Capítulo 4 CONTINUAÇÃO DA FUGA
Olho ao redor do quarto amplo e luxuoso, que de repente se transformou em uma cela perigosa. Não posso perder mais nenhum segundo. Se Orion terminar aquela ligação de negócios ou decidir subir antes que eu consiga sair daqui, será o nosso fim; será tarde demais para nós duas. Levanto-me com dificuldade, firmando os pés no chão, enxugo o rosto molhado com as mãos e abro o guarda-roupa de maneira silenciosa.
Pego apenas o estritamente necessário para a sobrevivência imediata. Seleciono algumas roupas leves para mim, meus documentos essenciais e as poucas roupinhas que eu já havia comprado escondida ou separado para a Melinda. Adiciono algumas fraldas, uma manta macia e produtos básicos de higiene. Cuido para não colocar nada que torne a sacola pesada ou que dificulte meus movimentos de gestante. Fecho o zíper com cuidado e respiro fundo, tentando estabilizar o ritmo do meu coração.
Vou até o espelho do banheiro e encaro meu próprio reflexo. Meus olhos estão completamente vermelhos e inchados de tanto chorar. Lavo rapidamente o rosto com água fria para disfarçar o aspecto abatido, refaço a maquiagem de maneira leve e bem discreta e forço os músculos da face a desenharem um sorriso. Preciso parecer calma. Preciso, mais do que nunca, parecer a mesma mulher boba e apaixonada de sempre.
Desfaço-me das pantufas e calço uma sandália confortável, adequada para os meus pés inchados. Visto uma calça própria para gestantes, com cós elástico, e uma blusa larga que disfarça a rigidez da minha postura. Passo a mão pela barriga mais uma vez, em um pacto silencioso.
— Nós vamos sair daqui, minha filha — mentalizo com determinação.
Pego a sacola e começo a descer as escadas da mansão. Cada degrau parece pesar toneladas sob os meus pés, e o silêncio da casa se torna sufocante. O escritório dele continua com a porta fechada. Respiro fundo, buscando oxigênio no fundo da minha alma, e bato levemente na madeira.
— Entre! — a voz dele surge de imediato, soando firme e exatamente igual a como sempre soou, sem qualquer vestígio do monstro que se revelou há poucos minutos.
Empurro a porta e entro. Orion ergue os olhos dos documentos espalhados sobre a mesa e abre um sorriso brando.
— Amor... aconteceu alguma coisa?
Sorrio de volta de forma natural, sustentando o olhar dele e sepultando todo o horror e a repulsa que sinto sob uma máscara de tranquilidade.
— Está faltando comprar algumas coisas essenciais para a Melinda. Pensei em ir agora resolver isso — digo, mantendo o tom de voz leve e corriqueiro.
Ele fecha a pasta que estava analisando e me estuda por um instante.
— Quer que eu vá com você?
Balanço a cabeça negativamente, mantendo o sorriso leve.
— Não precisa, meu amor. Você está cheio de trabalho e concentrado nas suas coisas.
Ele se levanta da cadeira.
— Então pega um dos carros com o motorista.
Sorrio novamente, antecipando o movimento dele para não gerar desconfiança.
— Não, não. Acho melhor ir de carro por aplicativo, é mais confortável para mim e vou sossegada. Você não precisa interromper seus compromissos e seus negócios por causa disso.
Orion se aproxima lentamente de mim. Ele estende a mão, acaricia meu rosto com aparente ternura e deposita um beijo suave na minha testa. Meu estômago embrulha de forma violenta e sinto uma náusea física me dominar; poucos minutos antes, aquele mesmo homem, com aquela mesma boca, negociava friamente a venda da nossa filha por um milhão de euros. Ainda assim, com um esforço sobre-humano, consigo sustentar o sorriso intacto em meus lábios.
— Tudo bem. Qualquer coisa, me liga, tá? — ele diz, voltando-se para a mesa.
Meu coração aperta com uma força excruciante. Eu nunca mais ligaria para ele. Nunca.
— Pode deixar — respondo suavemente. Aproximo-me e dou um beijo rápido em seu rosto, cumprindo o roteiro até o fim. — Te amo.
