Capítulo 9 O interessante

POV do Ryder

A rua do lado de fora da loja estava quieta.

Eu me afastei do prédio devagar, com as mãos nos bolsos da jaqueta, as botas fazendo baques suaves no calçamento de pedra. O ar da noite estava quente, e as luzes das lojas próximas projetavam sombras compridas pela rua.

Atrás de mim, a porta da loja de vestidos se fechou.

Elara. Garota interessante. Muito interessante.

Eu ainda conseguia ver a expressão dela, os olhos se estreitando quando eu me aproximei do lado de fora do apartamento. Ela desconfiava muito de mim. Se protegia bem. Como uma loba que aprendeu cedo a não confiar em ninguém.

Eu gostei disso. Muito.

Um assobio baixo veio do beco à minha direita. Virei a esquina com naturalidade. Ivan estava encostado na parede de tijolos, braços cruzados, enquanto Darnell, ali perto, sentado numa caixa de madeira, ficava girando uma faca entre os dedos.

Eles tinham observado o tempo todo. Ivan ergueu uma sobrancelha.

— E aí? — ele perguntou. — Isso demorou mais do que eu esperava.

Eu dei um meio sorriso.

— Ela é interessante.

Darnell bufou.

— Aquela garota? Ela mal falou cinco palavras com você.

Eu me encostei na parede em frente aos dois.

— Exatamente.

Mas ela disse o bastante pra despertar meu interesse. Eu não sei o que tem nela.

Os olhos de Ivan se estreitaram um pouco.

— Você foi falar com ela de propósito.

— Claro que fui — eu disse, direto.

Darnell parou de girar a faca.

— Por quê?

Eu dei de ombros, sem pressa.

— Curiosidade — falei, enquanto meus olhos alternavam entre os dois.

Ivan não parecia convencido.

— Você não faz as coisas por curiosidade.

Ele me conhecia bem demais. Inclinei a cabeça de leve.

— Vocês viram alguma coisa lá dentro?

Darnell trocou um olhar com Ivan. Depois assentiu.

— O arara de vestidos.

Meu sorriso se abriu. Ótimo. Ele viu também.

— O suporte se mexeu — Darnell continuou. — Quase nada. Mas mexeu.

Ivan soltou o ar devagar.

— Então não foi coisa da nossa cabeça.

— Não — eu disse, baixo. — Não foi.

Eu continuei observando as reações dos dois com atenção.

Ivan se afastou da parede.

— Você acha que ela é uma bruxa.

Eu ri, contido.

— Cuidado. Essa palavra costuma assustar as pessoas.

Balancei a cabeça e, então, uma risada de verdade escapou.

Ivan não riu.

— Você acha que ela é uma bruxa — ele repetiu, dessa vez num sussurro.

As sobrancelhas dele estavam franzidas. Ele estava falando sério. E era isso que tinha graça.

— Talvez. — Eu dei de ombros, mas não conseguia parar de pensar nela. Os olhos cor de mel com um brilho dourado. O cabelo castanho comprido, que batia na bunda. Eu sacudi a cabeça, tentando limpar os pensamentos.

Darnell se inclinou para a frente, os cotovelos nos joelhos.

— E se ela for?

Eu encarei a rua na direção do apartamento da Elara. Se ela fosse uma bruxa… isso complicava as coisas. Mas complicações podiam ser úteis. Principalmente quando pertenciam a alguém que os futuros reis estavam observando.

— Vocês viram o campo de treinamento mais cedo? — eu perguntei.

Ivan assentiu.

— As gêmeas repararam nela.

Darnell deu um sorriso torto.

— Ah, repararam sim. Com certeza.

Lembrei de como o ar tinha mudado mais cedo, quando Cassian e Atlas viram os guerreiros ao redor dela. O poder deles tinha se espalhado pelo campo. Eles ficaram muito irritados quando o grupo de guerreiros se aproximou e foi falar com ela.

Olhei de volta para eles. “Eles já estão de olho nela.”

Ivan franziu a testa. “E?”

Dei de ombros de novo. “Bom, eu reparei nela também. Se eu chegar nela antes deles.” Deixei o comentário no ar.

Darnell inclinou a cabeça. “Você acha que ela é a companheira deles?”

Eu ri. “Relaxa. Duvido. Eu só acho que eles estão interessados. Então eu preciso agir primeiro. Quero ver se, quem sabe, eu tô sentindo o chamado de companheira. Ela pode muito bem ser minha. Talvez seja por isso que eu tô tão intrigado.”

Mesmo enquanto eu falava, um pensamento estranho atravessou minha mente. E se ela for a minha companheira? Isso explicaria direitinho essa sensação que eu tenho em relação a ela. A sensação que vem quando eu a vejo. Meu lobo ainda não percebe nada, mas isso é normal.

A voz de Ivan cortou meus pensamentos.

“O quê. Você quer a garota, cara. Você realmente acha que ela pode ser sua companheira?”

“Talvez.” Dei de ombros.

Darnell enfiou a faca de volta no cinto. “Então e agora?”

Empurrei as costas da parede e me endireitei. Agora? Agora a coisa ficava divertida. “Eu continuo esbarrando nela. Vou conhecendo ela. Eu não sumo.”

Deixei a frase pairar por um instante.

A expressão de Ivan escureceu quando ele entendeu onde eu queria chegar.

O silêncio se instalou entre nós. Darnell soltou um assobio baixo. “Caramba.”

Ivan esfregou o maxilar, pensativo. “Pode funcionar.”

Claro que podia. Mas, antes, a gente precisava de informação. Virei na direção da rua. “Descubram tudo sobre ela.”

Ivan arqueou uma sobrancelha. “Tudo.”

“Tudo”, eu disse, enquanto um sorrisinho torto subia de um lado da minha boca.

Darnell também abriu um sorriso. “Quer que a gente vasculhe hoje à noite?”

Olhei para os dois. “Ah, quero sim”, respondi, deixando o sorriso aparecer no meu rosto.

Ivan cruzou os braços de novo. “E quanto ao baile?”

Ah, sim. O baile. A noite em que os gêmeos fariam dezoito anos. A noite em que o reino inteiro estaria reunido dentro do palácio. A noite perfeita para o caos. Meu sorriso foi voltando devagar.

“Nós vamos estar lá.”

Darnell deu uma risadinha. “Imaginei.”

Ivan olhou para as torres do palácio ao longe. “Você acha mesmo que isso vai dar certo?”

Encarei na mesma direção. A coroa. O trono. Tudo aquilo para o qual meu pai passou anos me preparando.

“Claro que vai.” Porque a gente planejou isso por muitos anos. Eu fui criado pra isso. Temos planos e esquemas detalhados. Nossas armas estão separadas e prontas. Mas agora só faltava uma coisa.

Só que primeiro, a gente precisava saber mais sobre a garota. Porque tinha alguma coisa na Elara que tinha despertado o meu interesse. Ela não era normal. Definitivamente tinha algo nela. Ela escondia mais do que até eu conseguia enxergar. E, se meus instintos estivessem certos, ela podia ser muito mais perigosa do que qualquer um imaginava.

E isso levantava uma pergunta bem interessante.

Se os gêmeos já estavam de olho nela… e agora eu também estava de olho… quem mais poderia estar observando?

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