Capítulo 2 — O Eco
Rafael dormiu no sofá naquela noite. Não porque eu pedi — eu não pedi nada. Ele simplesmente não subiu, e eu não desci, e o segundo formulário ficou na mesa da cozinha a noite toda, em branco, com a caneta atravessada por cima como uma agulha de bússola que ninguém tinha coragem de ler.
Eu não dormi. Mas também não fiquei acordada chorando, que era o que a antiga Mariana teria feito. Fiquei acordada pensando.
Sete anos de casamento não viram cinza num jantar. Um homem não empurra um formulário de DNA pela mesa porque acordou com a ideia. Alguém tinha posto aquilo na cabeça dele. Alguém tinha dito uma frase, mostrado uma coisa, plantado uma data. O teste era o sintoma. Em algum lugar havia uma origem, e a origem tinha nome, rosto e motivo.
Eu fiquei deitada no escuro do nosso quarto vazio, ouvindo a casa. O zumbido da geladeira lá embaixo. Um carro passando na rua molhada. E embaixo de tudo, o silêncio do sofá onde ele estava, um silêncio que não era de quem dorme, mas de quem espera para ver o que a outra pessoa vai fazer. Nós dois acordados, em cômodos diferentes, cada um esperando o movimento do outro. Era a coisa mais parecida com honestidade que a gente tinha tido em meses: dois adversários reconhecendo, no escuro, que eram adversários.
Eu pensei na frase que ele tinha soltado três semanas antes, na pia, com as mãos na espuma: "A gente nunca sabe de verdade com quem se casou." Na hora, aquilo tinha passado por mim como água. Agora a frase voltava com um peso diferente, porque agora eu sabia que não era uma reflexão dele. Era uma semente. Alguém tinha plantado aquela frase na boca dele, e ele a tinha repetido em casa sem nem perceber que estava regando.
A antiga Mariana teria perguntado a ele: "Quem foi que falou isso de mim?" — e teria implorado para saber, e ao implorar teria entregado o controle, porque quem pergunta com desespero está pedindo que o outro decida o que merece ser respondido.
A nova Mariana não perguntou nada.
Eu desci às seis da manhã, antes da Sofia acordar. Rafael estava sentado no sofá, vestido, com o celular na mão e o rosto de quem também não dormiu. O formulário continuava na mesa.
— Marquei o laboratório — disse eu, servindo café para mim e não para ele, um gesto pequeno que ele registrou, eu vi que registrou. — Quinta-feira, dez da manhã. Os dois. Coleta de saliva, é rápido. Eu levo a Sofia.
— Você marcou.
— Você pediu um teste. Eu estou providenciando um teste. — Tomei um gole. — Dois, na verdade.
Ele me observou da beira do sofá, e eu pude ver que aquela Mariana — a que serve café só para si mesma e marca laboratório antes do marido acordar — não constava em nenhum dos cenários que ele tinha ensaiado. Ele tinha previsto lágrimas. Tinha previsto raiva. Talvez tivesse previsto, e até esperado, que eu pegasse a Sofia e fosse para a casa da minha mãe, o que seria conveniente para ele, um sinal de instabilidade, uma coisa para um advogado anotar. O que ele não tinha previsto era que eu organizasse a coisa com a eficiência de quem agenda uma consulta de rotina.
Ele pôs o celular de lado.
— Mari, eu não vou fazer. A parte do hospital, dos bebês trocados, você sabe que é... isso não acontece. Isso é coisa de novela.
— E marido pedir DNA da própria filha depois de sete anos é o quê? — Eu o olhei por cima da xícara. — Documentário?
Ele não respondeu.
— Vou te dizer como vai ser — continuei, e a minha voz estava tão calma que assustou nós dois. — A Sofia vai fazer. Eu vou fazer. Porque eu não tenho nada a esconder e porque, sinceramente, eu também quero saber agora — não sobre ela, sobre você. Quero saber que homem precisa disso para dormir. Mas a sua parte fica em cima da mesa. O dia em que você assinar, a gente manda as três amostras juntas. Até lá, o laboratório guarda as nossas duas e espera. — Pousei a xícara. — A dúvida foi você que abriu, Rafael. Quem decide quando ela fecha sou eu.
— Documentário — repetiu ele, baixo, como se a palavra o tivesse atingido. — Mari, você nunca falou comigo assim.
— Eu nunca precisei. — Servi mais café, só para mim, de novo. — Tem sete anos que eu falo com você do jeito que uma pessoa fala com alguém de quem precisa de aprovação. Pedindo licença pra ter opinião. Agora eu não preciso de aprovação. Você cortou esse cordão ontem à noite, junto com o papel. Eu deveria até te agradecer. — Olhei para ele. — Mas não vou.
Foi a primeira vez em sete anos que vi o meu marido sem saber o que dizer.
E eu, que tinha passado a vida inteira com medo do silêncio dele, descobri naquela manhã que o silêncio dele, agora, trabalhava para mim. Cada segundo em que ele não respondia era um segundo em que ele procurava, dentro de si, a versão da esposa que sabia controlar, e não a encontrava, porque ela tinha saído de cena na noite anterior e não tinha deixado endereço.
A Sofia chamou do quarto. "Mamãe." Eu subi. Mas, antes de subir, peguei o formulário em branco da mesa, dobrei ao meio e guardei na minha bolsa.
Não na dele. Na minha.
