Capítulo 1 A DESCOBERTA
Estou com trinta e oito semanas e meia de gestação, e o peso da minha barriga faz com que cada passo pelo corredor longo da mansão pareça arrastado, exigindo um esforço monumental. Apoio firmemente uma das mãos na região lombar, tentando aliviar a pressão constante, quando uma fisgada lancinante e profunda atravessa minhas costas, obrigando-me a interromper a caminhada e fechar os olhos por alguns instantes.
Meu Deus... que dor imensa.
Levo a mão espalmada até o ventre, sentindo a musculatura endurecer por longos segundos antes de ceder e voltar ao estado normal. O aviso é claro e reverbera no meu corpo: acho que a Melinda está me sinalizando que não vai demorar muito para nascer. Um sorriso involuntário e terno surge em meus lábios no meio do cansaço, e decido que vou pedir para o Orion me levar imediatamente ao hospital para que o médico possa me examinar e avaliar essas contrações.
Continuo avançando de pantufas sobre o piso de madeira polida, avançando sem emitir o menor ruído, enquanto o silêncio da casa se mostra quase absoluto. Sei perfeitamente que Orion está trancado no escritório, onde costuma passar horas infindáveis concentrado na resolução de seus negócios. Quando finalmente me aproximo da porta de madeira pesada, percebo que ela se encontra entreaberta, deixando escapar uma fresta estreita de luz.
Levanto a mão, prestes a bater na superfície de madeira.
No entanto, o tom de uma voz vinda do interior do cômodo prende completamente a minha atenção e gela minhas reações. É a voz dele, mas ele está falando em alemão. Meu coração acelera de imediato dentro do peito. Orion jamais soube que minha avó me ensinou alemão fluentemente quando eu ainda era criança, uma herança cultural que sempre achei bonito preservar em segredo por puro sentimentalismo, sem nunca ter tido um motivo real para comentar o fato com ele.
Sem produzir o menor som, permaneço imóvel e oculta atrás da fresta da porta, transformando-me em uma estátua de dor. A voz dele continua firme, fluindo com uma clareza cortante.
— Ja, Marli wird das Kind bald bekommen. Lassen Sie eine Million Euro jetzt überweisen. Die andere Million, sobald ich das Baby übergeben habe.
(Sim. A Marli está para ter a criança. Peça que depositem um milhão de euros agora. O outro milhão será pago assim que eu entregar o bebê.)
Meu corpo inteiro fica instantaneamente rígido, como se o sangue congelasse em minhas veias. Entregar... o bebê? Minha respiração fica presa no peito, sufocando-me. Não... eu devo ter entendido errado, com certeza confundi os termos. Só pode ser um mal-entendido. Então, a voz dele ressoa novamente, destruindo qualquer ilusão.
— Wenn das Kind geboren wird, werde ich ihr sagen, dass das Baby tot geboren wurde. Informieren Sie die Adoptiveltern, dass ihre Tochter bald in ihren Armen sein wird.
(Quando a criança nascer, vou dizer a ela que o bebê nasceu morto. Avise aos pais adotivos que, em breve, a filha deles estará nos braços deles.)
Sinto minhas pernas vacilarem sob o peso do meu próprio corpo, e preciso apoiar a mão espalmada contra a parede fria do corredor para não desabar no chão. As lágrimas começam a inundar meus olhos, embaçando minha visão. Não... não pode ser real... ele não está falando da nossa filha... ele não seria capaz.
Do outro lado da linha, a pessoa faz algum questionamento que não consigo decifrar, e Orion solta uma gargalhada genuína e descontraída, um som que agora me causa repulsa profunda.
— Marli? Etwas merken? Niemals! Sie ist bis über beide Ohren in mich verliebt. Sie macht alles, was ich will.
(A Marli desconfiar? Nunca! Ela é completamente apaixonada por mim. Faz tudo o que eu quero.)
Cada palavra pronunciada atravessa meu peito com a força de uma lâmina afiada. Ele continua falando com uma frieza cirúrgica e desumana, uma faceta monstruosa que eu jamais imaginei que existisse por trás do homem com quem me casei.
— Wenn ich ihr sage, dass das Baby während der Geburt gestorben ist, wird sie weinen, leiden und irgendwann wieder schwanger werden. Danach noch einmal. Und noch einmal. Genau wie die anderen.
(Quando eu disser que a criança morreu no parto, ela vai sofrer, chorar e, depois, engravidar outra vez. Depois outra. E outra. Exatamente como acontece com as outras.)
Meu coração parece falhar uma batida, parando por completo no peito. As outras... as palavras ecoam na minha mente como um eco de horror. Então eu não sou a primeira mulher na vida dele, nem a única a passar por isso. Minha visão fica completamente turva enquanto o peso da realidade esmaga meus sentidos. Ele continua com o seu monólogo cruel.
— Natürlich ist sie meine Favoritin. Sie ist wunderschön. Unsere Tochter wird die schönste von allen sein. Aber Geschäfte sind Geschäfte. Liebe hat keinen Platz in meinem Herzen.
(Claro que ela é a minha favorita. Ela é linda. Nossa filha será a mais bonita de todas. Mas negócios são negócios. O amor não tem lugar no meu coração.)
