Capítulo 4
Ponto de vista de Eleanor
Dispensei James na entrada do restaurante. “Preciso de ar. Vou caminhar um pouco.”
A expressão dele vacilou de preocupação — Arthur provavelmente tinha instruído que ele garantisse que eu chegasse em casa em segurança —, mas ele assentiu e se afastou. Vi o Cadillac desaparecer no trânsito da Sexta Avenida e, então, notei o Tesla preto de Arthur ainda parado na esquina, com o motor ligado.
Meu corpo se moveu antes que minha mente pudesse impedir.
Chamei um táxi amarelo, o coração martelando. “Siga aquele Tesla preto.”
Os olhos do motorista encontraram os meus pelo retrovisor, avaliando o vestido Dior, a pulseira da Cartier, o rímel borrado. Vi um lampejo de reconhecimento — não de mim, mas da situação. Já fiz esse trajeto antes, para mulheres exatamente como você.
Ele não disse nada. Só entrou no fluxo de carros.
Isso é patético, pensei, encostando a testa no vidro frio. Você está seguindo o próprio marido como uma esposa desesperada de tabloide.
Eu quero dar mais uma chance a ele, eu precisava ver com meus próprios olhos.
O saguão do Mount Sinai era mais silencioso à noite, o piso de mármore brilhando sob uma iluminação suave. Observei Arthur avançar em direção aos elevadores com aquele andar confiante que eu costumava achar reconfortante.
Agora só parecia frio.
Segui a certa distância, os saltos estalando alto demais. Um grupo de residentes de cirurgia passou, e eu me apertei contra um pilar. Quando cheguei aos elevadores, Arthur tinha sumido.
Três elevadores. Painéis digitais pulando entre andares — 2, 5, 7, 10, 13.
Eu não fazia ideia de qual ele tinha pegado.
Um casal jovem passou, o homem ajustando o cachecol da esposa enquanto ela se inclinava para ele, confiante e segura.
Desviei o olhar, as unhas cravando nas palmas.
Você está num saguão de hospital, com um vestido de grife, espionando seu marido. É nisso que você se transformou.
“Eleanor?”
A voz da minha mãe me atingiu como água gelada. Virei de supetão e a encontrei me encarando, uma bolsa térmica na mão, os olhos arregalados de surpresa.
“O que você está fazendo aqui? Achei que estivesse jantando com o Arthur.”
Minha mente ficou em branco. Então o treinamento entrou em ação — o colégio interno, aprender a sorrir apesar de tudo. “Nós jantamos. Comi demais e precisei caminhar. Acabei vindo parar aqui.” A mentira tinha gosto de cinza. “Como está o papai?”
Ela estudou meu rosto com aquela intuição específica de mãe. “Você está péssima. Brigou com o Arthur?”
“Não, claro que não. Está tudo bem.” Forcei um tom alegre. “Um jantar maravilhoso.”
“Então por que você está aqui com esse vestido?” O olhar dela desceu até meu pulso. “E por que você parece que estava chorando?”
“Eu não…” Mas ela já estava pegando meu braço, me conduzindo em direção ao elevador.
“Venha ver seu pai. Ele vai ficar feliz.”
Não, eu quis gritar. Eu não consigo sentar lá e sorrir enquanto estou morrendo por dentro.
Mas deixei que ela me puxasse mesmo assim. Porque era isso que eu sempre fazia.
O sétimo andar estava silencioso demais; os corredores acarpetados abafavam os sons. Mamãe falava sem parar sobre os resultados dos exames do papai enquanto meu coração tentava rasgar meu peito por dentro.
Sebastian disse sétimo andar. Ele viu Arthur aqui.
Ela empurrou a porta do quarto do papai.
Ele estava sentado na cama, com os óculos de leitura apoiados no nariz, e quando me viu o rosto dele se iluminou. “Eleanor! Que surpresa maravilhosa. Hoje foi o jantar de aniversário de casamento de vocês?”
“Foi.” Beijei a bochecha dele, respirando a colônia misturada ao cheiro de antisséptico. “Como você está se sentindo?”
“Melhor a cada dia. O Arthur esteve aqui mais cedo — trouxe aqueles romances de mistério que eu queria. Um rapaz tão atencioso.”
Atencioso. A palavra pareceu uma faca entre minhas costelas.
Mamãe abriu um sorriso radiante. “Ele é mesmo maravilhoso, Eleanor. Você tem muita sorte.”
“Eu sei que você pode ser teimosa às vezes”, continuou papai, “mas o Arthur fez tanto por nós. Quando tudo desmoronou três anos atrás, ele não era obrigado a ajudar. Esse tipo de lealdade é raro.”
Cada palavra era uma pedra sobre meu peito. Lealdade. Como se o dinheiro dele pudesse comprar perdão.
A porta se escancarou. Sebastian entrou quase saltando, uma sacola da farmácia na mão. “Mãe, peguei a receita…” Ele parou. “El! O que você está fazendo aqui?”
“A gente acabou de terminar o jantar…”
“Ah!” Sebastian se jogou na cadeira de visitante. “Eu vi o Arthur mais cedo. Quando fui pegar os remédios do pai.” Ele fez um gesto com a cabeça. “Dei de cara com ele no sétimo andar. Ele parecia com pressa — foi direto para um dos quartos particulares.”
