Capítulo 4
Ponto de vista de Natalie
Eu era a prisioneira número 2347. Eles me deram uma plaqueta de metal com o número gravado. Disseram para eu mantê-la comigo o tempo todo. Disseram que perdê-la resultaria em execução imediata.
Agarrei a plaqueta no punho enquanto o caminhão se afastava aos solavancos do acampamento em chamas. Observei pela traseira aberta quando o dragão — Tempest — abriu as asas e levantou voo, levando seu cavaleiro para o céu manchado de fumaça.
“Nós vamos sobreviver a isso”, sussurrou a mulher ao meu lado. Ela era mais velha, talvez tivesse quarenta anos, com olhos gentis e mãos trêmulas. “Só precisamos manter a cabeça baixa. Fazer o que eles mandam. Vamos sobreviver.”
Fechei os olhos e me agarrei à minha plaqueta numerada como se fosse um talismã. Como se ela pudesse me proteger do que viesse a seguir.
O caminhão parou com um solavanco quando a alvorada rompeu sobre a linha da serra, e, pelos vãos da lona que o cobria, tive meu primeiro vislumbre do “campo de triagem”.
O ar ali era diferente do acampamento em chamas que havíamos deixado para trás — mais frio, mais rarefeito, trazendo o gosto metálico da altitude elevada e mais alguma coisa que eu não conseguia identificar. Medo, talvez. Ou sangue que havia penetrado tão fundo no chão congelado que nem o vento conseguia lavá-lo.
“Todo mundo para fora! Andando!” Guardas de uniforme verde-acinzentado puxaram a lona para trás, e fachos agressivos de holofotes cortaram a escuridão antes do amanhecer. A mulher que havia me sussurrado palavras de consolo durante a viagem — cujo nome eu ainda não sabia — tropeçou ao descer, e a coronha do fuzil de um guarda acertou suas costelas. Ela caiu com força, mas não gritou, e então eu entendi que todas nós havíamos aprendido a mesma lição: barulho chamava atenção, e atenção significava dor.
Meus pés descalços tocaram a lama congelada. O choque do frio subiu pelos meus ossos, e eu tive de travar os joelhos para não desabar. Ao meu redor, as outras mulheres se agrupavam por instinto, buscando calor e a ilusão de segurança na força do número. Alguém chorava baixinho, o som sendo rapidamente sufocado quando um guarda virou a cabeça.
“Calem a boca! Quem fizer barulho vai ser mandado para os lobos!” A voz dele ecoou pelo complexo com facilidade ensaiada, a ameaça pronunciada com a mesma casualidade de uma previsão do tempo.
A instalação se espalhava diante de nós — um conjunto de edifícios baixos de metal, cercados por muros encimados por tela de arame e arame farpado com lâminas. Torres de vigia marcavam o perímetro em intervalos regulares, seus holofotes varrendo o terreno em padrões metódicos. Ao longe, eu podia ouvir uivos de animais, um som que fazia disparar todos os alarmes primitivos do meu corpo. No centro do complexo havia uma grande clareira de terra batida, vazia, exceto por uma plataforma elevada que parecia perturbadoramente um palco.
Era ali que nos separavam. Onde decidiam quem vivia, quem trabalhava, quem sofria e quem morria.
Um homem saiu do maior edifício e, mesmo à distância, eu percebi que ele era diferente dos guardas. Movia-se com a confiança de quem é dono de tudo, o uniforme mal ajustado esticado sobre uma barriga considerável, uma arma na cintura em destaque e um cassetete de metal na mão. Ele nos examinou como um fazendeiro examinaria gado no mercado — avaliando, calculando, já nos dividindo mentalmente em categorias de utilidade.
“Formem três filas! Rápido!” Os guardas nos empurraram para uma formação tosca. Acabei na fileira do meio, tentando parecer pequena, tentando ser apenas mais um rosto em uma multidão de mulheres exaustas e apavoradas.
