A primeira verdade

O último dia de aula e a formatura passaram sem grandes incidentes, mas a Sally Plinker fez de tudo para me dar uma rasteira enquanto eu caminhava até o palco para receber meu diploma. Depois de anos sofrendo bullying dessa gente, eu já sabia que precisava ficar alerta, então simplesmente “sem querer” chutei a canela dela. Sally agarrou a perna e começou a esfregá-la com cuidado. Ela ergueu os olhos para mim e gritou:

— Ai, sua vadia! Por que você me chutou?

Ergui uma sobrancelha e respondi, fria:

— Nossa, eu te machuquei? Não percebi que sua perna estava aí no meio. Eu tomaria cuidado, você pode acabar derrubando alguém. E isso não seria nada legal de fazer com alguém que só está tentando se formar daqui.

Isso arrancou dela um som que parecia um “hm!”: boca bem fechada num bico, braços cruzados e um balanço agressivo na cadeira. O namorado dela, que era o quarterback titular do time de futebol americano, esticou o braço por trás para consolá-la.

— Alexandra, você continua podre como sempre.

Sam Wilson era o filho do prefeito, o garoto com quem todo mundo se dava bem. Bom, todo mundo menos eu, pelo visto — embora uma vez ele tenha dito aos amigos que, se eu não fosse uma Batiste, largava a Sally para ficar comigo. A história se espalhou: disseram que ele estava a fim da “esquisita”, e ele nunca conseguiu se livrar disso. Ficou claro quando Sally se virou para alfinetá-lo:

— Ah, é mesmo? Não foi você que disse que ia ficar com ela, sua amante de esquisita?

Nessa hora, o sr. Jenkins, o professor de História, veio andando até mim.

— Srta. Batiste, está acontecendo algum problema aqui?

O sr. Jenkins e a diretora, dona Kemp, eram as únicas pessoas daquela cidade que já tinham me tratado com algum cuidado e compaixão. Isso nunca descia bem para os pais, que diziam que eu intimidava os filhos deles quando eu resolvia revidar. Virei e sorri para o sr. Jenkins.

— Não, senhor. Eu só estava vendo se a Sally estava bem. Ela estava se espreguiçando quando eu passei e eu acabei chutando sem querer.

O sr. Jenkins olhou para Sally.

— Srta. Plinker, espero que você esteja bem; porém, você precisa estar mais atenta ao que suas ações podem causar nas pessoas ao seu redor — e até às consequências para você mesma. Seria bom guardar esse conselho e levá-lo com você ao seguir para o próximo capítulo da sua vida, que começa em Harvard. Srta. Batiste, por favor, siga em frente para receber seu diploma.

Eu caminhei para a frente sorrindo, enquanto ouvia atrás de mim:

— Eu odeio ela.

O sentimento é recíproco.

Quando cheguei à mansão, os preparativos para a noite estavam a todo vapor. Vans de buffet estavam estacionadas na frente, e as pessoas que trabalhavam no evento iam e vinham, numa correria para deixar tudo pronto. Ao passar pelas vans, li o que estava escrito na lateral: Spellbound Delights, de propriedade e administração de uma tal de Vanessa Tannen. Eu não me lembrava de já ter visto um negócio desses na cidade, e o pessoal trabalhando ali não parecia nem um pouco incomodado por estar naquele lugar.

Estacionei o carro e caminhei em direção à entrada, ouvindo sussurros baixos entre a equipe: “Meu Deus do céu, é ela. Ela é tão bonita quanto diziam. Fiquei tão feliz quando a Vanessa me chamou pra fazer o buffet do Batiste.” Do Batiste? No singular. Achei aquilo bem estranho — sem contar que aquelas pessoas estavam me paparicando como se eu fosse uma celebridade.

Cheguei ao saguão e encontrei uma mulher muito esguia, vestida toda de preto, com um cabelo de um vermelho tão profundo que eu apostaria que o apelido dela era Scarlet. Ela sorriu para mim.

— Alexandra, presumo? Eu sou Vanessa Tannen. Estou responsável pelo buffet e pela equipe da sua cerimônia. Seus pais têm muito orgulho de você; só ouvi elogios. Sabe, eu te conheci uma vez quando você era bebê. Eu confeccionei essa pulseira de ouro, nesse estilo de manopla, que você está usando no pulso direito.

Ergui o olhar para ela, em choque.

— Então você sabe por que eles me fazem usar isso o tempo todo quando eu saio de casa. Você pode me dizer por que eles fazem tanta questão de esconder a marca no meu pulso?

Dava para ver nos olhos de Vanessa a vontade de me esclarecer, mas ela logo foi tomada por hesitação.

— Querida, eu não acho que caiba a mim te contar isso. O Reggie não ia gostar que eu dissesse mais do que você deve saber a essa altura. Mas eu vou te dizer uma coisa: eu sou extremamente protetora com você. Eles me escolheram como sua madrinha, sabia? Só que, pelo seu bem, eu tive que ficar distante.

Uma lágrima solitária escorreu pela bochecha de Vanessa, e ela virou o rosto, na esperança de que eu não percebesse. Quando voltou a olhar para mim, sorriu.

