Capítulo 3
A sala cirúrgica VIP do último andar do hospital particular afiliado ao Grupo Aksim.
A temperatura ali era mantida constante em gélidos 21 graus Celsius, e o ar estava impregnado do cheiro forte de desinfetante. Eu estava deitado, estendido sobre a mesa cirúrgica de aço inoxidável, quando uma enorme luz de cirurgia se acendeu de repente acima da minha cabeça; o branco duro e estourado me fez semicerrar os olhos.
—Sr. Theodore, por favor, relaxe. É só uma pequena cirurgia de rotina, nós vamos cuidar disso. Vamos anestesiá-lo agora mesmo, e o senhor vai adormecer rapidamente, sem nenhum desconforto. —O médico enfiou a agulha numa veia no dorso da minha mão.
Serafina não está aqui; sei, sem precisar perguntar, que ela deve estar com Kyle neste momento.
A simulação de dor do sistema ainda era bem realista, mas eu ignorei o leve frio.
Inspirei fundo e, pela força de vontade, invoquei o painel semitransparente que só eu podia ver.
Encarei com calma a opção vermelha lá embaixo, bem no fim da tela.
—[Sair]
Acabou.
Olhei mais uma última vez para a porta, para garantir que Serafina não voltaria.
Em seguida, sem hesitar nem me prolongar, pressionei “confirmar” com a mente.
Minha consciência começou a se afastar lentamente. Durante esse tempo, o sistema assumiria o corpo automaticamente, mantendo os sinais vitais básicos. Quando minha consciência tivesse partido por completo, o corpo morreria de vez.
Fechei os olhos devagar.
…………
—Tss—
No mundo real, em um amplo laboratório subterrâneo, uma câmara de simulação selada emite um leve som de despressurização.
A escotilha subiu devagar, e o ar fresco entrou de uma vez. Abri os olhos, retirei o dispositivo sensor da cabeça e me sentei na cabine confortável.
Uma sequência de cliques secos de teclado veio do lado.
—Sua frequência cardíaca está normal, e todos os seus indicadores de saúde estão estáveis. —Meu parceiro, David, comia metade de uma pizza enquanto olhava para os dados de saúde na tela. Ele se virou para mim, arqueando uma sobrancelha. —Como você está se sentindo?
Ao ver David à minha frente, senti como se estivesse em outro mundo. David é meu parceiro e amigo, e esse mundo-sandbox foi projetado por nós dois.
Perguntei:
—Há quanto tempo eu estava dormindo?
David olhou as horas:
—Cinco horas.
Esfreguei as têmporas, ainda um pouco doloridas, saí da cabine e soltei um longo suspiro.
A sensação era incrivelmente estranha. Embora as memórias dos supostos “sete anos” e de mais de dois mil dias e noites passados naquele mundo falso ainda estivessem ali, no instante em que o ar real do mundo real encheu meus pulmões, aqueles inesquecíveis emaranhados de amor e ódio pareceram imediatamente um sonho longo, real demais.
Agora, o sonho acabou.
As emoções pesadas que eu havia sentido durante o teste se dissiparam depressa da minha mente, restando apenas um leve cansaço de ter passado a noite em claro.
— Não é nada, eu só tive um sonho lúcido meio cansativo.
Peguei o copo d’água que David me entregou e dei um gole grande. A sede real que eu sentia finalmente foi aliviada. — Estou bem. Posso começar o próximo trabalho a qualquer momento.
— Que bom. — David mordeu um pedaço de pizza e indicou com o queixo a tela grande na parede. — Vem ver a namoradinha virtual que te botou na mesa de cirurgia. Ela está se achando agora.
Com o copo d’água na mão, recostei na cadeira de couro e olhei para a transmissão ao vivo daquele mundo na tela.
Naquele momento, no corredor do hospital do mundo virtual.
Serafina estava sentada num sofá de couro do lado de fora da sala de cirurgia, com as pernas longas elegantemente cruzadas.
O assistente reportava em voz baixa o comunicado de imprensa da semana seguinte.
O cirurgião e vários auxiliares empurraram a porta e saíram.
Serafina se levantou na hora e foi rápido até eles:
— Como o Kyle está?
— Não se preocupe. — O cirurgião tirou as luvas manchadas de sangue. — A remoção e o transplante do rim foram extremamente bem-sucedidos. O senhor Kyle está completamente fora de perigo. O novo rim tem boa irrigação sanguínea e não há reação de rejeição.
Ao ouvir isso, os nervos de Serafina, que haviam ficado tensos por meio mês, finalmente relaxaram por completo. Uma alegria genuína apareceu em seu rosto.
— Muito bem, o bônus será depositado na conta da sua equipe amanhã. — Ela ajeitou o paletó do terninho. — Providenciem o mais alto nível de cuidados especiais para o Theodore. Vou ver o Kyle primeiro. Cuidem bem do Theodore.
Mas o agradecimento esperado não veio.
Um silêncio sinistro caiu sobre o corredor. Os assistentes atrás ficaram lívidos, de cabeça baixa, tremendo.
— Srta. Serafina… — a voz do cirurgião saiu rouca. — Não… o sr. Theodore se foi, ele faleceu.
O sorriso de Serafina congelou na mesma hora. Ela franziu a testa, com um tom meio irracional:
— Está brincando comigo? É só tirar um rim. Ele estava perfeitamente saudável na avaliação pré-operatória.
— Os órgãos foram, de fato, retirados perfeitamente, e os sinais vitais dele estavam muito estáveis e normais na primeira metade do procedimento. — O médico estava quase tremendo, os olhos cheios de um tipo de colapso que ele nunca tinha visto em décadas de prática. — Mas justo quando estávamos fazendo a sutura final do ferimento… os batimentos dele, de repente e sem aviso, viraram uma linha reta.
— Não houve hemorragia interna, não houve erro cirúrgico! Mas a atividade cerebral e a pressão vascular despencaram a zero instantaneamente!
O médico baixou a cabeça.
— Fizemos compressões no peito por quase quarenta minutos, usamos o desfibrilador mais potente e a dose mais alta de adrenalina… e não adiantou. Sinto muito, srta. Serafina, mas há três minutos o sr. Theodore morreu na mesa de cirurgia.
