Capítulo 5
Ponto de vista de Natalie
Trancaram a gente num prédio comprido e baixo que talvez um dia tivesse sido um alojamento. Era mais limpo do que eu esperava — beliches de madeira com colchões finos, cobertores ásperos com cheiro de desinfetante, um balde no canto para as necessidades. Havia grades nas janelas, mas pelo menos eram janelas. Pelo menos não estávamos na lama.
Escolhi um beliche no canto, o mais longe possível da porta, e me sentei com cuidado. Meu corpo começava a fazer um inventário dos ferimentos agora que o perigo imediato tinha passado — hematomas de ter sido sacudida e arremessada dentro do caminhão, cortes nos pés por causa dos detritos do acampamento, e as dores mais profundas do uso final que Edwin fizera de mim. Enrolei um dos cobertores nos ombros e tentei parar de tremer.
As outras mulheres se acomodaram com diferentes graus de alívio e resignação. Algumas desabaram nos beliches e adormeceram em poucos minutos. Outras se juntaram, encolhidas, sussurrando em línguas que eu não reconhecia. Algumas apenas se sentaram e encararam o nada, com os olhos já carregando aquele vazio de mil jardas que eu tinha visto em prisioneiras de longa data.
— Primeira vez?
A voz veio do beliche ao lado do meu. Quem falou era mais velha do que a maioria de nós — talvez no fim dos trinta, com o cabelo escuro marcado por fios grisalhos e olhos que ainda não tinham perdido totalmente o foco. Ela me analisou com o olhar avaliador de alguém que aprendera a ler pessoas para sobreviver.
Assenti.
— Sou Lydia. Estou aqui há três meses. — Ela se mexeu no beliche, fazendo uma careta de leve. — Quer um conselho?
— Sim. — Minha voz saiu rouca. Limpei a garganta e tentei de novo. — Por favor.
— Não tente fugir. Os lobos são reais — o Baron mantém uma matilha deles nas colinas lá atrás. Eles vão farejar você, te alcançar e te matar devagar. — O tom de Lydia era objetivo, como se ela estivesse falando do tempo. — Não tente enfrentar os guardas. Eles têm armas e permissão para usar. E não confie em ninguém que ofereça ajuda — sempre tem um preço, e sempre é pior do que você imagina.
Ela fez uma pausa, e sua expressão amoleceu um pouco.
— O mais importante: se um oficial se interessar por você, não resista. Só... acompanhe. Faça o que eles quiserem. É o único jeito de conseguir comida decente, de evitar os piores trabalhos. É assim que você sobrevive tempo suficiente para, quem sabe, um dia sair daqui.
As palavras caíram sobre mim como cinzas. Três meses. Ela vinha sobrevivendo a isso havia três meses, seguindo aquelas regras. Por quanto tempo eu teria de segui-las? Quanto tempo até segui-las quebrar alguma coisa dentro de mim que nunca mais pudesse ser consertada?
— O Comandante — eu disse em voz baixa. — O Baron mencionou um Comandante vindo para uma inspeção. Você sabe...
— O próprio Senhor Dragão. — A voz de Lydia caiu para quase um sussurro, e eu vi um medo verdadeiro atravessar o rosto dela. — Silas Cross. O Baron sempre guarda as melhores prisioneiras para quando ele vem. Se o Cross quer alguém, o Baron entrega — sem perguntas, sem negociação. Mas... — Ela parou, com a expressão perturbada. — Estou aqui há três meses e nunca vi ele levar ninguém. Dizem que ele raramente faz isso. Mas os rumores... — A voz baixou ainda mais. — Dizem que ele é doentio. Que gosta de quebrar mulheres, de fazê-las sofrer. Se algum dia ele escolher alguém...
Ela não terminou, mas nem precisava.
Eu me peguei rezando em silêncio, desesperadamente, para continuar invisível quando ele chegasse. Para que o olhar dele passasse por mim como passara por tantas outras. Para que eu fosse comum demais, insignificante demais para chamar a atenção de um homem que, diziam, sentia prazer na crueldade.
