Onde o Gelo Cede

Onde o Gelo Cede

Sheridan Hartin · Atualizando · 264.9k Palavras

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Introdução

Charlotte Pierce está acostumada a sobreviver em movimento. Cidades novas, escolas novas, a mesma casa velha no fim do mundo, e a mesma regra que a mantém de pé: manter o irmão gêmeo, Charlie, em segurança. Manter vivo o sonho dele no hóquei. Manter as próprias necessidades em silêncio. Ela trabalha demais, dorme de menos e guarda a única coisa que ainda parece ser dela para o meio da noite, quando pode amarrar os cadarços dos patins gastos e riscar a liberdade num gelo perigoso e congelado.

Charlotte e Charlie passaram pela primeira mudança uma vez, anos atrás, e nunca entenderam o que aquilo significava. Eles não tinham matilha, nem orientação, nem proteção. Só dois gêmeos se agarrando um ao outro e fingindo que a voz na cabeça era estresse, imaginação ou solidão. Aí eles se mudam para Wellington.

Blake Atlas sente o cheiro da companheira no instante em que Charlotte chega. O vínculo atinge forte e inconfundível, mas Charlotte não reconhece. Ela não sabe por que o peito dela insiste em puxar na direção do único garoto que ela, de jeito nenhum, pode se dar ao luxo de querer. Blake é o novo capitão de hóquei do Charlie. A chance do Charlie de fazer algo dar certo. Charlie deixa claro: a irmã dele está fora de questão, e Blake tenta fazer a coisa certa, mas segredos não ficam enterrados para sempre.

Renegados rondam as beiradas da cidade. O gelo racha. O vínculo aperta. Então o raro lobo branco de Charlotte desperta — e aquilo que a torna poderosa também a torna um alvo.

Shanti precisa de Shakti. (A paz precisa de força.)

Onde o Gelo Cede é um romance paranormal YA de queima lenta, com almas predestinadas, energia de alfa protetor, lealdade feroz entre irmãos, laços de matilha de família encontrada, dor/consolo e uma tensão silenciosa e latejante. É uma história sobre pertencer pela primeira vez, aprender a ser cuidada e o que acontece quando a garota que sempre sustentou todo mundo finalmente cai — e alguém a segura.

Capítulo 1

Charlotte

A neve salpica o para-brisa em linhas finas, sussurrantes, enquanto o carro vai tossindo até sair da rodovia. O aquecedor dá um estalo e morre, e o frio invade por cada fresta. Minha respiração embaça o vidro, e eu abro um círculo com a manga, vendo o branco engolir a estrada atrás da gente. As árvores rareiam, e a cidadezinha se ergue, quieta e pálida.

Não é novidade. Cada cidade pra onde a gente se muda parece mais ou menos igual. Tem aquela lanchonete única que fica aberta a noite inteira, com as luzes zumbindo e as janelas embaçadas. Um posto de gasolina com uma placa pintada à mão que parece ter sido pendurada nos anos sessenta e nunca mais mexeram. Uma rua principal com uma padaria, um banco e umas lojinhas que fecham cedo. E aí vêm as casas. Essa parte é sempre absurda de tão parecida. A gente passa primeiro pelas ruas dos ricos porque, claro, elas ficam mais perto do centro. Ali tem cercas grandes, luzes quentes e entradas de garagem já limpas. É onde moram os filhinhos de papai com espaço de sobra pra respirar. Depois vêm as famílias trabalhadoras. Mesmo com a tinta descascando das paredes, elas varrem os quintais e estacionam os carros bem alinhados. São as pessoas que ralam e cuidam do que têm, mesmo quando é velho. Aí chega a beirada da cidade, onde a estrada afina e os postes de luz ficam mais espaçados. Onde ninguém precisa ver você se virando pra sobreviver, é ali que vivem os pobres, os azarados e os pais e mães solo. Ah, e nós — um pouco de tudo isso.

— Ei, Lotty. — Meu irmão gêmeo, Charlie, me cutuca com a bota do banco de trás. Eu arranco o olhar da janela e encaro ele. A neve umedeceu o cabelo dele onde roçou no forro do teto, deixando os cachos mais escuros do que o normal. O sorriso já está lá — brilhante, teimoso, esperando por mim. — Pelo menos esse lugar tem gelo.

Eu sorrio e faço que sim, porque sei o que isso significa pra ele. A última cidade era quente, seca e cheia de poeira, sem uma pista de patinação sequer. Charlie tentou se virar com patins, asfalto rachado e um taco emprestado, mas não era a mesma coisa. Quando a gente era criança, com a mamãe ainda viva, o inverno abraçava a gente todo dia. Ela ensinava a gente a patinar sempre que dava, com as mãos nas nossas costas e risada carregada pelo ar gelado. Nós dois gostávamos, mas o sonho do Charlie era mais fundo, grudava mais. Depois que ela morreu, o pai levou a gente pra longe de qualquer coisa que lembrasse ela, mas de vez em quando ele escorrega. Perde um emprego ou é preso por alguma idiotice. Aí arruma outro trabalho numa cidade que ou serve pra ele ou serve pro Charlie. O hóquei é a saída do Charlie. Se ele for bom o bastante, talvez escape do ciclo. Talvez um de nós escape.

