Capítulo 4
~CAÇADOR~
Três anos fora, e agora eu estava de volta para casa. De volta ao lugar que eu havia jurado nunca mais retornar.
É estranho como, apesar de tudo o que aconteceu entre meu pai e eu, ele nunca deixava de me lembrar por que eu podia desfrutar da vida que estava vivendo.
"Tudo o que eu possuo é seu," ele havia dito uma vez.
Bem, agora eu planejava deixar minha marca em todos os lugares até que o nome do meu pai se tornasse nada além de uma memória.
Uma batida na porta me tirou dos meus pensamentos. Não me dei ao trabalho de me afastar da janela do chão ao teto à minha frente, meu olhar fixo no horizonte de Nova York.
O sol estava se pondo, seus tons alaranjados inundando o quarto com um brilho quente. Era bonito, quase pacífico.
"Entre," eu disse, minha voz afiada, mas baixa.
A porta rangeu ao se abrir, e o Sr. Tallace, o gerente desta filial do hotel, entrou cautelosamente.
"Sim?" perguntei friamente, sem me mover do meu lugar.
Ele gaguejou, claramente nervoso. "Eu... eu cumpri suas instruções, senhor. A senhorita Brown foi demitida."
Ao ouvir o nome, arqueei uma sobrancelha. "Senhorita Brown?" perguntei, finalmente virando-me para encará-lo. Caminhei até minha cadeira e me sentei, meus olhos nunca deixando o homem trêmulo à minha frente.
"A jovem com uma criança," ele explicou, sua voz vacilante. "Aquela que você me pediu para dispensar."
Ah, sim. Ela. Como eu poderia esquecer? Aqueles olhos dela—cansados, sem esperança e assustados—estavam gravados na minha memória. Mas não era ela que permanecia mais na minha mente. Era o menino.
O rosto dele era um espelho do meu quando criança, e eu odiava isso.
Odiava ser lembrado do menino quebrado que eu costumava ser.
Eu deveria estar furioso com a equipe do hotel por tê-la contratado em primeiro lugar—uma jovem mãe com uma criança a reboque. "O Aurelia" e sua equipe deveriam simbolizar a perfeição.
Eu havia trabalhado duro demais para garantir nosso lugar entre os dez melhores do mundo para que eles contratassem qualquer um.
"Quem autorizou a contratação dela?" perguntei, meu tom gelado. "Uma mãe e seu filho no meu hotel? Imagine o que os hóspedes diriam se descobrissem. Alguns até poderiam chamar isso de abuso."
O Sr. Tallace visivelmente estremeceu sob meu olhar, seus joelhos dobrando enquanto ele caía no chão. Sua cabeça se abaixou, sua voz tremendo.
"Eu sinto muito, senhor. Foi um erro da minha parte. Eu não sabia que ela traria o filho para o trabalho," ele gaguejou.
"Então, você está dizendo que ela te enganou?" perguntei, zombando em descrença.
A garota que eu tinha visto mais cedo era fraca, frágil e aterrorizada. Essas eram características que eu odiava, mas vê-la se debater de medo me deu uma sensação perversa de satisfação.
Não era suficiente.
Eu queria vê-la quebrar ainda mais.
Eu não sentia nada desde que cheguei de volta aqui—nem raiva, nem dor, nem mesmo alegria. Apenas um vazio oco e entorpecedor.
Dr. Logan, meu terapeuta, uma vez me disse que isso era devido aos meus traumas de infância não resolvidos. Ele me aconselhou a me abrir para as pessoas, tentar namorar, encontrar hobbies, ou pelo menos parar de me enterrar no trabalho.
Mas eu não era do tipo que ouvia.
"Aquela coisa fraca te enganou?" repeti, o canto da minha boca se torcendo em um sorriso frio. "Parece que eu preciso começar a limpar a casa. Trabalhadores incompetentes não têm lugar aqui. Você está demitido."
"O quê?" o Sr. Tallace engasgou, sua voz cheia de descrença. "Mas... mas, senhor, eu não fiz nada de errado!"
"Nada de errado?" repeti, levantando-me enquanto voltava para a janela. "Você permitiu uma responsabilidade entrar no meu hotel. Isso, por si só, é errado. Saia daqui, Sr. Tallace, ou chamarei a segurança para te arrastar para fora."
O silêncio pairou no ar por um momento antes que o som de passos apressados enchesse o quarto. O Sr. Tallace não teve escolha a não ser sair, o clique suave da porta sinalizando sua saída.
Mais uma vez, eu estava sozinho.
O sol quase havia desaparecido agora, o quarto ficando mais escuro enquanto o horizonte brilhava com as luzes da cidade.