— Obrigada — eu disse a Lydia. — Pelo conselho.
Ela me deu um sorriso triste. — A gente só está tentando aguentar mais um dia. No fim, sobreviver é isso: mais um dia. Mais um dia.
Vieram buscar a gente no meio da manhã. Guardas com fuzis, berrando ordens, nos tocando para fora do prédio e de volta à clareira central do complexo. Dessa vez havia cadeiras armadas — coisas rústicas de madeira dispostas em semicírculo, como assentos de teatro para alguma apresentação grotesca.
— Em fila! Costas retas! Sem conversa! — O barão Voss andava de um lado para o outro à nossa frente, a agitação visível em cada movimento. Ele não parava de olhar na direção do portão principal do complexo, conferindo o relógio, alisando o uniforme. Fosse lá o que estivesse para acontecer, o deixava nervoso.
Atrás dele, eu via os guardas se preparando — checando armas, ajeitando uniformes, garantindo que cada detalhe estivesse perfeito. O complexo em si parecia diferente à luz do dia — mais limpo, mais organizado, os sinais de violência e degradação cuidadosamente escondidos ou “higienizados”. Eles estavam montando um espetáculo.
Para ele.
O som chegou até nós antes de vermos qualquer coisa — um trovão grave e ritmado que parecia vir de todos os lugares ao mesmo tempo. O chão tremeu de leve. Várias mulheres ofegaram, e um guarda imediatamente avançou com o cassetete erguido, mas elas conseguiram conter as reações.
Então o comboio apareceu.
Seis veículos blindados pretos atravessaram os portões em formação perfeita, as placas de blindagem refletindo o sol da manhã. Moviam-se com precisão militar, parando em uma linha coordenada que denunciava treinamento sem fim e disciplina absoluta. Soldados desceram — não os guardas brutos da fronteira que comandavam aquele lugar, mas militares profissionais em uniformes pretos impecáveis, com movimentos secos e sincronizados.
O barão Voss endireitou o uniforme pela última vez e se apressou para a frente, a confiança de antes substituída por algo desconfortavelmente parecido com medo.
A porta do veículo do meio se abriu.
Silas Cross desceu.
Mesmo à distância, mesmo cercado de soldados armados e equipamento militar, ele dominava o espaço. Alto e esguio em seu uniforme preto, com a insígnia de asas duplas de Valkyria brilhando no peito, ele examinou o complexo com a mesma avaliação fria que eu tinha visto no acampamento em chamas. Seu rosto era feito de ângulos afiados e linhas ainda mais duras, bonito do jeito que uma lâmina é bonita — belo e mortal e totalmente sem misericórdia.
O barão praticamente tropeçou em si mesmo ao se aproximar. — Comandante Cross. É uma honra receber sua visita. Eu preparei—
— Já separaram? — A voz de Silas cortou o falatório do barão como uma faca. Baixa. Precisa. Absoluta.
— Sim, sim, comandante. — O barão gesticulou na nossa direção com ansiedade. — Todas de classe A. Eu mesmo as processei.
O olhar de Silas varreu nossa fila. A expressão não mudou — sem interesse, sem nojo, nada. Podíamos muito bem ser caixotes de mantimentos, de tão pouca emoção que ele demonstrava. Seus olhos passaram por cada mulher com eficiência mecânica, avaliando e descartando no mesmo instante.
Então o olhar dele chegou até mim.
E parou.
Durou menos de um segundo. Um batimento. Um fôlego. Mas senti o ar prender na garganta, senti cada instinto gritando para eu correr, mesmo sabendo que não havia para onde ir. Aquele era um homem que podia acabar com a minha vida com uma palavra, que tinha poder absoluto sobre eu viver ou morrer, e, por aquele único batimento, eu tive certeza de que ele estava decidindo qual seria.
Então ele desviou o olhar, a atenção voltando para o barão. — Não tem nada de impressionante aqui.
