Capítulo 7

Ponto de vista de Natalie

O transporte militar seguia para o norte, sacolejando por um terreno cada vez mais árido. Eu estava sentada no compartimento de carga sem aquecimento, observando pela janela estreita enquanto a vegetação rasteira dava lugar a rocha fraturada pelo gelo e pedra esculpida pelo vento. O tipo de terra devastada que só existia onde dois impérios se atritavam um contra o outro como placas geológicas.

A temperatura tinha caído. Eu conseguia ver minha respiração se condensando no ar. O vestido fino de prisioneira não fazia nada contra o frio que se infiltrava pelas paredes de metal.

Meus dedos remexiam a plaqueta de metal ao redor do meu pescoço. Prisioneira 2347. As bordas eram afiadas o bastante para cortar se eu pressionasse com força demais. O número tinha se tornado um mantra, algo em que me concentrar em vez do nó crescente de pavor no meu estômago.

O ronronar do dragão ainda ecoava na minha memória. Aquele som grave, ressonante, que fizera minha caixa torácica vibrar. Que atraíra todos os olhares no complexo e selara meu destino.

Eu não entendia. Não entendia por que uma criatura de puro instinto predatório olharia para mim como se eu fosse algo precioso. Algo que valesse a pena proteger.

Mas eu entendia perfeitamente o que aquilo significava para a minha sobrevivência.

Silas Cross achava que eu era perigosa. Achava que eu era uma ameaça à única coisa que ele claramente valorizava acima de tudo.

E homens como ele não toleravam ameaças. Eles as eliminavam. Eu tinha sido arrancada de um pesadelo e jogada em algo que podia se revelar muito pior.

O transporte deu um solavanco ao passar por terreno irregular. Apoiei-me na parede de metal, meus pés descalços se firmando no piso estriado. Baron não tinha providenciado sapatos. Meus pés já estavam em carne viva, com sangue fresco escorrendo de um corte no calcanhar.

A dor física era suportável. Familiar.

Era o peso psicológico que ameaçava me esmagar. A consciência de que eu tinha trocado um captor por outro. Um conjunto de correntes por um tipo diferente de amarra.

O caminhão começou a desacelerar.

Pela janela, tive meu primeiro vislumbre do que havia adiante. Minha respiração falhou, apesar dos meus esforços para manter a compostura.

O posto de controle surgiu da paisagem como algo talhado da própria montanha. Uma muralha de fortaleza de metal escuro se erguia a cinco metros de altura. Uma rede eletromagnética crepitava suavemente ao longo do topo. Torres de armas automatizadas acompanharam nossa aproximação com precisão mecânica.

Soldados estavam de pé em torres de vigia, rifles apontados para a estrada com uma vigilância casual. A cada cinquenta metros, outra torre. Cada uma ocupada. Cada uma equipada com poder de fogo suficiente para transformar qualquer ataque em um massacre.

Aquilo não era uma base militar.

Era uma fortaleza projetada para resistir a um cerco. Para repelir ataques de dragões e ofensivas terrestres da mesma forma. O tipo de instalação que só alguém com autoridade absoluta poderia comandar.

Alguém que não respondia a ninguém.

O transporte parou no primeiro posto de controle. Ouvi vozes do lado de fora. Trocas secas de senhas e códigos de autorização. O bipe eletrônico de equipamentos de escaneamento.

O enorme portão de aço se abriu. Além dele, um segundo posto de controle. Depois um terceiro.

Cada um mais fortificado que o anterior. Cada um desfazendo qualquer ilusão remanescente de que escapar seria possível.

Quando o transporte finalmente parou e a porta traseira se abriu, eu me vi encarando algo que fazia o complexo de Baron parecer um acampamento temporário.

Estávamos num pátio talhado em rocha vulcânica. Os edifícios combinavam arquitetura militar moderna com algo mais antigo. Algo construído para durar séculos, e não décadas.

Soldados se moviam pelo espaço com eficiência sincronizada. Uniformes pretos, impecáveis. Os movimentos denunciavam treinamento incessante e disciplina absoluta.

— Fora. — A ordem veio de um dos soldados que tinha viajado comigo. O tom era neutro. Nem hostil, nem gentil. Apenas constatava um fato.

Eu era carga a ser descarregada. Nada mais.

Desci do transporte. Meus pés descalços tocaram a pedra fria. O choque da sensação subiu pelas minhas pernas.

O pátio era enorme. Ao longe, eu via uma plataforma de pouso onde helicópteros militares estavam alinhados em filas certinhas. Um campo de treinamento onde soldados praticavam combate corpo a corpo. E, além disso, surgindo da própria face do penhasco, entradas de cavernas gigantescas que só podiam ser covis de dragões.

A dimensão de tudo aquilo era sufocante. Aquilo representava décadas de investimento e controle absoluto do território.

No ponto mais alto da fortaleza, erguia-se uma torre negra. O centro de comando. O domínio pessoal do Senhor dos Dragões. Uma bandeira tremulava no topo. A insígnia de duas asas de Valkyria estalava ao vento.

— Por aqui. — Outro soldado gesticulou na direção de um prédio menor, adjacente à torre principal.

Mas, antes que eu conseguisse dar mais do que alguns passos, um veículo diferente entrou no pátio.

O carro blindado preto do complexo do Baron. Ele se movia com uma precisão suave, até parar diretamente no meu caminho.

Meu coração disparou.

Eu sabia quem estava naquele veículo. Sabia com absoluta certeza de que o que acontecesse a seguir determinaria se eu sobreviveria ao dia.

A porta traseira se abriu. Kain saiu. A expressão dele era profissionalmente neutra enquanto o olhar percorria meu corpo. Avaliando minha aparência desalinhada. Meus pés descalços e sangrando. Meu aperto de dedos brancos na plaqueta de prisioneira.

— O Comandante quer ela no veículo dele.

Os soldados trocaram olhares, mas não disseram nada. Um deles apenas apontou para a porta aberta.

Entre.

Aproximei-me com pernas que queriam tremer. Tentando desesperadamente manter a compostura enquanto cada instinto gritava avisos.

Tão perto, eu conseguia enxergar através dos vidros escurecidos o interior. Bancos de couro em cinza profundo. Acabamentos de metal polido. Um tipo de luxo que falava de riqueza e poder numa escala completamente diferente de tudo que eu já tinha conhecido.

O carpete estava impecável. Um tom mais claro que os bancos.

Olhei para baixo, para meus pés sujos e sangrando, com um horror crescente.

Eu não podia entrar ali. Não podia arrastar lama e sangue por aquele interior imaculado. A ideia de violar padrões de limpeza tão óbvios fez meu estômago se contrair.

Eu tinha aprendido bem demais o que acontecia quando você não atendia às expectativas de quem mandava.

Mas os soldados estavam esperando. Kain estava esperando.

E, em algum lugar dentro daquele veículo, Silas Cross estava esperando.

Hesitei na entrada. Meu corpo congelado entre o instinto de obedecer e o pavor de causar uma ofensa. Meus dedos apertaram a plaqueta de metal até as bordas cortarem a palma da minha mão.

— Entre. — A voz de Kain não tinha impaciência. Nem raiva. Apenas a mesma neutralidade profissional.

Mas a ordem era absoluta.

Eu entrei no veículo.

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