Capítulo 6 Um Bom Dia
Giulia Ricciardi
O som de batidas suaves na porta me tirou do sono. Com esforço, abri os olhos, vendo a luz da manhã já entrando pelas cortinas entreabertas.
— Senhorita Giulia — chamou a voz de Sílvia, a governanta da casa. — Seu pai pediu para avisar que a senhorita deve descer em dez minutos para o café da manhã.
Suspirei profundamente, sentindo o peso da obrigação logo ao acordar.
— Obrigada, Sílvia. Já estou descendo — respondi, minha voz ainda rouca de sono.
Levantei-me, sentindo a preguiça do corpo após a noite anterior. Fui direto para o banheiro, onde tomei um banho rápido e frio para despertar de vez. Enquanto a água escorria pelo meu corpo, meus pensamentos vagavam para o que me esperava no dia. A aula do curso de moda começaria hoje, e eu estava animada.
Assim que fiquei pronta, desci as escadas com passos tranquilos, tentando adiar mentalmente qualquer surpresa que papà pudesse ter planejado para mim. Quando entrei na sala de jantar, fui recebida pela visão de Matteo Moretti sentado à mesa com meu pai.
Claro que papà não perderia tempo. Matteo era filho de um dos aliados mais próximos de papà, um homem influente e com uma boa reputação.
— Giulia, quero que conheça Matteo Moretti — disse papà com um sorriso orgulhoso, gesticulando para o homem ao seu lado. — Ele é filho de um grande amigo. Achei que vocês poderiam se conhecer melhor.
— É um prazer conhecê-la, Giulia — disse Matteo, levantando-se e estendendo a mão. Ele parecia educado e tinha um sorriso simpático, mas algo nele não despertava meu interesse.
Sentei-me à mesa, lançando um olhar discreto para Matteo enquanto meu pai continuava a falar. Foi então que me lembrei de Francesca.
Minha irmã tinha demonstrado interesse nele quando o viu na festa. Algo me dizia que essa situação poderia ser facilmente resolvida.
Assim que papà saiu da sala, deixando-nos a sós, virei-me para Matteo.
— Não quero parecer rude, Matteo, mas acho que não deveria estar aqui — comecei, direta, mas com um tom amigável. — Entretanto, tem uma pessoa que gostaria de estar aqui no meu lugar. Imagino que conheça minha irmã mais nova, Francesca.
Matteo pareceu surpreso, mas logo relaxou, soltando um leve riso.
— Bem, isso faz sentido. Para ser sincero, quando meu pai mencionou que eu deveria conhecer uma das filhas de Domenico Ricciardi, pensei que ele estava falando de Francesca. Ela me chamou a atenção na festa.
Sorri, sentindo um alívio inesperado. Ao menos ele parecia estar na mesma página que eu. Peguei meu celular rapidamente e mandei uma mensagem para Francesca: "Se arrume e desça para a sala de jantar agora. Matteo está aqui e ele parece interessado em você."
Pouco tempo depois, Francesca entrou na sala, usando um vestido simples, mas elegante, e um sorriso que deixava claro o quanto estava feliz. Ela lançou um olhar para mim, como se pedisse permissão, e eu apenas balancei a cabeça, indicando que estava tudo bem.
— Matteo, esta é Francesca — apresentei, levantando-me da mesa. — Acho que vocês têm muito o que conversar e não quero atrapalhar. Tenham um bom dia!
Sem esperar pela resposta de nenhum dos dois, saí da sala, sentindo-me satisfeita. Ao menos Francesca teria a chance de conhecer alguém que realmente se interessava.
Peguei minhas coisas e segui para o carro, já ansiosa para chegar à aula do curso de moda. Me senti leve, como se ao menos um peso tivesse sido retirado dos meus ombros. A ideia de que Francesca poderia ter algo que desejava de verdade me deixou sorridente durante o caminho inteiro.
Cheguei à escola de moda alguns minutos antes da aula começar, pronta para mergulhar em algo novo.
O dia estava claro e vibrante quando estacionei o carro em frente à escola de moda. A ansiedade misturada com excitação fez meu coração bater mais rápido enquanto eu entrava no prédio moderno. Uma recepcionista simpática me indicou a sala, e quando entrei, notei imediatamente o ambiente acolhedor e descontraído. Várias pessoas já estavam lá, sentadas em mesas dispostas em pequenos grupos, algumas organizando materiais e outras apenas conversando.
