Capítulo 8

Ponto de vista de Natalie

A porta se fechou atrás de mim com um clique suave. Como a porta de uma cela trancando. De repente, eu estava selada naquele espaço confinado com o homem que tinha a minha vida nas mãos.

A temperatura era controlada. Vinte e quatro graus. Quente o bastante para parar o tremor, mas não o bastante para ser confortável no meu vestido fino.

Os bancos de couro cheiravam a cedro e a mais alguma coisa. Algo que talvez fosse um cheiro de dragão. Eu ouvia o zumbido fraco de sistemas eletrônicos embutidos nos apoios de braço.

Silas Cross estava sentado à minha frente.

A postura dele era relaxada de um jeito que, de alguma forma, o tornava mais intimidador, não menos. Uma mão descansava no apoio de braço. A outra segurava aquele isqueiro de latão, virando-o e revirando-o com uma precisão distraída.

Ele usava o mesmo uniforme preto. A insígnia do dragão no ombro captava a luz fraca do interior. Aqueles olhos negros estavam fixos em mim com uma intensidade que dificultava respirar.

Eu me pressionei contra a porta. Tentando me fazer o menor possível. Só consegui me empoleirar na beirada do assento. Mantendo meus pés sujos encolhidos junto ao corpo.

Apavorada com a ideia de que qualquer movimento pudesse espalhar lama e sangue em superfícies que provavelmente custavam mais do que o salário mensal do meu pai tinha sido.

O silêncio se alongou.

O isqueiro fazia seu clique baixo. Abre, fecha, abre, fecha. Cada ciclo marcando o tempo com precisão mecânica.

O olhar de Silas não vacilava. Eu sentia que ele catalogava cada detalhe. Meus pés descalços. Meu vestido de prisioneira. Meu aperto de dedos esbranquiçados na borda do assento. O jeito como minha respiração tinha ficado curta de medo.

O veículo começou a se mover. A transição foi tão suave que eu mal senti.

Pelas janelas escurecidas, eu via a fortaleza passando. Mais postos de controle. Mais soldados. Mais evidências do controle absoluto que Silas Cross exercia sobre aquele domínio.

A cada metro que avançávamos mais fundo no território dele, a realidade da minha situação ficava mais incontornável.

Eu estava na fortaleza do Senhor Dragão. No veículo dele. Sob o escrutínio direto dele.

E eu não fazia ideia do que ele queria de mim. Do que ele suspeitava que eu fosse. Nem por quanto tempo eu sobreviveria quando ele decidisse que eu era uma ameaça que precisava ser eliminada.

O clique parou.

— Levante os pés.

A ordem foi baixa. Precisa. Absolutamente inegociável.

Eu obedeci na mesma hora. Erguendo os pés do chão.

Só então eu vi o que tinha feito. Marcas escuras atravessando a superfície impecável. Pequenos pontos onde o sangue tinha encharcado as fibras.

O horror me atravessou numa onda gelada.

— Me desculpe — eu arquejei. Baixei a mão com a manga para tentar limpar as manchas. Minhas mãos tremiam tanto que eu mal conseguia coordenar o movimento. — Me desculpe, eu não quis, eu vou limpar, me desculpe, eu—

O veículo deu um solavanco e parou de repente.

Minha cabeça foi projetada para a frente. A testa batendo com força no encosto do banco, forte o bastante para fazer estrelas explodirem pela minha visão.

Eu me apoiei com uma mão. A outra apertou minha testa latejante. Mordi o lábio com força para não gritar.

Lágrimas arderam nos meus olhos por causa do impacto. Mas eu as empurrei de volta. Me obriguei a ficar em silêncio.

Eu tinha aprendido fazia muito tempo que mostrar dor só piorava as coisas.

Quando ousei erguer o olhar, Silas me observava. Algo que poderia ser divertimento tremeluzia no canto da boca dele. E sumiu tão rápido que talvez eu tivesse imaginado.

— Aquele carpete — ele disse. O tom era de conversa. — Custou vinte mil dólares.

O número me atingiu como um golpe físico.

Vinte mil dólares.

Era o que meu pai ganhava em um mês quando estava no auge da carreira. Antes das acusações, do julgamento e da execução.