Cerrei os punhos, olhando para o vidro até que meu reflexo se tornasse embaçado.
Eu odiava aquele garoto. Aquele que tinha me encarado com olhos inocentes de criança.
Eu os odiava ambos.
E eu não pararia até que tudo neste lugar—tudo o que meu pai um dia prezou—fosse meu para destruir.
~CELINE~
Uma semana havia se passado desde que fui demitida da “Aurelia.” Sete dias arrastando César de um hotel para outro, preenchendo formulários e esperando por uma chance mínima de emprego.
A resposta era sempre a mesma: “Entraremos em contato.”
Alguns realmente entravam. Apenas para me dizer que eu não consegui o emprego.
Eu estava sentada em um pequeno café perto do local de trabalho da Caroline, com os dedos firmemente segurando uma xícara de café morno. Não era muito, mas era tudo o que eu podia pagar. A última coisa que eu precisava era que César notasse o quão perto estávamos de ficar sem dinheiro.
Pelo menos Caroline estava prosperando. A riqueza e as conexões de sua família tinham pavimentado o caminho para ela viver a vida dos seus sonhos. Ela tinha me ligado mais cedo para encontrá-la para o almoço. Não que eu tivesse algo melhor para fazer.
“O que posso trazer para você e esse príncipe encantado?”
Uma voz alegre interrompeu meus pensamentos. Olhei para cima e vi uma garçonete morena sorrindo calorosamente para mim, seu bloco de notas suspenso na mão.
“Ah, olá,” eu disse suavemente, conseguindo esboçar um leve sorriso em resposta. Peguei o cardápio, mas as palavras se embaralhavam. Nada parecia acessível.
“Seu filho é adorável,” disse a garçonete, sua voz tingida de genuína admiração.
Abaixei o cardápio um pouco, olhando para César. Ele estava feliz, entretido com seu caminhão de brinquedo, cantarolando uma melodia para si mesmo. Por um momento, meu coração se acalmou.
“Obrigada,” eu disse, minha voz mais baixa agora.
“Ele tem traços tão marcantes,” a garçonete acrescentou, olhando para algo atrás de mim. “Ele me lembra dele. Ele é o pai?”
Suas palavras me congelaram no meio da respiração. Lentamente, abaixei o cardápio completamente e me virei para seguir seu olhar.
Ele pousou em um outdoor do outro lado da rua.
Hunter Reid.
Seu rosto dominava a cidade, maior que a vida, como se ele possuísse cada canto dela. Meu peito se apertou, a raiva borbulhando sob a superfície. Aquele rosto presunçoso e arrogante me assombrava mesmo quando eu não estava procurando por ele.
Ele era a razão pela qual eu tinha sido demitida. A razão pela qual eu estava aqui agora, sentada neste café sem emprego e com a esperança diminuindo.
Eu zombei internamente. César não se parecia com ele, nem de longe. E mesmo que se parecesse, a ideia de Hunter ser seu pai fazia meu estômago revirar.
“Eu não o conheço,” eu disse secamente, minha voz mais afiada do que pretendia.
A garçonete piscou, claramente pega de surpresa. “Ah... eu só pensei, pela semelhança—”
“Ele não é o pai,” cortei-a, meu tom aumentando antes que eu pudesse me controlar. Minha voz se espalhou pelo café, atraindo olhares curiosos das mesas próximas.
“Um homem como ele nunca poderia ser pai,” acrescentei, amargura escorrendo de cada palavra.
A garçonete se mexeu desconfortavelmente, seu sorriso anterior vacilando. “Desculpe,” murmurou, dando um pequeno passo para trás como se sentisse que tinha ultrapassado um limite.
Cerrei o maxilar, o calor subindo ao meu rosto ao perceber o quão alto eu tinha falado. Meus dedos tremiam enquanto seguravam a borda da mesa. Isso era culpa dele.
Mesmo quando ele não estava aqui, Hunter Reid ainda tinha o poder de arruinar meu dia.
Olhei para César, que estava brincando com seu caminhão. Ele parecia feliz e não notava a tensão ao redor. Respirando fundo, me forcei a acalmar.
“Está tudo bem,” eu disse baixinho, embora minha voz estivesse cansada.
A garçonete assentiu rapidamente e se afastou, me deixando sozinha com meus pensamentos.
Eu olhei para o meu café, o líquido morno refletindo o vazio no meu estômago. Não importava o quanto eu tentasse seguir em frente, a sombra dele pairava sobre cada passo que eu dava.
Hunter Reid.
O homem que destruiu minha vida com uma única e descuidada decisão—e saiu sorrindo.
