
Eu paralisei. A prova de toda a corrupção estava na mão de Ian, mas Ethan parecia ter vindo preparado para uma guerra. Atrás dele, mais dois homens bloqueavam a saída.
— Valeria, saia da frente — Ethan ordenou, enquanto puxava um pequeno dispositivo de controle do bolso. — Eu não queria que as coisas terminassem assim hoje. Mas se você quer brincar de detetive, vai ter que lidar com as consequências.
Ian se levantou lentamente, bloqueando a visão de Ethan em relação a mim. Ele trocou um olhar comigo, um olhar de despedida que me destruiu por dentro. A máscara de porcelana havia caído completamente, e agora, no coração de Sintra, a verdadeira guerra pelo império — e por nós — tinha acabado de começar.