Vinte mil dólares era o que eu tinha acabado de estragar com meus pés imundos e sangrando.

Abri a boca, mas nenhuma palavra saiu.

O que eu poderia dizer? Como eu poderia, algum dia, reparar um dano daquele tamanho?

O olhar de Silas permaneceu cravado em mim. Observando meu pânico com a mesma avaliação fria.

Então ele disse algo que, de algum modo, piorou tudo.

— Já que é minha propriedade, não faz diferença se ficar sujo.

Demorei um instante para processar as palavras.

Minha propriedade. Não o carpete. Eu.

Eu era propriedade dele agora. Assim como o carpete. Assim como aquele veículo. Assim como aquela fortaleza e todos dentro dela.

Uma coisa que podia se sujar. Podia se danificar. Podia ser limpa ou descartada por completo, à discrição dele.

A implicação caiu sobre mim como água gelada.

Eu não era mais uma pessoa. Não de verdade.

Eu era um problema que ele precisava resolver. Uma ameaça em potencial que ele precisava avaliar e neutralizar ou utilizar.

E a decisão sobre qual dessas opções seguir estava inteiramente nas mãos dele.

O veículo retomou a viagem.

Eu me mantive congelada no meu canto. Os pés ainda erguidos acima do carpete arruinado. A mente disparando em cálculos que todos levavam à mesma conclusão.

Eu estava completa, absolutamente à mercê dele.

E homens como Silas Cross não tinham misericórdia. Tinham objetivos. Tinham padrões. Tinham regras que você ou obedecia ou morria ao quebrar.

Pela janela, eu via que estávamos nos aproximando da torre negra. O centro de comando que se erguia acima de tudo, como um monumento ao poder absoluto.

O veículo entrou numa garagem subterrânea. Descendo por múltiplos níveis de segurança até chegarmos ao que só podia ser uma entrada privada.

Quando o veículo finalmente parou e a porta se abriu, me vi encarando a entrada de um elevador, ladeada por dois guardas em uniformes pretos.

Não eram os guardas de fronteira brutamontes do complexo do Baron. Eram soldados profissionais, com cara de quem matava com eficiência e sem hesitar.

Eles ficaram em posição de sentido quando Silas saiu do veículo. As expressões cuidadosamente neutras, mesmo enquanto os olhos acompanhavam cada movimento com precisão treinada.

Silas se virou para me olhar. Eu ainda espremida contra a porta. Ainda mantendo meus pés longe do carpete.

— Saia.

Eu me atrapalhei para obedecer. Meus pés descalços tocaram o concreto frio. A sensação me fez soltar um suspiro ofegante.

A garagem estava impecável. Nem uma gota de óleo. Nem um grão de sujeira. Cada veículo perfeitamente alinhado.

Até o ar tinha cheiro de limpeza. Filtrado e com temperatura controlada.

Era o tipo de ambiente que fazia a minha presença desalinhada e sangrando parecer uma contaminação. Algo que precisava ser limpo ou removido antes de se espalhar.

— Kain. — A voz de Silas carregava a mesma autoridade baixa que fazia as pessoas se apressarem para obedecer.

Seu segundo no comando apareceu de algum lugar atrás de mim. Movendo-se com eficiência silenciosa.

— Leve-a para a ala médica. Limpe e trate. Depois, providencie para que a tragam ao nível residencial. Quero vigilância total — câmeras, monitoramento de áudio, rastreamento de localização. E quero uma verificação completa do histórico dela: família, educação, conexões, capacidades. Tudo.

— Sim, senhor. — A resposta de Kain foi imediata. Profissional. Sua expressão não entregou nada.

O olhar de Silas voltou para mim uma última vez. Aqueles olhos negros prenderam os meus com uma intensidade que tornava impossível desviar.

— Você diz que não sabe por que meu dragão reagiu a você. Nós vamos descobrir se isso é verdade.

Ele fez uma pausa. Algo em sua expressão endureceu.

— E, se eu descobrir que você mentiu para mim sobre o que você é ou sobre o que é capaz de fazer, você vai aprender exatamente por que as pessoas temem o Senhor dos Dragões.

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