O homem gordo caminhou ao longo da primeira fileira, usando o bastão para erguer queixos, virar rostos, às vezes cutucando ombros ou quadris. Sua expressão nunca mudava — a avaliação impassível de um mercador diante de mercadoria. Atrás dele, um oficial mais jovem, com um tablet, fazia anotações, atribuindo a cada mulher uma letra. A. B. C.
Eu não precisava perguntar o que aquelas letras significavam. Via na forma como ele se demorava em certas mulheres, na maneira como outras eram descartadas com mal uma olhada. A significava jovem, atraente, relativamente pouco danificada. B significava útil para trabalho braçal. C significava...
Eu não queria pensar no que C significava.
Um guarda se aproximou do homem gordo, prestando continência de forma displicente. — Bom dia, Barão.
— Bom dia. — A voz do homem se espalhou pela clareira enquanto ele nos examinava com satisfação indisfarçada. — Lote de qualidade desta vez. Parece que o príncipe Edwin sabia se divertir. Separem com cuidado — se o Lorde Dragão se agradar de alguma delas, quaisquer migalhas que ele nos jogar vão nos manter confortáveis por um ano.
O Barão Voss chegou à fileira do meio. Chegou até mim.
O metal frio do bastão pressionou meu maxilar, forçando minha cabeça para cima. Mantive os olhos baixos — sem encarar diretamente o olhar dele, mas sem demonstrar desafio também. A Academia tinha me ensinado avaliação tática; três anos com Edwin tinham me ensinado a sobreviver por meio de submissão calculada. Fiquei perfeitamente imóvel enquanto ele estudava meu rosto, o hálito carregando um cheiro agridoce de álcool e de algo podre.
— Nada mal — disse ele, quase para si mesmo. A mão livre agarrou meu braço, apertando com força suficiente para doer, testando o músculo sob a pele. — Mãos macias. Pele lisa. Boa estrutura óssea. — Ele circulou ao meu redor devagar, e senti seu olhar rastejando por cada centímetro do meu corpo através da camisola fina e rasgada que eu ainda vestia. — Sem calos, sem cicatrizes. Você foi mantida com conforto.
Meu coração martelava contra as costelas.
O Barão Voss grunhiu, aparentemente satisfeito. — Categoria A. Anote. — Passou para a mulher seguinte sem dizer mais nada, mas captei o olhar calculista que ele trocou com o assistente. Estavam reservando algumas para algo específico. Para alguém específico.
A triagem continuou. As mulheres de categoria A foram separadas das outras, conduzidas para um lado do complexo. Contei doze de nós quando o Barão terminou a inspeção — doze mulheres consideradas valiosas o bastante para serem preservadas, pelo menos temporariamente. As mulheres de categoria B foram levadas para um conjunto diferente de prédios, os rostos já assumindo a exaustão vazia de quem se resignou ao trabalho pesado. As de categoria C...
Desviei o olhar antes de ver para onde eram levadas. Algumas coisas, eu estava aprendendo, era melhor não testemunhar.
— Prisioneiras de categoria A, escutem com atenção. — A voz do Barão atravessou o complexo quando a luz da alvorada começou a subir pelas muralhas. — Vocês estão sendo mantidas para uma designação especial. Comportem-se, sigam ordens, e serão bem tratadas. Causem problemas... — Ele sorriu, exibindo dentes amarelados. — Bem. Vocês ouviram os lobos.
Como se tivessem esperado a deixa, aqueles uivos distantes se ergueram outra vez, agora mais próximos. Várias mulheres se encolheram. Forcei-me a permanecer imóvel, a não demonstrar nada. Medo era uma fraqueza ali. Medo me faria ser morta — ou coisa pior.
— Levem-nas para a detenção — ordenou o Barão. — Alojamentos limpos. Elas precisam parecer apresentáveis quando o Comandante chegar para a inspeção.
Meu sangue gelou. Comandante. Só havia um Comandante que justificaria esse nível de preparação, essa triagem cuidadosa e a preservação de prisioneiras específicas.
Silas Cross estava vindo para cá.