O pai vira numa rua estreita e o carro derrapa, os pneus guinchando, antes de parar torto num monte de neve no fim de uma entrada comprida. Montinhos de neve se erguem dos dois lados, e o pai xinga, empurra a porta e o frio arrebenta pra dentro.

— Pra fora.

Charlie e eu nos atropelamos pra sair. A neve encharca meus tênis na hora. Meus dedos do pé ardem e depois ficam dormentes. O pai passa cambaleando por nós, as botas escorregando, e começa a subir a entrada sem olhar pra trás. A casa espera lá em cima. É menor do que as outras ao redor e parece meio curvada sobre si mesma. O revestimento está empenado, e a varanda cede sob o peso do gelo. Uma veneziana fica pendurada por uma dobradiça, batendo de leve na parede com o vento. O quintal é uma bagunça de mato congelado e ferramentas velhas, meio enterradas na neve.

— Vamos, Lotty — diz Charlie, já andando. — Vamos pegar nossas coisas. Depois a gente desatola o carro.

Cada um pega uma caixa, porque é só o que a gente tem. Papelão amolecido pelo tempo e pela fita adesiva. O frio morde mais forte enquanto a gente sobe a entrada, arrastando os pés, e a neve range debaixo das nossas botas. Meus dedos latejam por dentro das luvas finas. Quando finalmente chegamos à varanda, minhas pernas já estão duras, e a porta da frente emperra quando o Charlie força para abrir.

Lá dentro, o cheiro é de madeira úmida e óleo velho. O pai já está batendo portas de armário na cozinha. Uma porta bate antes de ele passar feito um furacão por nós, o ombro acertando o Charlie e fazendo a caixa dele escorregar pelo chão.

— Vou pra cidade — ele diz. — Escolham um quarto.

A porta bate, e o silêncio entra correndo atrás dele. Eu ponho minha caixa no chão e me agacho, juntando as coisas do Charlie. Entrego um patim para ele, e ele pega o outro. A gente ajeita tudo de volta e sobe.

A escada range alto, as paredes estão cheias de marcas escuras, e um gancho de quadro sem quadro balança na parede com cheiro de mofo. Lá em cima, duas portas ficam lado a lado, longe do quarto principal. A gente não fala, mas nós dois sabemos por que escolhemos aquelas. O Charlie larga a caixa dele e volta um segundo depois, encostando no batente da minha porta com o mesmo sorrisinho torto.

— Bora soltar os lobos, mana?

Eu deixo minha caixa em cima da cama. O colchão afunda no meio, como se já tivesse desistido.

— Você leu minha mente.

É assim comigo e com o meu irmão: a gente é diferente. Sempre soube. Nossos roxos somem rápido demais, e a gente consegue correr mais do que deveria. No ano passado, no nosso aniversário de dezesseis, o pai apagou no sofá, e a lua já estava alta quando os nossos ossos começaram a queimar. A gente achou que ia morrer. Achou que, sem querer, ele tinha envenenado a gente. Só que não. A gente consegue virar lobisomem.

E a gente não conta pra ninguém; isso é nosso. Talvez seja um presente da mãe, um jeito de correr, de respirar e sumir um pouco.

Antes de mudar, eu ando devagar pelo quarto. A janela treme no caixilho. A geada vai tomando as bordas do vidro como veias. Uma cômoda fica torta no canto, com uma gaveta sem puxador. No teto, há uma mancha onde alguma coisa vazou um dia e ninguém consertou. Encosto a palma na parede e o frio atravessa direto, enquanto lá fora o vento raspa o beiral. A casa parece cansada, velha, largada… muito como eu.

O Charlie abre a janela, e a neve entra, polvilhando o parapeito — o quintal lá fora desce em direção às árvores e, depois disso, vira campo aberto. Não tem cerca nem luz, só branco e sombra. Ele me olha, esperando, e eu concordo com um único aceno.

A gente tira a roupa depressa, as mãos tremendo de frio e de expectativa. A transformação vem, como sempre: calor debaixo da pele, as juntas estalando e virando algo mais forte. O pelo irrompe, o quarto encolhe, e o caixilho da janela estilhaça quando a gente se empurra pra fora. A neve explode ao redor quando a gente cai, as patas afundando, depois erguendo, depois voando.

A gente corre.

O frio não dói assim. O chão passa ondulando sob nós, rápido e aberto. O Charlie acompanha no meu ombro, uma sombra escura contra o branco. A gente corta montes de neve e árvores, salta troncos caídos, e deixa a casa e a estrada pra trás. A lua fica baixa no céu, e nossas pegadas se trançam e somem na neve que cai. Por um tempo, só existe liberdade — e nós, correndo soltos e selvagens dentro dela.

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