Capítulo 1

Ponto de vista de Serena Sterling

Meu pai deu uma festa de aniversário para mim no meu vigésimo segundo aniversário.

Nos dez anos anteriores, ele nunca tinha dado.

Então, quando fiquei na entrada do salão de baile do Hotel The Grand Regency, vendo a luz do lustre de cristal derramar-se sobre trezentos convidados, o que senti não foi gratidão — foi desconfiança.

O salão de baile fedia a champanhe e flores — rosas, lírios-brancos, íris —, seus perfumes sobrepostos numa doçura sufocante.

Meu pai, Marcus Sterling, estava no centro da multidão, num terno impecável, rindo alto com um veterano de Wall Street de cabelo prateado. Eu reconhecia aquela risada — era a risada dele de sala de reuniões, não a risada de um pai.

Desde quando ele tinha conquistado o direito de fazer aquele papel?

Vasculhei o salão com os olhos. Vários rostos desconhecidos pontilhavam a lista de convidados: magnatas do mercado imobiliário, sócios de private equity, um incorporador do West Side de Manhattan — nomes que vinham orbitando o império empresarial de Marcus havia meses.

Aquilo não era uma festa de aniversário. Era um evento de networking, e eu fazia parte da decoração.

Então eu vi Jade Monroe.

Ela usava um vestido cor de champanhe com ombros de linhas afiadas como lâminas e a cintura apertada a um ponto impossível — eu reconheci aquele vestido. Era do acervo da marca da minha mãe, Grace Whitmore, uma peça de edição limitada não lançada, feita de cetim de seda sob medida encomendado em Lyon. Existia apenas uma no mundo.

Os brincos de esmeralda no pescoço dela fizeram minha garganta se apertar ainda mais.

Eram as joias de família da minha avó, passadas para minha mãe. Depois que mamãe morreu, os brincos sumiram da caixa de joias dela. Eu procurei, eu perguntei, mas me disseram que tinham sido perdidos.

Agora, pendiam dos lóbulos de Jade, balançando de leve enquanto ela se inclinava para sussurrar aos convidados, refratando uma luz verde e fria.

Dez anos. Ela tinha tomado o quarto da mamãe, o armário, o lugar dela nesta casa, e agora até os brincos.

Eu me lembrei do terceiro dia depois da morte da minha mãe. Jade entrou pela porta da frente da família Sterling com a mala, segurando a mão da Vivian, ainda pequena.

Eu estava no topo da escada, olhando para baixo. Jade levantou os olhos, encontrou os meus por um segundo e então continuou, instruindo os funcionários a levarem sua bagagem para a suíte principal.

Eu tinha doze anos naquele ano. Não chorei. Eu só fiquei ali, ouvindo as rodinhas da mala rolarem pelo chão de mármore, sentindo alguma coisa no meu peito se estilhaçar para sempre.

A cada ano depois disso, as festas de aniversário de Vivian ficavam mais elaboradas. O meu aniversário virava uma data discretamente ignorada.

A compensação de hoje à noite me deu calafrios na espinha.

— Serena, é o seu aniversário. Deixa eu brindar a você... feliz aniversário.

Vivian Sterling se aproximou com um sorriso radiante, estendendo uma taça de champanhe na minha direção. A voz dela soou clara, atraindo olhares dos convidados ao redor.

Ela parecia com Jade — traços delicados, um sorriso de suavidade natural. Agora, aqueles olhos carregavam uma sinceridade perfeitamente calibrada.

— Hoje não — eu disse, calma.

O sorriso de Vivian vacilou. No segundo seguinte, ela se virou um pouco na direção de Jade, ao lado dela; os olhos brilhando de umidade, a voz mais baixa, mas ainda perfeitamente audível para quem estava perto:

— Mãe, eu fiz alguma coisa errada? A Serena não quer beber comigo...

Com essas palavras, o lado oeste do salão silenciou por meio instante.

Jade suspirou, acariciando de leve a mão de Vivian.

— A Serena sempre foi fria. Não leva pro lado pessoal.

As palavras soaram atenciosas, mas me pregavam com precisão o rótulo de “ingrata e sem razão”.

Os olhos dos convidados pousaram em mim — examinando, tendo pena, observando com uma intenção difícil de decifrar.

