Capítulo 1

Dentro do escritório presidencial no último andar da sede do Grupo Aksim, o carpete negro como breu, o sofá de couro cinza-frio e a pintura abstrata na parede, que valia milhões, só reforçavam a frieza e a imponência desse império empresarial.

Serafina estava sentada atrás de uma grande escrivaninha de nogueira.

Quando empurrei a porta, ela ouvia o diretor jurídico relatar o andamento do processo de fusão e aquisição da semana seguinte, sem sequer erguer a cabeça. Só depois que o diretor jurídico saiu com os documentos assinados foi que ela finalmente parou o que estava fazendo e voltou o olhar para mim.

Nenhum de nós fez menção de trocar gentilezas. Naquele escritório onde apenas interesses importavam, o calor dos últimos sete anos parecia ter desaparecido por completo.

Ela abriu a gaveta, tirou um documento cuidadosamente encadernado e o empurrou sobre a mesa grande.

O título em negrito na primeira página, em preto e branco, era agressivamente destoante: “Acordo de Doação de Órgãos”.

No canto inferior direito do documento, uma caneta-tinteiro Montblanc, de acabamento impecável, fora deixada ali com uma consideração quase irônica.

— Assine. — Ela se recostou na cadeira de couro, o olhar preso ao papel. — O cirurgião já foi providenciado; ele está no hospital conveniado do grupo, e a cirurgia começa amanhã.

Dois dias antes, Kyle, o noivo recém-noivado dela, desabara de repente numa gala beneficente e recebera o diagnóstico de insuficiência renal aguda grave. Kyle não era apenas o herdeiro de uma família capitalista tradicional, como também uma figura-chave no acordo de aquisição de bilhões de dólares do Grupo Aksim na semana seguinte.

Não olhei para o acordo; encarei os olhos dela:

— Eles compararam dezenas de milhares de registros no banco de dados médico privado? Só eu sou um candidato adequado?

— Sim. Sua compatibilidade com Kyle é perfeita, então a taxa de sucesso é a mais alta. — Serafina explicou com paciência. — Theodore, a fusão está marcada para a próxima quarta-feira. Todo o fluxo de caixa do consórcio está atrelado a isso, e ele não pode se dar ao luxo de ter nada dando errado num momento tão crucial.

— Serafina — chamei pelo nome dela, com um tom firme o bastante. — Você se lembra daquele estacionamento subterrâneo na Newport Street, três anos atrás?

Quando mencionei aquilo, ela interrompeu o que fazia, folheando documentos, e franziu a testa muito de leve.

De repente, um bandido surgiu com uma faca. Para protegê-la daquele golpe, eu acabei na emergência.

— Depois daquele acidente, só me restou um rim saudável. — Sustentei o olhar dela, expondo os fatos objetivos como se estivesse apresentando um relatório de negócios. — Se eu assinar este documento hoje e doar meu único rim para o Kyle, vou sofrer uma queda de imunidade nas próximas décadas ou até passar o resto da vida acamado, fazendo hemodiálise três vezes por semana para sobreviver. Você tem certeza de que quer que eu faça isso?

Na verdade, pouco depois de eu ter ficado gravemente ferido, consertei o dano usando o painel de administrador, mas Serafina não sabia disso; então, aos olhos dela, eu ainda tinha apenas um rim.

O escritório caiu em silêncio, com apenas o som abafado das gotas de chuva batendo no vidro e o zumbido baixo do ar-condicionado central.

Foi então que o celular sobre a mesa de repente se iluminou.

Uma mensagem de texto apareceu na tela, sem qualquer tentativa de esconder. O remetente era Kyle: Amor, minhas costas estão doendo tanto. Queria que você estivesse aqui comigo.

Os olhos de Serafina cintilaram, e ela rapidamente estendeu a mão e virou o celular com a tela para baixo sobre a mesa.

Quando levantou o olhar para mim, o leve pânico e a culpa que ela havia demonstrado antes já tinham desaparecido.

— Theodore, eu sei que isso é muito injusto com você, mas não tenho outra escolha.

Ela contornou a mesa, veio até mim e tomou minha mão com delicadeza, como havia feito incontáveis vezes nas crises dos últimos sete anos.

— Você acha que eu realmente amo o Kyle? É só um teatro. Mas é assim que esse ramo funciona. Eu preciso me apoiar no poder da família tradicional dele.

Ela me encarou e disse com sinceridade: — Assim que ele passar por isso, e quando o processo for concluído na próxima quarta-feira e ele tiver as credenciais para tocar o sino, eu vou cortar relações com ele imediatamente. Eu juro.

— A medicina moderna é muito avançada. Vou contratar para você a melhor equipe de diálise do país inteiro e reservar a melhor suíte particular de tratamento no centro da cidade. — O polegar de Serafina roçou o dorso da minha mão. — Theodore, não dificulte as coisas pra mim. Pelo “nosso futuro”, por favor, aguente só mais uma vez, tá?

Abaixei um pouco o olhar, lancei um relance ao celular que ela tinha deixado virado para baixo na mesa e então voltei a encará-la.

Não era a primeira vez que ela escolhia ignorar meus sentimentos por causa do Kyle.

Ouvi em silêncio o plano de compensação que ela oferecia e não consegui evitar uma risada curta.

— Você pode dar esse plano pro Kyle; talvez ele consiga acesso à melhor equipe de diálise dos Estados Unidos.

Serafina me olhou como se eu fosse uma criança.

— Eu não tenho tempo pra brincadeira agora.

Olhei para o contrato sobre a mesa.

— E se eu não quiser?

Serafina se calou.

O silêncio durou dez segundos inteiros e, nesses breves dez segundos, eu senti um tédio absoluto.

— Tô brincando. Claro que eu vou assinar.

Estendi a mão para a caneta Montblanc sobre a mesa e tirei a tampa.

Nos últimos sete anos, eu revisei incontáveis planos de negócios para ela e assinei incontáveis acordos para cobrir riscos em nome dela. Esta era a última vez. A ponta da caneta arranhou o papel, produzindo um leve sussurro no silêncio da sala.

Eu não discuti com ela em nenhum momento, nem a acusei de ser fria. Apenas assinei meu nome no final. Então, com um “tec”, larguei a caneta de volta na mesa.

— Bom.

Empurrei de volta para ela o acordo que determinaria o resto da minha vida, me levantei e alisei a barra do paletó, amassada por eu estar sentado. Virei-me e segui em direção à saída do escritório.

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