Escolhi um lugar mais ao fundo e comecei a arrumar minhas coisas. Estava empolgada para começar algo novo, algo só meu. Logo, uma garota morena de cabelos cacheados, com olhos vivazes e um sorriso amigável se aproximou.
— Você é nova por aqui, não é? — perguntou, inclinando a cabeça.
— Sim, sou Giulia. É meu primeiro dia.
— Prazer, Giulia. Sou Lizza. Posso me sentar aqui?
— Claro!
A conversa fluiu naturalmente desde o início. Descobri que Lizza também tinha 26 anos e estava no curso há algumas semanas. Ela me contou sobre os professores, as matérias e até alguns desafios que enfrentou no início. Aos poucos, eu me sentia mais confortável, e logo estávamos rindo juntas de alguma história engraçada que ela contou sobre um dos alunos mais desajeitados da turma.
Durante o intervalo, sentamos juntas para tomar um café, e foi nesse momento que uma revelação interessante surgiu.
— Seu nome e sua aparência não me são estranhas… Qual seu sobrenome, Giulia? — perguntou Lizza, enquanto mexia no cappuccino com uma colher.
— Ricciardi. — Observei uma expressão de surpresa passar pelo rosto dela.
— Ricciardi? — ela riu, ainda parecendo surpresa — Acredito que tenha visto meu irmão hoje.
— Seu irmão?
— Matteo Moretti.
Minha surpresa foi evidente.
— Que coincidência! Quem diria que encontraria uma Moretti aqui. — sorri e ela também — Acredito que isso possa facilitar uma boa amizade a surgir?
— Com certeza.
O restante das aulas passou rapidamente. Aprendemos sobre técnicas de ilustração de moda, combinando tecidos e cores. Era fascinante e envolvente.
Quando o dia terminou, Liz sugeriu que fôssemos juntas comprar materiais de estudo. Aceitei prontamente, pois ainda precisava de algumas coisas. Paramos em uma loja especializada, cheia de cadernos de desenho, lápis de cor, marcadores, réguas e tudo que qualquer aspirante a designer de moda poderia desejar.
Enquanto escolhemos nossos materiais, conversamos sobre algumas coisas mais íntimas, como nossas famílias. Lizza era uma pessoa leve, alguém que eu sentia que poderia me abrir sem receios. Trocar contatos foi natural, e combinamos de nos encontrar no próximo dia de aula para estudarmos juntas.
Quando finalmente voltei para casa, estava exausta, mas feliz.
Estacionei o carro na garagem de casa e caminhei pelo jardim, ainda sorrindo enquanto pensava nas conversas que tive com Liz. Quando entrei no saguão, notei Lorenzo parado próximo à escadaria, conversando no telefone, enquanto me aproximava foi o tempo dele desligar o celular, e então ele me viu. Senti seus olhos percorrem a mim por cima a baixo, mas logo indo para minhas sacolas e depois para meu rosto.
— Voltando tarde hoje, senhorita Giulia?
— Sim. Estava na aula, curso novo. — falei, animada e ele deu um breve sorriso — E por favor, Lorenzo. Mada de senhorita, você sabe o quanto odeio isso.
— Um curso novo? De quê agora? — perguntou ele, erguendo uma sobrancelha, demonstrando um interesse genuíno.
— Moda.
Lorenzo pareceu ponderar por um momento antes de responder.
— Combina com você.
Senti minhas bochechas aquecerem ligeiramente, mas mantive o sorriso sereno.
— Concordamos em algo!
Ele deu um passo para o lado, olhando para o relógio no pulso.
— Preciso resolver algumas coisas agora. Bons estudos!
— Obrigada — respondi, observando enquanto ele se afastava pelo corredor.
Enquanto subia as escadas para o meu quarto, percebi que o dia tinha sido, de fato, diferente. Entre a amizade inesperada com Liz, o curso empolgante e aquele breve momento com Lorenzo, senti como se estivesse, lentamente, começando a encontrar fragmentos de uma vida que podia chamar de minha.