Esta noite era o evento de networking empresarial do Marcus. Um confronto público só colocaria o Serenity Atelier numa posição vulnerável.

Serenity Atelier era a marca que minha mãe deixou para trás. Eu não podia deixar que se tornasse a baixa desta noite.

Peguei uma taça nova da bandeja de um garçom que passava e a ergui na direção de Vivian.

— Esta.

Dei um gole leve. O champanhe estava gelado, as bolhas estourando finas na minha língua.

No instante em que minha taça voltou para a bandeja, o garçom e Vivian trocaram um olhar — extremamente rápido, menos de um segundo.

Eu não percebi o que aquele olhar escondia.

Cerca de cinco minutos depois, uma sensação de ardor subiu das profundezas do meu abdômen.

Não era do álcool. A embriaguez alcoólica desce a partir do couro cabeludo — aquilo queimava para cima, a partir do meu centro, trazendo um calor anormal que não tinha nada a ver com bebida. Minha pele ficou sensível; a ponta dos meus dedos roçando o tecido transparente do vestido parecia lixa.

As bordas da minha visão começaram a embaçar de leve.

Eu tinha sido drogada.

Eu ia me desculpar e sair quando Vivian se adiantou, aproximando-se para segurar meu braço. Sua voz baixou, a expressão impecavelmente preocupada.

— Serena, você está pálida. Deixa eu te ajudar a descansar.

Para os convidados ao redor, ela era uma irmã preocupada com a irmã.

Ninguém viu o que repuxava no canto da boca dela enquanto me conduzia para longe do salão principal.

A iluminação do corredor era mais fraca do que a do salão de festas, e o carpete engolia os passos. A mão de Vivian firmava meu braço com a pressão perfeita, como se ela estivesse mesmo amparando alguém passando mal.

No lado leste do corredor, um homem estava parado ao lado da porta de um quarto de hóspedes.

Victor Kane. Um parceiro do ramo imobiliário da Sterling Holdings, conhecido nos círculos de Manhattan por “nunca jogar pelas regras nas negociações”. Alto, de terno escuro, as mãos nos bolsos, ele me varreu com os olhos como se estivesse avaliando mercadoria.

Vivian soltou meu braço e recuou meio passo.

— Serena, descanse bem. — O tom dela era calmo, como se estivesse falando de um assunto rotineiro. — É um acordo que o papai e o sr. Kane fizeram.

Alguma coisa no meu peito desabou por completo.

Victor deu um passo à frente, com aquela voz sebosa.

— O Marcus disse que você está aqui pra me fazer companhia hoje. Me deixe satisfeito e eu passo aquele projeto pra sua família.

O último fiapo de esperança que eu ainda tinha no meu pai morreu nessa frase.

No lugar, veio uma lucidez que atingiu até os ossos.

Meu joelho subiu, acertando a virilha de Victor.

Ele cambaleou com um palavrão gutural, e o celular voou do bolso. Eu o agarrei por reflexo e o arrebentei contra a mão de Vivian, que prendia meu pulso esquerdo. Ela gritou de dor e me soltou.

Eu saí disparada, descalça, pelo corredor.

Atrás de mim, a voz de Victor rosnou, tomada de fúria:

— Sua vadiazinha — quando eu te encontrar, você vai aprender o que são consequências!

A droga continuava fazendo efeito.

As luzes do corredor começaram a, de vez em quando, se abrir em halos. Minha visão parecia uma fotografia encharcada, as bordas escorrendo para dentro. Tentei puxar o celular para ligar para minha melhor amiga, Nina Matthews, mas meus dedos não obedeciam. A tela acendeu e depois apagou — eu não conseguia distinguir a senha.

O corredor se estendia à minha frente, e cada passo pesava mais do que o anterior.

No fim do corredor, a mola da dobradiça de uma porta de suíte não tinha encaixado totalmente.

Eu não tinha outra escolha.

Empurrei aquela porta e a tranquei atrás de mim.

Escorregando, com as costas contra a porta, minha coluna desceu pela madeira até eu desabar sobre o carpete grosso.

Do lado de fora, a voz furiosa de Victor ecoou:

— Vadiazinha, quando eu te achar, você não vai conseguir sair da cama hoje à noite!

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