Antes da festa
Manhãs. Não é como se eu tivesse aversão a elas; é só que a gente nunca foi muito amiga. Por isso, sempre era um sacrifício me tirar da cama e me fazer ir pra escola. Mas naquela manhã em especial, eu acordei cedo, até com um certo entusiasmo. Quando desci as escadas quase saltitando e pulei feliz do último degrau, meu pai estava saindo do escritório dele.
— Ué... meus olhos estão me enganando ou a minha linda de cabelo negro acordou cedo hoje? A que devemos esse acontecimento tão auspicioso?
Eu me virei devagar, dei um beijo no rosto dele e, olhando pra cima, arqueei uma sobrancelha.
— Pai... às vezes sua capacidade de fazer charme me surpreende, até a mim. Você sabe que hoje é o dia em que eu me formo naquela escola maldita em que eu fiquei todos esses anos, cercada daqueles peões insuportáveis.
Abaixei o olhar, lembrando de todos os coros de “ei, garota sozinha” e “esquisita”, e das tantas tentativas de bullying que eu tinha aguentado — por fora, sempre fingindo que não era nada, mas por dentro, sofrendo em silêncio. Claro, eu tinha meu mantra, e ele tinha me endurecido, mas de vez em quando minha defesa enfraquecia e eu tinha esses momentos de reflexão triste sobre o passado. Na maioria dos dias, eu conseguia despejar minha frustração na arte: eu pintava e esculpia. Às vezes minha arte vinha em forma de poesia ou letras de música pra uma banda que eu nunca consegui montar porque, por algum motivo, essa cidade não gostava da família Batiste e ninguém falava sobre isso.
Meu pai segurou meu rosto com a mão e puxou de leve meu queixo com o dedo, fazendo eu encarar aqueles olhos cor de mel.
Se Reginald Batiste não fizesse parte desta família, eu arriscaria dizer que ele seria um dos homens mais disputados pelas mulheres da cidade. Na verdade, eu já tinha flagrado mulheres de todas as idades que ainda tinham hormônios suficientes espiando pra ele. Uma vez eu ouvi uma garota da minha turma dizer pra amiga:
— Uma pena que ele seja um Batiste. Eu ia amar que ele fosse meu sugar daddy.
Só de pensar nisso, eu quase vomitei na boca — por ela querer encostar no meu pai. Uma daquelas pestinhas venenosas que essa cidade criou. A ideia de ela tocar nele me dava nojo. Ao mesmo tempo, a noção de que alguma mulher pensaria isso dele até fazia sentido. Eu, como filha, até então nunca tinha parado pra pensar se ele era feio ou bonito. Ele era só meu pai. Mas, quando ouvi aquele comentário e olhei pra ele, eu entendi o apelo.
Ele é alto, tem um porte levemente musculoso, e o cabelo negro junto com os olhos cor de mel, por si só, já seria o bastante pra fazer mulheres suspirarem. E ele tinha uma presença impossível de ignorar — o tipo de pessoa que faz você parar o que está fazendo só pra observar. Eu sempre comparei meu pai a uma pantera: bonito e majestoso, um mistério que dá vontade de admirar, mas que também dá a sensação de que é melhor ter cuidado. Se essas mulheres realmente conhecessem meu pai, seria a personalidade dele que as conquistaria. Ele é bondoso e gentil, com um humor seco e inteligente. O jeito empático dele era o que minha mãe sempre dizia amar mais nele. E ele também é ferozmente protetor com quem ama, principalmente com a sua querida Xan.
Quantas vezes ele tinha me salvado enquanto eu crescia? Ele nunca hesitou quando eu precisava do meu herói. E parecia que aquele seria mais um momento em que ele me resgataria, daquele jeito silencioso e psicológico com que ele conseguia alcançar o fundo do meu coração.
— Minha querida Xan, eu sei onde sua cabeça está agora. Tudo bem você se sentir assim. Nós todos soubemos, naquela noite de inverno em que você veio ao mundo, que seu caminho na vida nunca seria fácil, mas sua nova vida na LDMU vai ser uma grande melhora... e você ainda tem nossa festa hoje à noite pra esperar. Vão vir hoje vários parentes e amigos da família que você nunca conheceu, e tem uma grande surpresa que seu avô e eu estamos planejando desde o dia em que você nasceu.
A festa era algo que eu vinha aguardando havia um bom tempo, mas minha mente ficou presa à promessa que ele tinha me feito quando eu virei adolescente — e eu não ia deixar ele esquecer.
Eu encaixei meu braço na dobra do cotovelo dele, que ele tinha me oferecido — ele sempre me acompanhava até a sala de jantar. Era um jogo que a gente tinha começado quando eu era pequena. Ele tinha inventado isso dizendo que eu era uma dama e, portanto, deveria ser tratada como tal.
“Estou te ensinando que você deve exigir o respeito que merece de qualquer homem que queira te cortejar, meu bem.”
Ele dizia isso como se eu fosse algum tipo de aristocrata numa terra distante, mas nunca fez sentido. Eu sei que, ao que tudo indica, a gente vinha de dinheiro antigo, já que éramos donos de Blackwood Deep, mas aquilo não era exatamente uma propriedade inglesa com título e tudo. Ele não era o Lorde Reginald Batiste; só de pensar nisso eu acho estranho.
“Meu bem, você parece distraída. Me diga, por favor, o que é que franziu sua testa de novo nesta manhã. Eu quero aliviar seu coração, acalmar a tempestade aí dentro que tanto te perturba.”
Eu ergui os olhos para ele, puxei um ar fundo para soltar a única coisa que era um assunto proibido entre meu pai e eu.
