Capítulo 5
Ponto de vista de Eleanor
Por cinco anos, eu deixei a lâmpada acesa. Hoje à noite, não deixei nada para ele.
Ouvi a chave girar, ouvi os passos dele pararem no hall de entrada. Por entre os cílios, vi a silhueta dele atravessar o quarto.
Não encosta em mim. Por favor, Deus, não—
Mas ele se sentou na cama mesmo assim, afastando o cabelo da minha testa.
As pontas dos dedos dele tocaram minha pele. As mesmas mãos que tinham estado no cabelo dela horas antes. A repulsa subiu rastejando pela minha coluna.
—Eleanor?
Fiquei perfeitamente imóvel, as lágrimas encharcando meus cílios. Puxei o edredom por cima da cabeça.
Vai embora. Volta pra ela.
A mão dele se afastou. Passos recuaram pelo corredor.
Só então eu respirei. Só então as lágrimas vieram — silenciosas, intermináveis.
Fiquei ali revivendo a cena do hospital. Os braços de Selena em volta da cintura dele. A mão dele no cabelo dela. A pulseira no pulso dela — idêntica à minha.
Somos intercambiáveis. Ele nem consegue nos distinguir.
Por volta das quatro da manhã, ouvi ele ao telefone no escritório. Aquele tom gentil que ele nunca usava comigo.
É assim que o amor soa. E ele esteve dando isso a outra pessoa o tempo todo.
Algo dentro de mim não quebrou — calcificou. Endureceu.
Eu não aguento mais isso.
Mas eu estava presa. As contas médicas do papai. A mensalidade do Sebastian. A dívida que Arthur tinha quitado.
Dez milhões de dólares. É isso que a minha liberdade custa.
Então eu ficaria. Por enquanto.
Mas eu tinha parado de ter esperança.
A manhã chegou cedo demais. Arthur estava na porta do closet, já vestido.
—Eleanor. A sua pulseira?
Meu coração parou.
Ele ergueu a pulseira Cartier quebrada. —Encontrei isso no hospital. Sétimo andar.
Ele sabe. Meu Deus, ele sabe.
—Eu fui ver o papai depois do jantar. —A mentira veio fácil. —O Sebastian comentou que você estava lá. Eu tentei te encontrar. A pulseira deve ter caído.
Por favor, acredita em mim. Eu não estou pronta pra essa briga.
Arthur me analisou como se eu fosse um balanço contábil.
—Entendo. —Ele se sentou mais perto. —Mandei consertar o fecho.
Ele estendeu a mão para o meu pulso.
Eu me afastei num solavanco, meu corpo reagindo por instinto. Não encosta em mim com as mesmas mãos que seguraram ela.
A náusea veio na hora.
—Eu não quero.
—Você está chateada por causa do jantar—
—Eu não me importo com o jantar! —As palavras saíram cruas. —Eu só não quero a pulseira. Por favor, vai embora.
Eu cheguei ao hall de entrada antes de ele agarrar meu pulso.
—A gente precisa conversar.
—Me solta. —Tentei me desvencilhar. Os dedos dele apertaram.
—O Sebastian disse que você estava me procurando no sétimo andar. —A voz dele ficou fria. —Em qual quarto?
Ele está conferindo a minha história.
Meu pulso martelava sob o polegar dele.
—Eu não lembro. Eu perguntei no posto de enfermagem. Disseram que você já tinha ido embora.
O maxilar de Arthur se contraiu. Ele tirou uma caixinha da Cartier.
Claro. Joga dinheiro no problema.
—Tem uma peça na Sotheby’s semana que vem. Única. —Aquele tom de transação. —Achei que você talvez preferisse algo exclusivo.
Exclusivo.
Pensei no pulso de Selena, na pulseira idêntica.
—Eu não quero as suas joias. —Minha voz falhou.
—Eleanor—
—Eu não quero os seus presentes. Eu não quero as suas desculpas. —Cinco anos explodiram. —Se não é exclusivo, se ele não é exclusivo, eu não quero nada disso!
Ele se inclinou para beijar minha testa.
Eu o empurrei. —Não encosta em mim! Você me dá nojo!
O aperto dele nos meus pulsos ficou dolorido, quase deixando marcas.
—Eleanor. Chega. —Você está sendo histérica.
Histérica.
—Você sabe o que fez! —Eu já estava chorando. —Vai pra ela! Vai ficar com o seu filho!
O celular dele vibrou. S. Selena.
Alguma coisa estalou.
Eu me atirei no telefone. —Me dá isso!
Arthur ergueu o aparelho acima da cabeça. Eu arranhei o braço dele, as unhas abrindo a pele.
—Eleanor, para—
Eu mordi a mão dele. Com força. Um gosto de cobre inundou minha boca.
O que você está fazendo? Essa não é você—
Mas eu não conseguia parar. Cinco anos sendo perfeita — pra quê? Pra ele amar outra pessoa?
