Capítulo 5 O DESABAFO DE MARLI

Quatro horas mais tarde, o táxi finalmente reduz a velocidade e para diante da casa simples e acolhedora onde minha tia mora em Foz do Iguaçu. Retiro os mil reais restantes da bolsa, entrego ao motorista agradecendo pela viagem, e desço lentamente do veículo, sentindo o peso do cansaço físico cobrar o seu preço.

— Caminho até a entrada e bato na porta com os nós dos dedos. Segundos depois, a porta se abre e tia Elga surge no limiar. Seu semblante muda imediatamente de expressão, misturando choque e preocupação ao me ver ali, sozinha.

— Marli! Minha filha!

Forço um sorriso terno nos lábios, tentando conter o turbilhão emocional.

— Oi, tia...

Ela abaixa o olhar e observa a minha barriga enorme, claramente estranhando a minha chegada repentina sem aviso prévio

— Entre, minha filha. Mas o que foi que aconteceu? Por que você está aqui?

— Eu posso dormir aqui esta noite? — pergunto, improvisando a desculpa mais rápida que consigo formular para não alarmá-la imediatamente. — É que eu vim fazer uma visita de surpresa, mas agora não tenho a menor condição de pegar a estrada e voltar para casa por causa do tamanho da gravidez, estou muito cansada.

Tia Elga me estuda por um instante, mas a doçura de seu coração fala mais alto e ela abre passagem, dando-me espaço para entrar.

— Claro que sim, meu bem.

Respiro aliviada ao cruzar a soleira da porta, sentindo o primeiro sopro de segurança real em horas. Olho para ela com urgência.

— A Marla está em casa tia Elga?

— Está sim, lá em cima. Ela está trancada no quarto arrumando as malas. Em poucos dias ela embarca para os Estados Unidos por causa daquele intercâmbio, você sabe.

Meu coração acelera com a informação. Subo os degraus das escadas rapidamente, ignorando a dor lombar que me castiga. Paro diante da porta de madeira do antigo quarto que dividíamos na nossa adolescência. Bato duas vezes seguidas, com o coração na boca.

— Entra! — a voz da minha irmã ecoa de dentro do cômodo.

Empurro a porta e entro. Marla ergue os olhos da cama e, no exato instante em que foca em minha figura grávida, exausta e trêmula, larga imediatamente a peça de roupa que estava dobrando cuidadosamente. A surpresa em seu rosto é palpável. Diante dela, não consigo articular uma única palavra coerente; minha garganta simplesmente trava. Corro em sua direção com o resto de forças que ainda me mantém de pé.

Desabo nos braços da minha irmã, abraçando-a com toda a intensidade e o desespero que guardei ao longo desse dia terrível. Começo a chorar de forma descontrolada, com soluços altos que sacodem meu peito. Marla me segura firmemente pelos ombros, afastando-me um pouco para conseguir olhar nos meus olhos, o rosto tenso pela gravidade da situação.

— Marli... pelo amor de Deus, o que aconteceu?

Levanto o meu rosto completamente coberto de lágrimas e desfigurado pela dor, encarando a única pessoa no mundo em quem posso confiar neste momento.

— Você tinha razão... — minha voz falha, sumindo em meio a um fio de voz sufocado pelo choro. — Ele é um monstro, Marla. Um monstro.

Marla empalidece instantaneamente, seus olhos se arregalam em choque e ela pergunta com uma urgência cortante na voz:

— O que foi que aconteceu?

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