Capítulo 3
Ponto de vista de Natalie
As garras do dragão, cada uma do tamanho de uma espada, cortaram o ar num arco devastador. O impacto lançou os três homens para longe como bonecos de pano. O Cara de Cicatriz se chocou contra uma caixa de suprimentos a seis metros de distância com um estalo nauseante. O mais jovem simplesmente sumiu na fumaça. O silencioso caiu num amontoado quebrado e não se mexeu mais.
O dragão pousou diretamente sobre mim. Seu corpo imenso formou uma jaula de escamas e músculos. Ele baixou a cabeça até que eu pudesse sentir o calor irradiando de suas narinas, até que eu visse meu próprio reflexo apavorado naqueles olhos dourados, alienígenas.
Eu não conseguia me mexer. Não conseguia respirar. Não conseguia fazer nada além de encarar a criatura que deveria estar me matando, mas que em vez disso permanecia perfeitamente imóvel, me observando com uma intensidade que parecia quase... curiosa.
O dragão fez um som. Não um rugido. Algo mais suave, quase como uma pergunta, enquanto aproximava sua cabeça enorme da palma da minha mão. Um convite. Um pedido.
Isso não podia estar acontecendo. Dragões não agiam assim. Eram armas. Máquinas de matar ligadas apenas aos seus cavaleiros por sangue e magia. Não se interessavam por prisioneiras aleatórias. E com certeza não se rebaixavam ao que parecia, de um jeito perturbador, submissão.
Minha mão tremia quando as escamas do dragão chegaram a uma distância em que dava para tocar. Eu conseguia ver meu reflexo na superfície de obsidiana, distorcido e pequeno.
Então uma voz cortou o momento como uma lâmina.
— Tempest. Chega.
A ordem foi baixa. Quase casual. Mas a cabeça do dragão se ergueu na mesma hora, se afastando de mim como se tivesse se queimado. Ele deu um passo para trás, as asas roçando com o que poderia ser relutância, aqueles olhos dourados ainda cravados em mim com a mesma intensidade inquietante.
Uma figura se moveu no canto da minha visão. O cavaleiro, desmontando das costas do dragão num único movimento fluido que denunciava anos de prática. Ele era alto — facilmente com mais de um metro e oitenta — e se movia com a economia controlada de quem nunca precisou desperdiçar um único gesto. Sua armadura era preta fosca, feita para a função em vez de exibição, mas a insígnia no peitoral era inconfundível: o brasão de asas duplas do Império Valkyria.
E no protetor do ombro esquerdo, desenhado em prata que parecia brilhar à luz do fogo, havia outro símbolo. Um dragão negro enroscado em torno de uma coroa.
Ao meu redor, os poucos oficiais de Osland ainda conscientes o bastante para reconhecê-lo empalideceram.
— Isso... isso é a marca real — alguém sussurrou. — Dragões só se ligam a sangue real. Isso quer dizer que ele é...
— Silas Cross. — A voz de um oficial mais velho falhou ao dizer o nome. — O próprio Senhor dos Dragões. A gente tá morto. A gente tá fodido. Todo mundo.
O homem — Silas Cross, o Senhor dos Dragões, o pesadelo que as mães de Osland usavam para assustar os filhos — examinou o acampamento em chamas com a mesma expressão que alguém usaria ao observar uma coleção particularmente desinteressante de insetos. Seu rosto era feito de ângulos afiados e planos frios, bonito do jeito que uma lâmina era bonita. Seus olhos eram negros. Totalmente negros. Sem calor. Sem misericórdia. Apenas a avaliação plana de um predador decidindo qual presa valia o esforço de matar.
Atrás dele, o dragão — Tempest — se acomodou sobre as ancas. A cauda se enrolou ao redor do próprio corpo como a de um gato. Os olhos dourados acompanhavam cada movimento no acampamento com foco predatório.
Um tenente deu um passo à frente. Tentou. Conseguiu talvez dar três passos antes de as pernas cederem e ele cair de joelhos. — Por favor. Nós nos rendemos. Nós...
— Onde está Edwin Rhinehart? — A voz de Silas era baixa. Conversacional. De algum jeito, isso tornava tudo mais aterrorizante do que se ele tivesse gritado.
Ninguém respondeu.
