Capítulo 3 03

A mensagem fica brilhando na tela.

"Desconhecida: Bem mais perto do que você imagina..."

Meu olhar percorre as casas ao redor mais uma vez e não vejo nada. Nenhum movimento estranho, nenhuma sombra. Só o morro vivendo a sua própria madrugada. Aperto a mandíbula e volto para a conversa.

Eu:

Você sabe qual é o seu problema?

Ela demora alguns segundos para visualizar, mas não responde. Continuo digitando.

Eu:

Você acha que isso é bonito.

Eu:

Ficar escondida, observando a vida dos outros, criando números diferentes... isso não é normal.

Dessa vez ela responde.

Desconhecida:

Eu nunca quis te assustar.

Dou uma risada seca.

Eu:

E conseguiu exatamente o contrário.

Ela começa a digitar. Antes que envie qualquer coisa, mando outra mensagem.

Eu:

Você fala que me ama, mas nem me conhece.

Eu:

Você conhece momentos meus.

Eu:

Conhece a imagem que construiu na sua cabeça.

Eu:

Amor não nasce de mensagens.

Os três pontinhos aparecem. Ela escreve. Apaga. Escreve de novo. Por fim, responde.

Desconhecida:

Você tem o direito de pensar assim.

Respiro fundo. Pela primeira vez desde que respondi aquela conversa, sinto que já passou da hora de acabar com aquilo.

Eu:

Escuta bem.

Eu:

Eu respondi porque você descreveu exatamente onde eu estava.

Eu:

Minha curiosidade falou mais alto.

Eu:

Só isso.

Ela visualiza imediatamente. Espero que responda, mas sou eu quem continua.

Eu:

Agora essa curiosidade acabou.

Eu:

Eu tenho mais o que fazer do que perder tempo conversando com uma desconhecida.

Passam alguns segundos. Ela continua online. Digitando. Não deixo ela completar.

Eu:

E outra coisa...

Eu:

Para com essa mania de ficar me observando.

Eu:

Isso não é amor.

Eu:

É coisa de gente maluca.

Escrevo mais uma linha, dessa vez sem pensar muito.

Eu:

Ou de psicopata.

Os três pontinhos desaparecem de vez. Ela não responde. Não sei se ficou magoada. Não sei se ficou com raiva. E, sinceramente... não me importo.

Seguro o dedo sobre a tela por alguns segundos, abro as opções da conversa e escolho: Silenciar notificações. Dessa vez não bloqueio. Também não apago. Só silencio. Se ela quiser continuar falando sozinha... que fale.

Guardo o celular no bolso e caminho pela laje, tendo a impressão de que aquela história termina aqui. Mal sei eu... que esse é apenas o primeiro capítulo dela.

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