— Também te amo.
A mentira flui da boca dele com tanta naturalidade e descaramento que sinto uma vontade violenta de gritar e arranhar a cara dele, mas apenas sorrio. Viro as costas com elegância e saio do escritório, fechando a porta atrás de mim. Só quando estou no corredor, fora do campo de visão dele, é que permito que as lágrimas voltem a inundar meus olhos.
Caminho em direção à sala de visitas de maneira natural. Sei que não posso usar meu celular habitual; ele certamente possui algum sistema de monitoramento ou consegue rastrear a minha localização em tempo real. Entro no cômodo, abro discretamente a gaveta do criado-mudo, coloco o aparelho lá dentro, desligo-o completamente e fecho a gaveta. Se ele notar minha ausência mais tarde e tentar localizar meu telefone através do rastreador, vai acreditar piamente que continuo dentro de casa, descansando.
Cruzo a porta principal da mansão e saio. O ar fresco da tarde bate no meu rosto e, pela primeira vez desde que ouvi aquela conversa macabra através da fresta da porta, sinto uma pequena e genuína centelha de esperança aquecer meu peito. Retiro da bolsa um celular reserva, um aparelho simples que eu guardava para emergências e do qual ele não tem conhecimento. Abro o aplicativo de transporte e chamo um carro. Poucos minutos depois, o veículo estaciona em frente aos portões. Entro rapidamente.
— Boa tarde, senhora — o motorista cumprimenta de forma cortês.
— Boa tarde. Pode me levar até a rodoviária, por favor? — peço, tentando manter a voz firme.
— Claro.
Acomodo-me no banco traseiro e coloco o cinto. Enquanto o carro avança e se afasta definitivamente da mansão, olho fixamente pela janela lateral. Aquela propriedade imensa, que um dia imaginei ser o cenário do meu lar e da minha felicidade, vai desaparecendo lentamente no espelho retrovisor até sumir por completo. Sem perceber, começo a acariciar minha barriga com doçura. Nós nunca, nunca mais voltaremos para aquele lugar maldito.
Quase uma hora depois, devido ao trânsito, desembarco na rodoviária. Pego minha sacola e observo o movimento intenso de pessoas indo e vindo. Sei que comprar uma passagem de ônibus deixaria meu nome registrado no sistema de embarque, e Orion me acharia facilmente. Preciso desaparecer por completo do mapa. Caminho em direção à área externa e encontro a fileira de táxis. Aproximo-me do primeiro veículo e o motorista abaixa o vidro.
— Para onde a senhora vai? — ele pergunta, avaliando meu estado de gravidez avançada.
— Foz do Iguaçu — respondo sem hesitar.
O homem arregala os olhos, visivelmente surpreso com a distância.
— Foz do Iguaçu? Mas senhora, daqui até lá são mais de quatro horas de viagem na estrada.
— Eu sei perfeitamente disso.
— Vai ficar bem caro uma corrida dessas.
Abro a minha bolsa com segurança, retiro um maço grosso de notas de dinheiro vivo e mostro a ele.
— Quanto fica para me levar agora?
Ele faz um cálculo mental rápido, tamborilando os dedos no volante antes de responder:
— Aproximadamente uns dois mil reais.
Conto as notas rapidamente e entrego a metade do valor nas mãos dele.
— Aqui estão mil reais adiantados. Os outros mil reais eu lhe entrego sem falta assim que chegarmos ao destino.
O taxista olha para o dinheiro em suas mãos, depois me encara de cima a baixo, fixando o olhar na minha barriga de trinta e oito semanas e meia.
— Certo. Pode entrar, dona.
Acomodo-me no banco de trás, tentando encontrar uma posição que alivie a dor constante nas minhas costas. Durante toda a viagem, permaneço em absoluto silêncio, imersa em meus próprios pensamentos enquanto o carro engole os quilômetros de asfalto. Acaricio minha barriga a cada solavanco da estrada e rezo mentalmente com toda a fé que me resta, clamando a Deus que proteja a vida da minha filha e me dê forças para aguentar até o fim.