Arthur recuou num solavanco. Eu cambaleei, o ombro batendo na mesa de mármore.
Então minha cabeça acertou a quina.
Um tump nauseante.
Escuridão.
Voltei a mim por um instante, com o mundo girando.
Arthur estava de pé sobre mim.
Me ajuda, tentei dizer. Minha língua não obedecia.
Ele se agachou ao meu lado. “Eleanor?”
Por favor. Eu tô machucada. Machucada de verdade.
Mas eu não conseguia fazer as palavras saírem.
Eu vi o momento em que ele decidiu.
Ela tá fingindo. Ela sempre finge.
Não. Dessa vez é de verdade —
Mas a escuridão já estava me puxando pra baixo.
Arthur se levantou. “Quando você estiver pronta pra ter uma conversa racional, a gente conversa.”
Ele pegou o casaco e foi embora.
Não me deixa. Por favor —
Mas as palavras ficaram presas enquanto a escuridão me engolia.
Eu tô morrendo e ele foi embora.
Não sei quanto tempo fiquei inconsciente.
Acordei com a voz de Isabella, aguda de pânico.
“Eleanor! Meu Deus —” As mãos dela no meu rosto. “Você consegue me ouvir?”
Tentei assentir. Uma dor branca e ardente atravessou meu crânio.
“Não se mexe. Vou ligar pro 911.”
“Arthur —” eu sussurrei.
“Eu tentei falar com ele. Ele não atende.” A voz dela tremia de raiva. “O que ele fez com você?”
Ele me deixou. Eu precisei dele e ele me deixou.
A escuridão me tomou de novo.
Na próxima vez que acordei, tudo era branco.
Luzes brancas. Paredes brancas. Antisséptico.
“Não se mexe.” A voz da mamãe, grossa de tanto chorar. “Você teve uma concussão.”
Mamãe apertava minha mão. Isabella estava perto da janela, furiosa.
“O que aconteceu?” eu sussurrei.
“Você que me diga. Eu te encontrei inconsciente. Sangrando. Você ficou apagada por horas.”
As lembranças voltaram de uma vez: o telefone. S. O sangue. A queda —
Ele me deixou lá.
“Onde está o Arthur?”, mamãe perguntou.
Minha risada saiu quebrada. “Ele não vem.”
“O quê —”
“Ele me deixou no chão, mãe. Achou que eu tava fingindo.”
O celular de Isabella vibrou. “É ele.”
Ela atendeu, gelada. “Sua esposa está com concussão. Ela ficou inconsciente por seis horas. Onde você está?”
Silêncio.
“Ela caiu durante uma briga. Por que ela mordeu sua mão com força suficiente pra tirar sangue?”
Mais silêncio.
“Foi o que eu pensei.” Ela desligou. “Ele tá vindo.”
“Diz pra ele nem se dar ao trabalho.” Minha voz saiu lisa, sem vida. “Eu não quero ver ele.”
Nem agora. Nem nunca.
Pensei em Arthur segurando Selena, prometendo que sempre viria quando ela precisasse dele.
Mas quando eu precisei de você, você foi embora.
Por baixo do luto, outra coisa se mexeu:
Uma certeza fria.
Chega de esperar. Chega de tentar. Chega de partir meu coração por um homem que nunca quis ele.
Ouvi a voz dele no corredor. Calma, racional.
“Concussão leve... deve se recuperar totalmente...”
A porta se abriu.
Eu mantive os olhos fechados. Eu não consigo.
“Eleanor. O médico disse que você tá acordada.”
Eu não respondi.
“Eu sei que você não tá dormindo. A gente precisa conversar.”
Você me deixou inconsciente no chão.
“Cai fora.” Minha voz saiu morta.
Silêncio.
“Eu não percebi que você estava realmente machucada. Eu achei —”
“Você achou que eu tava fingindo.” Abri os olhos. “Porque é isso que você sempre acha.”
Algo tremulou no rosto dele.
“Desculpa. Eu devia ter conferido.”
Você devia ter se importado.
“Só vai embora”, eu sussurrei. “Por favor.”
Ele ficou ali, incerto pela primeira vez na vida controlada dele.
“Eu volto amanhã.”
Nem se dá ao trabalho.
Mas eu não disse. Esperei até a porta fazer clique ao fechar.
Acabou. O que quer que a gente tivesse, o que quer que eu esperasse que a gente pudesse ser — acabou.
As lágrimas vieram, mas pareciam diferentes. Mais limpas.
Ele me deixou.
E em algum lugar dentro do luto, eu senti outra coisa:
Alívio.
Doía como nada que eu já tivesse sentido.
A pulseira tinha sumido. As ilusões tinham sumido.
Só restava a verdade: eu tinha amado um fantasma.
E fantasmas não conseguem te amar de volta.