— Mas não adianta ficar presa ao passado. Você tem um futuro pela frente, e de agora em diante eu vou estar aqui por você. Eu dou aula na LDMU, então vou ficar de olho em você enquanto você estiver estudando lá.

Eu me surpreendi com o quanto alguém que eu mal conhecia podia se importar comigo, e aquilo foi tão tocante que me deu vontade de abraçá-la. Antes que eu percebesse, eu já estava com os braços ao redor de Vanessa.

— Eu fico tão feliz que você vai estar por perto daqui pra frente. Eu não sei por quê, mas você parece alguém com quem eu me daria bem.

Vanessa retribuiu o abraço, depois me afastou um pouco e me encarou.

— Meu Deus do céu… não é à toa que o Reggie diz que você consegue encantar qualquer pessoa. Enfim, acho melhor você ir procurar a sua mãe antes que ela me mate por ter te segurado aqui tempo demais. Não quero virar o alvo.

Eu ri.

— É, eu também não, então vou correndo falar com ela. Prazer em conhecer você, tia Ness!

Subi as escadas fazendo barulho e encontrei a minha mãe no meu quarto, à minha espera. Quando ela se virou, meu coração foi parar no estômago. Ela estava muito brava... de novo.

— Alexandra Rose, achei que eu tivesse deixado bem claro hoje de manhã que estamos com o tempo contado. O que foi que te segurou?! — disse minha mãe, jogando uma mecha longa e ruiva para fora do rosto.

Minha mãe também era ruiva, mas o ruivo dela era diferente do da Vanessa. Era mais intenso, mais “fogo”, combinando com aquele lado apaixonado da personalidade dela.

— Mais pra berrou, mas enfim... — murmurei.

Erro cometido, tarde demais pra fingir que não aconteceu... minha mãe girou nos calcanhares e veio na minha direção com passos firmes. Ela enfiou a cara na minha, e eu consegui ver os detalhes dos olhos dela, de um verde-esmeralda profundo.

— Acho que eu tô ficando surda. Eu ouvi você dizer que quer ser castigada? Porque é exatamente assim que você acaba sendo castigada, mocinha.

Eu estava tentando fazer graça, mas claramente a minha mãe não entendeu a piada. Minha voz interna começou a gritar: “Tá bom, Xan, que cagada. Pensa no que falar agora pra sair dessa, ou essa mulher vai assombrar seus sonhos. Entendeu? Liga o charme.”

Eu sorri.

— Mãe, me desculpa mesmo. Acho que o estresse do dia tá me afetando também. Claro que eu me lembro do seu aviso. Eu tentei voltar o mais rápido possível, mas aquela mimadinha da Plinker fez um escândalo dizendo que eu tentei derrubar ela durante a cerimônia de formatura, quando na verdade era ela que queria me fazer tropeçar. A dona Kemp esclareceu tudo, mas levou um tempo até conseguir tirar a dona Plinker do pé dela. Ah, e ela tá ameaçando processar a gente. Aliás, esse azul tá lindo em você, devia usar mais vezes.

Os olhos da minha mãe passaram de irritação para fúria, mas eu sabia que não era comigo.

— Ha! A Plinker não vai se meter com a gente, não. Vai enfiar o rabo entre as pernas quando o Reggie ameaçar entrar com uma ação contra ela por danos psicológicos que a filha dela causou em você ao longo dos anos. Com testemunhas de caráter, o senhor Jenkins e a dona Kemp já resolvem. Você sabe que o seu pai faria isso. Enfim, vamos colocar você no vestido. Não tem tempo pra perder com esse lixo agora.

Ela se virou para a Delilah.

— Delilah, por favor, traga o vestido dela.

Delilah tirou um vestido de um branco puro, quase como um vestido de noiva, ou daqueles que uma debutante usaria num baile.

Eu sorri para a minha mãe.

— Não é exatamente a minha cor.

Minha mãe sorriu de volta.

— Eu sei, querida, mas é a tradição. Você tem que usar essa cor.

Depois de alisar o tecido, ela se voltou para a nossa governanta.

— Agora, Delilah, prepare as luvas. A gente precisa tirar a pulseira e colocar as luvas bem rápido.

Delilah trouxe uma caixinha pequena de mogno, com uma plaquinha gravada com a inscrição: Para os Batiste. Lá estava de novo: “os Batiste”.

Minha mãe tirou de dentro duas luvas brancas que iam até acima do cotovelo, como as de filmes antigos de Hollywood. Ela tirou a minha pulseira e, num movimento rápido, colocou a luva no meu braço direito, então ergueu o olhar para mim e sorriu.

— Vanessa nos deu isso, pra você não precisar usar a pulseira hoje à noite.

Aquilo me pareceu estranho, como se fosse uma frase importante demais para o que era, mas ao longo dos anos eu já tinha me acostumado com frases, ações e significados enigmáticos acontecendo ao meu redor. Aprendi a parar de fazer perguntas, porque meu pai ficava bravo comigo, e me doía demais deixá-lo irritado — eu o respeitava muito.

— É melhor você não saber por enquanto — ele dizia.

