Capítulo 5 O estilhaçar do cristal
O silêncio que se seguiu à entrada de Ethan foi mais ensurdecedor do que qualquer grito. A tensão no gabinete era tão densa que eu sentia dificuldade para respirar. Ian permanecia imóvel, o corpo teso como uma corda de violino, enquanto o dispositivo de dados, contendo a prova da ruína de Ethan, estava escondido na palma da sua mão.
— Você está sendo patético, Ethan — a voz de Ian soou calma, quase entediada, um contraste brutal com a fúria nos olhos de meu noivo. — Acha mesmo que, se eu estivesse sozinho, você teria conseguido entrar aqui sem que eu ouvisse seus passos?
Ethan deu um passo à frente, os olhos fixos em mim, ignorando completamente Ian como se ele fosse apenas um inconveniente descartável.
— Valeria, querida... — ele começou, com uma falsa doçura que me dava náuseas. — Você tem ideia do que acabou de fazer? Você é uma Lombardi. Você nasceu para brilhar, para ser a imagem da perfeição. Por que insiste em se sujar com esse lixo de gente? Esse homem só quer te usar para destruir o que o seu pai levou uma vida inteira para construir.
— Ele não está destruindo nada, Ethan! — exclamei, minha voz ganhando uma firmeza que me surpreendeu. — Você é quem está roubando a empresa! Eu vi os documentos, eu vi as transferências!
Ethan riu. Foi uma risada gélida, sem qualquer resquício de humanidade.
— Documentos? — Ele balançou a cabeça em negação. — Se você sair por aquela porta, Valeria, não haverá "documentos". Haverá apenas a ruína da sua família. Eu controlo os credores, eu controlo a margem de crédito das Indústrias Lombardi. Se eu cair, o império cai junto. E o seu pai? Bem, o coração dele não aguentaria a notícia de que a filha o traiu e o levou à falência.
Senti o chão oscilar. O pânico, que antes era uma névoa, tornou-se uma âncora de gelo no meu peito. Ele estava usando a saúde do meu pai como arma. De novo.
Ian deu um passo lateral, um movimento sutil que me colocou sob sua proteção.
— Você fala muito, De la Vega, mas sua autoridade aqui é tão falsa quanto o seu amor por ela — Ian disse, dando um passo à frente. — A segurança deste palácio não é mais sua. Eu ativei o protocolo de isolamento há dois minutos. A guarda portuguesa foi notificada sobre a movimentação suspeita na sua ala privada. O jogo acabou.
Os olhos de Ethan se estreitaram. Ele olhou para o dispositivo na mão de Ian e depois para a porta. Ele sabia que o tempo estava se esgotando.
— Você acha que vai sair daqui com isso? — Ethan perguntou, sua mão indo ao bolso interno do paletó.
Num movimento que aconteceu rápido demais para os meus olhos, Ian se lançou sobre ele. O som do choque dos dois corpos contra a mesa de carvalho foi seco. Papéis voaram pelo ar enquanto eles lutavam pelo controle. Eu gritei, tentando me aproximar, mas Ian me empurrou para trás, mantendo-me fora da linha de fogo.
— Saia daqui, Valeria! Corra para o salão principal e encontre o seu pai! — Ian rugiu enquanto lutava para desarmar Ethan.
Eu não queria deixá-lo. Cada fibra do meu ser implorava para ficar, para ajudar, para lutar ao lado dele. Mas o olhar que Ian me lançou — um olhar de súplica absoluta e proteção desesperada — me convenceu. Ele estava me dando uma chance.
Corri para fora do gabinete. Meus pés descalços — havia deixado os saltos para trás na confusão — batiam contra o mármore frio do corredor. O som da confusão atrás de mim era abafado pelas paredes grossas do palácio, mas o meu coração batia na garganta.
Ao chegar ao salão de baile, a orquestra continuava a tocar uma valsa, alheia ao colapso que acontecia nos bastidores. Procurei por Arturo Lombardi em meio aos convidados. Ele estava lá, perto da mesa dos investidores, conversando com o embaixador. Parecia frágil, alheio a tudo, e a culpa me rasgou a alma.
Eu preciso protegê-lo.
Aproximei-me dele, tentando recuperar o fôlego e arrumar o vestido esmeralda que agora estava amarrotado.
— Papai? — chamei, a voz tremendo.
Ele se virou, sorrindo. Mas o sorriso morreu ao ver meu estado.
— Valeria? O que aconteceu? Onde está o Ethan?
Antes que eu pudesse responder, ouvi um barulho vindo da ala leste. Um som de algo pesado sendo derrubado. E, em seguida, o silêncio. Um silêncio que parecia durar uma eternidade.
De repente, as luzes do salão piscaram. O sistema de som falhou e a música parou, deixando os convidados em um burburinho nervoso. Então, uma figura surgiu na porta lateral do salão.
Era Ian. Ele estava com a camisa rasgada no ombro, marcas de uma luta intensa, mas em sua mão ele segurava o dispositivo de dados. Ele não olhou para mim. Ele olhou diretamente para o meu pai. E atrás dele, dois guardas do palácio escoltavam um Ethan de la Vega desgrenhado e furioso.
Ian caminhou até o centro do salão, ignorando o espanto da elite. Ele não era mais o segurança contratado; ele era o homem que tinha a chave do futuro da família Lombardi nas mãos.
Ele parou diante de nós e, pela primeira vez na noite, seu olhar encontrou o meu. Não havia mais a fachada profissional. Havia apenas uma verdade crua e o início de uma nova realidade para todos nós.
— Senhor Lombardi — Ian disse, sua voz ecoando por todo o salão silencioso. — Acho que o senhor tem muito o que ver. E acho que é hora de sua filha finalmente assumir o controle que sempre foi dela.
O mundo parou. E, ali, no meio daquele baile de máscaras, eu percebi que a porcelana que eu tanto protegera finalmente se quebrara. Mas o que havia por baixo era muito mais forte do que qualquer cristal.