“Eu preciso que o senhor se lembre da sua promessa pra mim. Eu guardei tantas perguntas na cabeça, mas mantive tudo trancado porque eu nunca quis te aborrecer nem te decepcionar… só que eu acho que chegou a hora de eu ter essas respostas. Me desculpa se isso te incomoda, mas eu acho que eu mereço saber.”
Depois que eu soltei aquilo, fechei os olhos com força, me preparando para o rosnado contido que meu pai soltava quando estava mesmo zangado. Esperei o rosnado — mas, em vez disso, ouvi uma risada baixa, discreta no começo, alegre. Meus olhos se abriram num salto, e eu encarei ele com uma expressão de choque.
“Vamos continuar andando, minha rosinha. Sua mãe vai ficar aborrecida se eu não te levar até a sala de jantar para você tomar o café da manhã direito. E acredite em mim quando eu digo: hoje não é dia de testar a paciência dela.”
Continuamos nossa caminhada até ele me acompanhar até o meu lugar e puxar a cadeira para eu me sentar. Quando me acomodei, eu o questionei: “Por que você riu da minha declaração mais cedo? Esse assunto já te deixou chateado antes e eu estava esperando a mesma reação. Eu precisei de muita coragem pra dizer o que eu disse. Qual é a sua?”
Quando papai se sentou e colocou o guardanapo no colo, ele sorriu para mim e respondeu, numa calma quase fria: “Responder às suas perguntas hoje à noite sempre foi o plano; é parte do motivo de estarmos dando uma festa. Nossa família tem uma tradição: quando alguém atinge a maioridade. E a sua maioridade acontece de coincidir com a sua formatura. Então chamar a sua festa de hoje de ‘festa de formatura’ não é totalmente correto. Essas pessoas que vão vir… na verdade estão aqui pra testemunhar a sua cerimônia.”
Eu olhei para ele, desconfiada: “Cerimônia? A gente faz parte de uma seita e eu nunca soube? Vocês não vão me fazer beber algum negócio especial com gosto de fruta, vão? Eu não vou fazer isso numa sala cheia de gente estranha de capa e máscara, vou? Porque eu não estou a fim de morrer. Eu sou nova demais pra morrer, pai.”
Meu pai, que estava tomando um copo d’água, cuspiu tudo quando caiu na gargalhada.
Minha mãe entrou às pressas na sala para limpar a mesa onde papai tinha cuspido a água. “Sério, Reggie? Não basta eu estar me matando pra fazer essa festa dar certo e agora ainda tenho que limpar sua bagunça? Tenha compostura, senhor!”
Em seguida, ela se virou para mim, de braços cruzados — o que significava que ela tinha entrado em modo guerra, nível de proteção da Xan: nuclear. Papai nunca me salvava da ira de Talia Batiste quando ela ficava assim. Era cada um por si: homem, mulher, criança e até bicho. Mamãe tinha um temperamento de fogo que, às vezes, pegava por pouca coisa. Papai diz que ela é apaixonada, e que ama isso nela. Nesse exato momento, eu não estava nem um pouco agradecida por tanta paixão.
“Alexandra Rose Batiste, em vez de ficar de palhaçada com esse seu pai sem noção, você devia estar tomando seu café da manhã pra não chegar atrasada na escola. A última coisa que a gente precisa é você pegando detenção no seu último dia. Eu tenho um cronograma apertadíssimo e preciso de você de volta aqui direto depois da aula, tanto pra última prova do vestido da festa quanto pra te deixar pronta pro seu momento de atravessar o palco. E, pelo amor de Frigg, onde é que o Darren se meteu?!”
Meu pai foi até atrás dela, passou os braços pela cintura de mamãe, se inclinou para dar um beijinho no pescoço dela e disse, baixo e com cuidado: “Ele foi ao cofre buscar o item de hoje à noite. Já já ele está em casa.”
Na hora, ela se acalmou. “Ai, meu Deus… eu esqueci. Me desculpa por surtar. Acho que eu tô muito estressada.”
Enquanto eu terminava meu café da manhã em silêncio, me levantei e abracei meus pais, ainda agarradinhos. “Vocês são taaão fofos. Mas falando sério, mãe: se você conseguir encaixar… um banho com cheiro de lavanda, um vinho e um bom livro talvez não seja a pior ideia. Tenho certeza de que a Deliah dá conta das preparações por uma horinha. Né, D?”
Eu me virei para a nossa governanta idosa, frágil, de cabelos grisalhos, sorrindo e fazendo joinha. “Sim, senhorita, eu devo dar conta. Por favor, senhora, descanse um pouco.”
Mamãe passou a mão no rosto para limpar o brilho de suor que tinha se formado na testa e suspirou. “É… talvez você tenha razão. Vou descansar agora. Não tem nada urgente. Eu sinto a tensão nos meus ombros.”
Enquanto mamãe subia as escadas para a pausa que ela tanto precisava, papai ficou ao meu lado. “Você vai ter que perdoar sua mãe. Pra nós e pra nossa sociedade, a sua maioridade é um evento importantíssimo. Ela quer que seja perfeito porque, com certeza, entre a família e os amigos, isso vai ser assunto por muito tempo. Qualquer probleminha pode virar um desastre pra gente por mais tempo do que você consegue imaginar.”
Essa fala não combinava com o “quem liga pro que os outros pensam” com que eu cresci. “Pai… eu achei que a gente não ligasse pro que ninguém pensa da gente. Não é esse o lema da família?”
Meu pai só sorriu. “Não… não é bem assim, não. Mas você vai entender depois. Vai pra escola, minha rosinha. A gente se vê hoje à noite.”