"Ele fugiu." Silas respondeu à própria pergunta, com um leve repuxar de desgosto no canto da boca. "Claro que fugiu. Covarde de sangue azul. Uma tradição de família, pelo visto."
Ele se virou para alguém atrás dele — outra figura de armadura preta, esta usando a insígnia de um oficial de alta patente. "Kain. Processe os prisioneiros. Combatentes homens recebem o tratamento de sempre. Não combatentes e mulheres vão para a instalação do Barão."
"Sim, Comandante." O oficial — Kain — fez uma continência precisa e começou a latir ordens para os soldados valkyrianos que emergiam da fumaça como sombras ganhando forma.
Foi então que entendi. Não estávamos sendo massacrados. Estávamos sendo separados. Catalogados. Processados como mercadoria.
Combatentes homens recebem o tratamento de sempre. Eu não precisava perguntar o que aquilo significava. Já conseguia ouvir os tiros começando à distância.
Não combatentes e mulheres vão para a instalação do Barão. Eu não sabia o que aquilo significava. Mas sabia que não era melhor. Só diferente.
Eu me forcei a ficar de pé. Minhas pernas tremiam. Minha camisola estava rasgada, enlameada e provavelmente transparente à luz do fogo. Mesmo assim, fiquei de pé, porque ficar largada na lama significava desistir, e eu não tinha sobrevivido a três anos na cama de Edwin desistindo.
Ao meu redor, outras mulheres estavam sendo reunidas em um grupo. Seguidoras do acampamento. Criadas. Algumas poucas soldados. Todas nós com a mesma expressão — medo, exaustão e a determinação sombria de pessoas que já tinham sobrevivido a coisas demais para morrer agora.
Juntei-me a elas. Mantive a cabeça baixa. Tentei me tornar invisível. Tentei ser só mais um rosto na multidão de sobreviventes.
Mas, quando me arrastei até meu lugar, senti. Um peso. Uma pressão. A sensação de estar sendo observada por algo vasto e perigoso.
Ergui os olhos sem querer.
Silas Cross estava olhando diretamente para mim.
Durou só um segundo. Talvez menos. Os olhos dele encontraram os meus através do acampamento em chamas, e naquele momento me senti despida — não das roupas, mas de tudo. Toda defesa. Todo segredo. Todo cálculo desesperado que eu já tinha feito para sobreviver.
Então ele desviou o olhar. Voltou-se para o oficial. Disse alguma coisa que eu não consegui ouvir.
Mas meu coração estava martelando com tanta força que achei que fosse romper minhas costelas. Minhas mãos tremiam mais do que quando Scarface e os amigos dele me imobilizaram.
Aquele olhar. Aquele único segundo de atenção.
Aquilo significava alguma coisa. Eu não sabia o quê. Mas sabia, com a mesma certeza animal que me mantivera viva durante três anos de inferno, que minha vida tinha acabado de mudar de novo.
Kain — o oficial valkyriano — se aproximou do nosso grupo. Ele era metódico. Profissional. Seu rosto não demonstrava emoção enquanto começava o processo de nos separar, atribuir números e nos catalogar como gado.
Quando chegou até mim, ele fez uma pausa. Seus olhos se estreitaram levemente. "Nome?"
"Natalie." Minha voz saiu firme. Isso era bom. "Natalie Vane."
"Ocupação?"
O que eu deveria dizer? A puta do Edwin? Filha de general? Filha de traidor?
"Eu era... uma seguidora do acampamento."
Kain fez uma anotação no tablet. "Você será transportada para a instalação do Barão Voss com as outras. Siga as instruções. Não cause problemas. Coopere e vai sobreviver. Resista e..." Ele não terminou. Não precisava.
"Eu entendo", sussurrei.
Ele passou para a mulher seguinte.
Fiquei ali, cercada pelas cinzas das mentiras de Edwin e pelos corpos dos homens que haviam acreditado nele, tentando entender o que tinha acabado de acontecer. Tentando processar o fato de que eu tinha deixado de ser propriedade de um príncipe para me tornar prisioneira de guerra no espaço de uma única noite.
Mas tudo em que eu conseguia pensar era naquele olhar. Naquele único segundo em que Silas Cross tinha me visto.
E na terrível certeza de que ele se lembraria.