O chão pareceu inclinar sob meus pés.
— Qual quarto? — minha voz saiu afiada demais, desesperada demais.
Sebastian piscou. — Eu não sei. Em algum lugar perto da farmácia.
Agora todos estavam me olhando.
— Só curiosidade. — Levantei de supetão. — Preciso ir ao banheiro.
Descalcei os saltos no corredor. Volta, sussurrou minha mente racional. Você já sabe a verdade.
Mas continuei andando. Passei pelo posto de enfermagem, onde vislumbrei o registro de visitantes — a caligrafia de Arthur ao lado do Quarto 709.
O corredor se estendia à minha frente. 701. 703. 705.
Ao chegar no 709, parei.
A porta estava entreaberta, e uma luz morna escapava por ela.
Ouvi a voz dele primeiro. Aquele tom baixo e gentil que eu nunca o tinha ouvido usar comigo.
— Não chora. Eu estou aqui agora.
Pela fresta, eu conseguia vê-los.
Selena estava sentada na cama, com um avental claro, o cabelo loiro caindo sobre os ombros. Os braços dela envolviam a cintura de Arthur, o rosto enterrado no peito dele, o corpo inteiro tremendo.
A mão de Arthur deslizou pelos cabelos dela com uma ternura infinita. O outro braço a mantinha junto dele. A distância cuidadosa do jantar tinha desaparecido.
— Eu estava com tanto medo — ela sussurrou. — Achei que você não viria...
— Eu sempre vou vir quando você precisar de mim. — A voz dele estava suave, reverente. — Eu prometi.
Ela se afastou um pouco, as bochechas manchadas de lágrimas erguidas para ele. — Você pode ficar esta noite? Por favor? Eu não consigo ficar sozinha...
Vi a garganta dele se mover. Vi ele olhar para o relógio — o Patek Philippe que eu tinha dado a ele. Vi ele fazer a escolha.
— Claro. Eu fico o tempo que você precisar.
O rosto dela se transformou. Ela se ergueu na ponta dos pés, passando os braços em volta do pescoço dele, se apertando contra ele como se tivesse todo o direito.
E foi então que eu vi.
O pulso dela. A pulseira refletindo a luz.
Idêntica à minha.
"É linda", eu tinha dito no jantar.
"Combina com você", ele tinha respondido.
Ele não estava falando de mim. Estava falando da pulseira. De como ela ficava nela.
Eu não era a esposa dele. Eu era um tapa-buraco. Uma cópia.
Cambaleei para trás, a mão voando até a boca. Meu ombro bateu no extintor de incêndio, e ele tilintou com estrondo.
O colar da Cartier que Arthur tinha me dado esta noite — encomendado especialmente para o nosso quinto aniversário — enroscou na minha gola e arrebentou.
Caiu no carpete com um sussurro.
Eu encarei a corrente partida, o pingente de diamante ali, como uma acusação.
Encomendado especialmente. Assim como a pulseira “única” que ela estava usando.
Me abaixei para pegar, mas minhas mãos tremiam com violência demais.
Desisti.
Me virei.
E corri.
Não me lembro do trajeto de táxi até em casa. Não me lembro de nada até estar debaixo do chuveiro, ainda totalmente vestida, com a água gelada encharcando o vestido da Dior.
Quando finalmente fechei o registro, eu tremia tanto que não conseguia abrir o zíper do vestido. Nem sequer conseguia abrir o secador — meus dedos tinham ficado rígidos.
Desisti. Arranquei o vestido encharcado, achei uma camiseta velha da Columbia do Arthur e vesti.
A cama parecia grande demais. Vazia demais.
Espera até a mamãe parar de se preocupar. Espera até o papai estabilizar. Espera até o Sebastian receber a carta de aprovação.
Aí eu vou embora.
Mas a noite estava quieta demais e, no escuro, meu controle se despedaçou.
Me encolhi em posição fetal e chorei até não conseguir respirar.
Eu estou sonâmbula no inferno, pensei. E ninguém sabe.
Ponto de vista de Arthur
Saí do quarto de Selena e meu pé prendeu em alguma coisa.
Um colar. Cartier. Platina e diamantes.
O mesmo que eu tinha prendido no pescoço de Eleanor horas antes.
Minhas pupilas se contraíram.
Eleanor tinha estado aqui. Tinha visto tudo.
Puxei o celular.
A chamada que você está tentando completar está indisponível no momento...
Tentei de novo. De novo. Nada.
Fiquei no corredor vazio, o colar apertado no punho, e pela primeira vez na minha vida cuidadosamente controlada eu senti algo que não soube nomear.
Eleanor — a única constante, a única certeza — tinha feito algo inesperado.
Ela tinha ido embora.
Pensei no rosto dela no jantar. O lampejo de alguma coisa — dor? decepção? — antes de ela sorrir.
Ela estava esperando, eu percebi. Ela ainda tinha esperança.
E agora...
Olhei para a corrente partida na minha mão.
Ela viu tudo.
Pela primeira vez desde os dezesseis anos, senti meu controle escorregar.