Depois que prenderam meu cabelo num coque e fizeram minha maquiagem, eu estava pronta para a festa. Minha mãe, com lágrimas nos olhos, me olhou.

— Temos que esperar seu pai e seu avô. Tem um detalhe final que eles precisam te entregar.

— Tô imaginando que ela já esteja pronta? — disse meu pai, colocando a cabeça pela fresta da porta.

— Sim. Você pode falar com ela a sós. Nós terminamos — respondeu minha mãe.

Ela segurou meu rosto com a mão e apertou de leve a minha bochecha, já se virando para sair com um sorriso enorme no rosto.

— Finalmente, meu trabalho de hoje acabou. Se alguém precisar de mim, vou estar no meu quarto me arrumando para a festa.

Quando ela está saindo, meu avô entra no quarto com uma caixinha de joias com um colar na mão. Meu pai e meu avô se ajoelham diante de mim e dizem em uníssono:

— Apresentamos, neste dia, ao futuro da nossa Casa, o símbolo que você deve usar até o momento em que gerar o próximo futuro.

Meu pai ergue a cabeça para beijar minha mão.

— Minha querida filha, este medalhão é o seu passe para a LDMU. Todos os que estudam lá precisam usar este medalhão para simbolizar sua Casa. É uma universidade de prestígio, não é qualquer um que entra, então você precisa ter isso em mente e usá-lo sempre.

Meu avô se levanta e prende o medalhão no meu pescoço. Na frente, há uma pequena safira.

— Da geração mais antiga dos Batiste à mais nova, eu apresento, com todo o nosso amor e devoção eternos, as cores e o símbolo da nossa família e do nosso brasão, que usamos com orgulho.

Eu abaixo a mão e abro o medalhão, encontrando um brasão em tons de azul e verde, com uma espada atravessando um coração; pousada sobre o coração havia uma pantera que, sem eu perceber, sempre me lembrava meu pai.

— Agora que os convidados chegaram, precisamos apresentá-la — meu pai me olhou com um misto de emoções. Orgulho, alegria, melancolia e medo. A última emoção ficou martelando na minha cabeça. Se estávamos entre família e amigos, por que ele estaria com medo?

Nesse instante, a porta rangeu, e Delilah espiou para dentro.

— Senhores, madame mandou eu avisar que ELE não vai comparecer esta noite. Está ocupado com um trabalho importante em Vellum. O outro também não estará aqui, porque ainda não tem permissão para sair de Vellum; por isso, o brasão dele ainda não foi devolvido.

Dava para ver a tensão indo embora dos ombros do meu pai com a notícia.

— Eu rezei para que a gente evitasse ter que lidar com Blake, mas eu esperava ver Lucian. A presença dele teria feito a cerimônia da Xan ser um sucesso retumbante. Agora vamos ter que contar com o charme Batiste e rezar para Cerridwen para a Xan não insultar ninguém — meu pai piscou para mim.

Meu avô respondeu:

— O lado ruim de endurecer nossa menina é um efeito colateral bem infeliz: ela fica disposta a sair no tapa com qualquer um que a insulte. Você tem certeza de que queria o Lucian aqui? Você provavelmente perderia Blackwood Deep por causa da atitude dela.

— Dá pra falar de mim como se eu não estivesse aqui, né? — eu não gostei nem um pouco de eles falarem como se eu fosse algum bicho selvagem que precisasse ser domado.

Meu avô riu baixinho.

— Obrigado por confirmar meu ponto, querida.

Eu fiquei boquiaberta, sem palavras. Meu pai segurou minha mão e fixou os olhos nos meus.

— Eu preciso que você seja uma dama perfeita esta noite. Você acha que consegue?

Eu assenti para meu pai.

— Eu acho que consigo. É isso que o senhor quer de mim.

Então meu pai mandou meu avô descer para se juntar à festa.

— Eu tenho um orgulho imenso de você, Xan. Mas, antes de descermos, eu quero revelar uma coisa. Nossa família tem sido muito importante em outro mundo. Nós somos os protetores da Floresta Blackwood, que abriga um portal para outro mundo. Aqui, nosso título oficial é Ducado de Blackwood. A cerimônia desta noite é uma iniciação: você será minha aprendiz oficial para se tornar a Duquesa de Blackwood e protetora da floresta. É tudo o que vou revelar por enquanto.

Meu pai me conduziu para fora do quarto, minha mão encaixada no braço dele. Eu estava mergulhada em pensamentos por tudo o que ele tinha me contado. Agora fazia sentido por que todos os funcionários tratavam como se eu fosse alguém muito importante. O que eu não conseguia entender era como existia um portal na floresta e por que eles sentiram necessidade de esconder isso de mim.

Quando chegamos ao topo da escada, ouvimos Vanessa anunciar:

— Senhoras e senhores, por favor, em posição para Sua Graça, o Duque Reginald Batiste, e sua descendente, senhorita Alexandra Rose Batiste, futura Duquesa de Blackwood.

Finalmente me caiu a ficha de que meu pai tinha mais a revelar do que apenas esse título e esse portal. Que outras verdades ele revelaria naquela noite?

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