Capítulo 7 Capítulo 3.0 Morgana Ávila

Sei que não posso me deixar abalar. Preciso reunir esse valor.

Depois de ver o que o médico enviou e ter uma base do que precisarei gastar quase meio milhão de reais, só me resta uma pergunta: onde encontrarei uma quantia tão alta?

Uma coisa é certa: farei de tudo para que meu pequeno realize esse tratamento e volte a sorrir. Sem se preocupar com dor ou cansaço.

No dia seguinte, contrato um corretor e peço que traga um avaliador para estimar o valor do imóvel sem que eu precise vendê-lo abaixo do preço. O que me deixa aliviada é saber que moro em uma área valorizada. Ele fica de me enviar o laudo do avaliador. Enquanto isso, publico um anúncio do carro e, em poucos dias, consigo vendê-lo.

Quando entrego as chaves ao comprador, sinto um aperto estranho no peito.

Não era apenas um carro.

Era o resultado de anos de trabalho. De horas extras. De noites em claro estudando para me tornar a profissional que sou hoje. Foi a primeira grande conquista que comprei com o meu próprio dinheiro.

Mas, olhando para Pietro no banco traseiro do carro simples que adquiri para nos locomovermos, percebo que não me arrependo.

Venderia muito mais. Venderia tudo o que possuo. Porque nada é mais importante do que a vida do meu filho.

Ele estranha o carro diferente e pergunta várias vezes pelo antigo.

Acabo dizendo que ele quebrou e que aquele seria apenas temporário.

Pietro aceita a explicação com a inocência que só uma criança possui. E aquilo faz meu coração apertar ainda mais. Porque ele não faz ideia da batalha que estou travando para salvá-lo.

Na empresa, converso com meu chefe e explico a situação do Pietro. Ele se compromete a falar com os superiores sobre a possibilidade de rescisão — todo valor que eu conseguir será bem-vindo. No começo, ele resiste à ideia de me demitir, mas é preciso ser honesta: precisarei ficar quase dois meses fora, e não seria justo deixar tudo parado.

Antes mesmo de a resposta chegar, vou ao banco e solicito um empréstimo. Por ser cliente investidora, consigo R$ 150.000,00. Ainda assim, é apenas uma fração do que precisarei. Se der tudo certo, somando o empréstimo ao valor da casa e do carro, chegaria perto de R$ 250.000,00. Ainda estaria longe dos R$ 500.000,00 necessários, e não tenho mais nada de valor para vender ou empenhar.

Preciso de uma luz.

É então que recebo uma mensagem do meu chefe pedindo para nos encontrarmos na lanchonete. Já sei que não deve ser boa notícia.

Vou cheia de expectativa. Me sento e tento me manter calma preciso estar fria para não me deixar abalar na frente dele.

Ergo os olhos quando alguém puxa a cadeira à minha frente.

E meu corpo inteiro fica rígido.

Era ele.

O homem arrogante do congresso. Os olhos verdes acinzentados. A expressão séria. A postura de quem parece acreditar que o mundo gira ao seu redor.

Por alguns segundos fico encarando aquele rosto. O mesmo rosto que, por algum motivo irritante, continuou aparecendo nos meus pensamentos depois do congresso.

O que ele está fazendo aqui?

E, mais importante como ele me encontrou?

Antes que eu possa fazer qualquer pergunta, ele continua me observando como se estivesse tentando descobrir algum segredo meu. Aquilo me deixa profundamente desconfortável.

Mal consigo organizar os pensamentos quando meu chefe chega e ocupa o lugar que o outro havia deixado momentos antes.

— Desculpe a demora, Morgana. Conversei com o conselho sobre a sua situação, e eles não aceitaram a demissão. Você tem talento demais para deixarmos ir. Chegamos a um consenso: dois meses de licença remunerada, e a empresa vai disponibilizar R$ 50.000,00 para ajudar no tratamento do Pietro.

Por alguns segundos fico sem reação.

Cinquenta mil reais.

Ainda muito longe do que preciso. Mas era uma ajuda. Uma pequena luz em meio ao caos que minha vida havia se tornado nas últimas semanas.

Sinto meus olhos arderem. Não pelo valor em si, mas porque, pela primeira vez desde que recebi o orçamento do tratamento, alguém está estendendo a mão. E qualquer ajuda, naquele momento, faz toda a diferença.

— Quando você voltar, ainda terá seu emprego. E o valor que estamos disponibilizando é próximo ao que teríamos de pagar pelos seus direitos rescisórios depois de todos esses anos conosco. — ele explica.

Não tenho muita escolha. Aceito.

— Está bem. Aceito. Mas preciso que fique claro que a situação do Pietro é delicada e que posso precisar me ausentar a qualquer momento.

— Sim, deixei isso registrado. — Ele me entrega um envelope. — Não precisa assinar agora. Pode levar para casa, ler com calma e entregar à minha assistente amanhã.

— Se não se importa, prefiro ler agora e resolver logo.

Ele concorda com um aceno. Abro o envelope e faço uma leitura atenta. O contrato estipula que permanecerei na empresa por cinco anos, sem direito a quebrar o acordo. É justo — continuarei trabalhando, recebendo salário e todos os benefícios.

Pego a caneta da bolsa, assino e devolvo o envelope.

— Mandarei uma cópia para a senhorita. Espero que o tratamento do Pietro seja um sucesso e que você esteja de volta o quanto antes. Em até 24 horas, o financeiro depositará o valor em sua conta. Boa sorte, senhorita Morgana. — Ele estende a mão, aperto-a, e ele vai embora.

Pelo menos terei um emprego quando voltar.

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